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terça-feira, 27 de maio de 2014

A morte dos deuses

 

"Deus está morto", bradou Nietzsche em sua feroz crítica ao cristianismo, ao passo que o declínio da tragédia, também detectado pelo filósofo alemão, representou também uma passagem do pensamento mítico para o lógico...

por Simone Nardi Grama*





Os gregos foram os responsáveis por espalhar pelo mundo a sabedoria acerca da ciência e da religião. Para eles a Grécia era o centro da Terra, e o Monte Olimpo , na Tessália, era a morada de todos os deuses, de onde eles comandavam a bel prazer o destino dos homens. Havia um deus para cada ato, para cada sentimento dos filhos da Grécia. Ares, deus da guerra; Eros, deus do amor; Afrodite , deusa da beleza; Apolo, deus da música; Dionísio, deus do vinho, entre tantos outros deuses que faziam parte e regiam a vida grega.
O mundo grego era sagrado. E essa estreita ligação com os deuses igualmente permitia uma profunda união com a natureza, propiciando o que seria para eles uma vida harmoniosa e equilibrada, graças a duas potências cósmicas: Dionísio e Apolo. Porém, ocorreu um distanciamento em algum ponto da história grega, que acabou por causar o que Nietzsche chamaria de decadência do modo de viver grego, a tragédia havia sido esquecida, a morte precoce da Filosofia teria sido então anunciada, segundo o filósofo , por culpa da dialética socratiana. Nietzsche expõe claramente em suas obras esse conflito e esse distanciamento entre homens, deuses e natureza, dois mundos artísticos e antagônicos que uniam homem e natureza, cada um em seu mundo, um de sonhos e de beleza onírica , outro de uma profunda realidade. No entanto um deles havia morrido para o mundo.

Monte Olimpo
Mais alta montanha da Grécia, com 2.917 metros de altitude, o Monte Olimpo ao qual se refere o texto fi ca próximo ao Mar Egeu, na Tessália, local que, de acordo com a mitologia grega, seria a morada dos principais deuses do panteão. No entanto, o nome é comum na Grécia e há diversos lugares com essa denominação. E até o planeta Marte tem o seu Monte Olimpo: em 1971, a sonda espacial da NASA Mariner 9 detectou um vulcão extinto em Marte, o maior do sistema solar, que sendo batizado com o nome Olympus Mons.

Afrodite
Amor, beleza, sexualidade... Eis os atributos, para a mitologia grega, de Afrodite, a deusa de tantos amantes. Em outras tradições míticas e culturais, há deusas com características análogas, como a Cypris (no Chipre) e Hátor (Egito), além, é claro, da deusa romana Vênus.

Mas, seria possível relacionar a ideia da “Morte de Deus” em Nietzsche com a morte do deus grego e, consequentemente, da tragédia na Grécia, buscando na passagem do pensamento mítico para o pensamento lógico um dos pontos principais e que teria sido o causador da decadência dos deuses gregos, já que parece ocorrer uma perda maior na crença em Dionísio nessa transição, tal como se o autor dissesse que a metafísica platônica do mundo sensível e o mundo das ideias, que subjetivamente iremos comparar a Apolo e Dionísio ou da necessidade de um deus, houvesse perdido qualquer sentido de existir dentro de uma nova racionalidade que, para Nietzsche, havia sido decretada por Sócrates?

DEUS ESTÁ MORTO, A TRAGÉDIA ESTÁ MORTA!

Essa importância dos deuses na Grécia é narrada em o Nascimento da Tragédia, que foi publicado em 1872, nele Nietzsche fala sobre a oposição entre o apolíneo e o dionisíaco, entre a razão e a emoção, dois deuses cultuados pelos gregos, duas pulsões cósmicas poderosas e diferentes entre si. De um lado, Dionísio, deus do vinho, inebriador dos sentidos humanos, tomando-os de prazer e libertando-lhes os instintos, o coro da tragédia grega, no entanto, libertos de Dionísio, retornariam os homens ao estado apolíneo, da razão cotidiana. Apolo, deus da música e da arte que, diferentemente de Dionísio, é um deus mais racional, intelectual, estético e moderado. A dialética entre esses dois deuses é que permitia aos gregos viverem em equilíbrio. Toda a vida grega era retratada nesse modo de viver equilibrado, na alternância das pulsões cósmicas desses dois deuses, o que teria permitido o surgimento da cultura trágica na sociedade grega, sendo que essas duas potências transitavam na ética, na estética e na religião dos gregos.

Para Nietzsche, os seres humanos eram a ligação entre essas duas potências e jamais deveriam ter se afastado delas. Foi esse afastamento que teria causado o desequilíbrio dos dias atuais, muito mais ligado às ações racionais do que às ações inebriantes, para ele o culpado desse afastamento teria sido Sócrates, que teria feito com que a natureza acabasse por ser humanizada e racionalizada ao extremo. “(...) A grande tragédia grega se apresenta como característica do saber místico da unidade da vida e da morte, nesse sentido, constitui uma ‘chave’ que abre o caminho essencial do mundo. Mas Sócrates interpretou a arte trágica como algo irracional, algo que apresenta efeitos sem causas e causas sem efeitos, tudo de maneira tão confusa que deveria ser ignorada [...] Segundo Sócrates a tragédia desvia o homem do caminho da verdade: ‘uma obra só é bela se obedece à razão’”. (Pensadores,1999,p.9)

As antigas religiões gregas, bem como seus deuses, desapareceram ao deixarem de ser cultuados pelos seres humanos, a razão socrática venceu, os deuses morreram.

Vejamos como Nietszche anuncia em seu aforismo 125, A Gaia Ciência , a morte divina:

O Insensato – Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs- -se a gritar incessantemente: ‘Procuro Deus! Procuro Deus?!’ – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou- os com seu olhar. ‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fi zemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fi zemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para trás, para os lados, para frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘em baixo’? Não vagamos como que através de um anda infi nito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele ainda mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodreceram! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e o mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer digno dele? Nunca houve um ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá, por causa deste ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!’ Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles fi caram em silêncio, olhando espantados para ele. ‘Eu venho cedo demais’, disse então, ‘não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e, no entanto, eles o cometeram!’ – conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: ‘O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus’?


A Gaia Ciência
Lançado em 1882, A Gaia Ciência (Die fröhliche Wissenschaft) foi escrito no estilo aforismático característico de Friedrich Wilhelm Nietzsche. Nessa obra, Nietzsche mencionou pela primeira vez Zaratustra, o profeta persa, personagem central de seu livro mais famoso, Assim Falou Zaratustra.

Não se deve compreender o aforismo acima através de uma visão ateísta, mas deve-se compreendê- lo tal como é analisado por Nietzsche a morte dos deuses gregos, na verdade a morte dionisíaca, o afastamento da emoção pela razão extrema, o desequilíbrio entre homens e natureza, a perda do equilíbrio entre duas pulsões cósmicas que permitiam e forneciam aos homens a vontade de viver. O que teria de semelhante a morte desses deuses com a morte do deus nietzscheniano?

A princípio pode-se questionar: Quem anuncia no aforismo a morte de deus? O Insensato, o homem louco, aquele que estava mais próximo à natureza, que ainda consegue ver em tudo o verdadeiro conceito do realmente sagrado, do trágico. Quem questiona sobre a morte de deus bem pode ser o homem dionísico, com seu lado desmedido e cheio de uma vontade de viver embriagante, aquele mais ligado a Physis que conhecia e não temia os trágicos momentos do existir, assim como a religiosidade em torno deste que bem poderia ser o epicentro da religião grega, Dionísio havia morrido, o Deus que havia igualmente sido morto e enterrado pelos homens era igualmente procurado por ele, pelo insensato, pelo louco.

Se Dionísio trazia em si, como refere Nietzsche, aquela potência que permitia aos homens arrebatar-se pelo êxtase, transformando-os muitas vezes em algo para além de si mesmos - do homem do dia a dia, com suas elucubrações e deveres – sua morte seria inevitável diante da racionalidade apolínea, tal como o deus morto. Tal como a racionalidade socrática matou os deuses, a racionalidade humana havia matado Deus, não havia mais espaço para a divisão entre o mundo das ideias e o mundo sensível, por isso o anúncio “deus está morto”.

Se Nietzsche teve coragem de proclamar que Deus estava morto, teve ainda mais coragem de dizer que a decadência da Filosofi a e dos seres humanos havia ocorrido no exato momento em que ele, o ser humano, decidira romper com o equilíbrio entre ele e a natureza. Esse rompimento com a natureza é de onde viria a verdadeira força vital dos seres humanos segundo Nietzsche, era expressa na visão de Tragédia, responsável pela unidade entre vida e morte e com o qual os gregos viveram durante anos.

E assim como o louco que diz: “‘Para onde foi Deus?’, gritou ele, ‘já lhes direi! Nós o matamos – vocês e eu.’” (Nietzsche), podemos dizer que para Nietzsche, a superação da razão encontrada na pulsão apolínea matou não somente os deuses gregos, mas o deus morto por Nietzsche ao separar Mythos e Logos, e esse ato trágico é bem claro na frase do louco que mais uma vez questiona: “Que fi zemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós?” (Nietzsche).


SEPARAÇÃO ENTRE APOLO E DIONÍSIO

Que fizeram os seres humanos ao separar o dionisíaco do apolíneo? Ao matar aquilo que era mais sagrado e que, nas mãos dos seres humanos, sangrou? Seria necessário reaprender a viver com o peso desse assassínio, já que nos afastamos, por opção, do equilíbrio com a natureza. A verdade que buscávamos no Logos, com a morte de deus virou ficção e sequer nos apercebemos disso. Assim também, a morte dionisíaca não nos levou à verdade que Sócrates esperava, mas acabou por nos levar a viver uma farsa de uma natureza que não nos pertence: “Abolimos o mundo verdade: que nos restou? O aparente, talvez?... Não! Com o mundo verdadeiro abolimos também o mundo aparente”. (Nietzsche). Um mundo meramente aparente que carregamos como um mundo verdadeiro, não morrem apenas os deuses, mas morre também a natureza trágica humana, não apenas a grega.

Preciso é também, nos atentarmos a quem o louco, o insensato pergunta sobre deus: “E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros” (Nietzsche).

O louco pergunta por deus àqueles que não mais acreditavam nele. Nós que aqui estamos, não mais acreditamos em Mythos, nos habituamos ao Logos como se fosse ele nossa única razão de viver, nosso único modo de vida. Temos medo de experimentar o dionisíaco, de nos deixarmos ser o que realmente somos, por isso somos todos razão, questionados por um louco sobre nosso equilíbrio com a natureza, equilíbrio este que antes existia, mas que nossa razão fez desaparecer e dia a dia enterramos os deuses, ao manter essa cisão: “Com tua espada de fogo, despedaçaste o gelo da minha alma, e esta já corre ao mar da alta esperança como corre a torrente impetuosa... deslumbrante de alegria e liberdade.” (Nietzsche).

O culto dionisíaco deixou de existir na Grécia, sua ação inebriante que exaltava o lado humano, considerado por Nietzsche o mais puro e o melhor, foi esquecido e enterrado, o mito sucedia assim à lógica. O que no leva a relembrar o aforismo 124 de Nietzsche em A Gaia Ciência:

No horizonte do infinito – Deixamos a terra firme e subimos a bordo! Destruímos a ponte atrás de nós, e mais, destruímos todos os laços com a terra atrás de nós. E agora, barquinho, toma cuidado! Junto a ti está o oceano, é verdade que nem sempre ele ruge; e estende-se às vezes como sede e ouro, e um sonho de bondade. Mas, virão horas em que reconhecerás que ele é infinito e que não existe nada que seja mais terrível que o infinito. Ah, pobre pássaro, que te sentias livre e que esbarras agora contra as grades desta gaiola! Pobre de ti se fores dominado pela nostalgia da terra, como se lá tivesse havido mais liberdade... agora, já não há mais “terra” ! (Nietzsche,2007,p.115)

A morte de deus é mais uma vez a superação da metafísica, pois a compreensão de deus como Arché e Telos de todas as coisas, e tal como a separação entre o que era apolíneo e dionisíaco, a morte de deus ou no caso dos gregos a morte da tragédia, deixou a todos nós sem um rumo a seguir, não há mais a mesma estabilidade de outrora ou fundamentos que nos permitam enxergar mais adiante, sua morte roubou nossa referência.

Arché
Arché é a expressão utilizada pelos filósofos pré-socráticos para designar a origem das coisas, ou melhor, o princípio que rege o início e o desenvolvimento da vida. Tales de Mileto considerava a “água” o arché; Xenófanes, a terra etc.

A morte de deus em Nietzsche é uma clara crítica ao cristianismo platônico, porém a morte da tragédia é também a morte a Dionísio e a sua pulsão na natureza humana. A tragédia, ao contrário do que dissera Sócrates, não tinha a função de iludir os homens, mas de mostrar-lhes toda a profundeza do mundo no qual existiam, para que percebessem a verdadeira natureza, fosse ela maravilhosa ou terrível dentro da existência dos homens, o certo é que ela só era possível se houvesse equilíbrio entre o apolíneo e o dionisíaco, sem um ou outro, a tragédia se findaria: “Eis a nova contradição: o dionisíaco e o socrático, e por causa dela a obra de arte da tragédia grega foi abaixo”. (Nietzsche).

Com o fim da ideia platônica de mundo sensível e mundo das ideias, a morte de Deus igualmente havia sido decretada, não havia espaço para ele na realidade humana, tal como não havia mais espaço para a tragédia e para Dionísio na vida dos gregos, os deuses assim vencidos pela razão humana, morreram.


*Simone de Nardi Grama é graduada em Filosofia e especialista em Filosofia Contemporânea e História pela Universidade Metodista de São Paulo (Umesp).



Fonte Filosofia: Conhecimento Prático










Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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©Copyright Blog Irmãos Animais-Consciência Humana - Simone Nardi -2014
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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Anticristo

“O anticristo será um convicto espiritualista, um admirador filantrópico, um pacifista aplicado e primoroso, um vegetariano observador, um defensor dos animais determinado e ativo”.


Esse é o trecho de uma notícia que foi veiculada na mídia já há algum tempo e que foi dita pelo cardeal Giacomo Biffi ao papa Bento 16. É impossível não relembrar um trecho da obra de mesmo nome de Friederich Nietzsche, quando ele propõe que, tal como mudamos Deus, nós mudamos as palavras do Cristo e passamos a matar em seu nome e com seu consentimento.


Anticristo, como o próprio nome diz, é aquele que é contra o Cristo, que faz tudo contra o que Cristo pregou e ensinou. Cristo pregou o amor, a benevolência, o perdão. Hoje em dia não nos damos conta de quantas coisas contra Ele nós fazemos. Um exemplo simples e que quase ninguém se dá conta é o Natal, a festa do nascimento do Cristo.


Não vamos nos ater muito ao fato do Nazareno ter nascido num local destinado a animais e nos presépios sempre se apresentarem deitados ao seu lado um burrinho e uma vaquinha, não vamos lembrar que entrou em Jerusalém sentado sobre o lombo de outro dócil jumentinho, mas vamos mergulhar em nossos atos “anticrísticos”.


O Natal é a maior prova de que vamos contra tudo aquilo que o homem de Nazaré ensinou. Mais de 80 milhões de animais são mortos para que se comemore o nascimento de um homem que era apenas amor e que nasceu rodeado de animais, o mesmo homem que teve coragem de dizer que Deus proibia o “sacrifício” de animais no Templo. O Templo, como sabemos, tinha um grandioso lucro com a venda de animais para sacrifício, vendiam cada animal a um preço diferente conforme seu tamanho, usavam o couro, o sangue as tripas e esse Homem se interpôs contra tudo isso afirmando que Deus não exigia nenhum tipo de sacrifício. Dizer tal coisa hoje implica em ouvirmos que tal ato prejudicaria economicamente milhares de famílias que sobrevivem da exploração animal, prova de que não nos importamos mesmo com os animais; Jesus ao contrário não se importou com isso ao proibir o abate de animais no Templo, mesmo sabendo que disso dependiam, igualmente como hoje, centenas de famílias; haviam aqueles que criavam os animais para o abate, vendiam e sustentavam suas famílias, haviam aqueles que construíam as mesas de sacrifício, os que vendiam a pele e o sangue, os que vendiam as rações para alimentar os animais, os que limpavam o templo, nada mudou, a não ser a visão que colocamos de que a morte de animais é necessária hoje e não o era naquela época. Jesus sabia de tudo isso, mesmo assim não se importou em proibir os sacrifícios, as famílias que viviam da morte desses seres inocentes com certeza buscariam recursos melhores para sobreviver.


E matamos milhares de animais hoje para comemorar o dia do nascimento desse mesmo Homem.


Vamos propor uma reflexão e um desafio ao amigo leitor:


O amigo consegue colocar uma faca na mão de Jesus e vê-lo matando um animal ? Aquela imagem de docilidade que conhecemos combina com mãos manchadas de sangue, com a frieza do assassinato, com a dureza de um coração ao olhar nos olhos de um animal e mesmo assim arrancar-lhe a vida por achar isso uma coisa natural ou porque nos disseram, há muitos anos atrás, que a carne nutre a carne ? O amigo consegue fazer essa ligação entre dor e morte dos animais com o que o Cristo pregou e com o modo como viveu?


É só isso que queremos pedir, uma reflexão sobre quem é o Cristo e quem é o anticristo. Talvez esse anticristo já esteja entre nós há tantos séculos que já nos acostumamos a chamá-lo apenas de “cristo”, e talvez, sem compreendermos bem, um novo Anticristo esteja surgindo, mas para nos livrar desse “cristo” de morte e de dor o qual desejamos, e que irá finalmente nos trazer um Cristo de amor e de paz, aquele que deveria ter permanecido entre nós desde o princípio. Porque o verdadeiro Cristo foi tudo isso:


“(…) um convicto espiritualista, um admirador filantrópico, um pacifista aplicado e primoroso, um vegetariano observador (segundo muitos escritos ele conviveu com os essênios), um defensor dos animais determinado e ativo”, e que precisa regressar para resgatar do “cristo” criado pelos homens, todas as indicações de amor que Ele, o verdadeiro Cristo nos legou.


Simone Nardi 



Fonte original do artigo : ANDA








Simone Nardi









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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Nosso antropocentrismo de cada dia

Em seu livro “Ecologia, grito da Terra, grito dos Pobres”, Leonardo Boff expõe com grandeza a visão antropocêntrica do homem em relação ao meio em que vive, e demonstra num parágrafo único, que ao invés de ser tudo, o homem nada é diante do Universo:


“Esquece, entretanto, que o universo e a Terra não são resultado de sua criatividade nem fruto da sua vontade. Ele não assistiu ao seu nascimento, nem definiu a seta do tempo, nem inventou as energias primordiais que continuam agindo no imenso processo evolucionário e que estão atuando em sua própria natureza humana, parte da natureza universal. Ele se encontra na retaguarda, como o último a chegar nessa imensa festa da criação. Por ser anterior a ele, o universo e a Terra não lhe pertencem. Ele, na verdade, pertence à Terra e ao universo. Se a Terra não é o centro do universo, como é possível que o ser humano, filho e filha da terra, se considere seu centro e sua finalidade?”


Infelizmente o Antropocentrismo: o homem como peça fundamental e protagonista desse nosso Planeta, o início, o meio e mais do que provável, o fim de tudo, é uma realidade e uma barreira difícil de ser vencida. Para o antropocêntrico, nada além do ser humano possui valor intrínseco ou qualquer direito ao conceito de alteridade, nada, absolutamente nada é mais importante no Planeta do que seu ego. O que mais nos chama a atenção nessa palavra tão conhecida , é ver há quantos séculos as pessoas exploram os animais e que hoje, em pleno Século 21, muitas ainda vivem presas a esse passado tão antigo e violento.


O paradigma Antropocêntrico, essa visão de que tudo que existe ao nosso redor nos pertence para que façamos com ele o que quisermos e o que bem entendermos, parece já ter surgido durante a concepção do ser humano, porém, com toda certeza, não pode mais fazer parte do pensamento da humanidade, posto que tal paradigma nos leva a uma visão perigosa, tanto para humanos quanto para não humanos:


Tudo pode e deve ser feito em beneficio único e exclusivo dos seres humanos, não importando aí o que será destruído em seu benefício o que nos leva a exploração total dos recursos da Natureza, o uso brutal dos animais nas mais diversas áreas e com as mais absurdas alegações de que: Tudo no mundo é para nosso bem estar. A maioria que ainda pensa assim, o faz porque não conseguiu se livrar do peso das “mentes antigas” que exigiam o comando do conhecimento em todas as áreas: Ciência. Religião. Estado.


Esse é um dogma que persegue o homem até os dias atuais, talvez pelo simples fato de que alguns temam as mudanças, temam mudar seus valores, já que o orgulho os impede de caminhar e os impede de sequer imaginar, que um animal que durante muito tempo foi considerado um ser inferior, possa ter direito a vida tal como os seres humanos. Se isso acontecer, sobre quem o ser humano irá reinar então??? Talvez por esse ângulo seja bem mais fácil identificar a resistência ao fim desse paradigma, essa irracionalidade em se admitir tal verdade que viria a “ferir” a tola vaidade humana.


O motivo pelo qual, muitos alunos em cursos que utilizem animais ou não, jamais contrariarem seus mestres, nada mais é do que o medo da desaprovação, o medo de parecerem ridículos diante de suas convicções; eles não temem, contudo, apenas a reprovação, mas se envergonham em admitir perante professores e colegas que os animais possuem direito a vida e a liberdade, e que não foram feitos, a não ser dentro da mais medíocre mente humana, para servirem aos humanos.


Alguns alunos, talvez a grande maioria, ainda mantém dentro de si o Paradigma Antropocêntrico e não o combatem, acreditando que o professor sempre tem razão, “Magister dixit1″, quando julgam os animais humanos superiores diante dos animais não humanos. Talvez muitos desses alunos sequer gostem de animais, outros talvez tenham seus cães e gatos em casa e os adulem com mimos e guloseimas, porém, por uma razão que já nos é conhecida, não admitem que os animais de laboratório que servirão para um falso aprendizado, mereçam o mesmo amor e o mesmo respeito daqueles animais que deixaram em suas casas, que podem sentir tanta ou mais dor que seus bichinhos, levados a alguns veterinários que fizeram com certeza, a mesma opção de se omitir diante disso.


Ao se negarem a expor seus pensamentos por medo de serem ridicularizados, o que geralmente acontece diante de seus colegas, o que deixam de perceber é que depende muito mais deles do que propriamente de seus professores antropocêntricos, uma mudança ética no ensino.Não achem eles que seus professores, alguns muitos mais antropocêntricos do que outros, irão lhes dizer que usar animais em aulas didáticas, que alimentar-se de animais, ou usar suas peles como roupas, é uma desconsideração com os valores da verdadeira ética e da verdadeira moral, ou que incluir o tema de expansão da alteridade moral aos animais, fará parte do currículo acadêmico dessa ou daquela disciplina. Cabe a cada um, a cada aluno, vencer qualquer paradigma a fim de demonstrar que o antropocentrismo não eleva o homem, mas que é o responsável pelos maiores problemas que a História já presenciou. Um aluno não pode permitir que seja tirado dele seu senso de ética e de valor da vida, diante do que lhe é transmitido. Não é mais possível que hoje, com os conhecimentos que adquirimos no decorrer de anos, ainda nos esqueçamos de que os animais sentem medo diante da morte nos abatedouros ou que sentem dor durante as aulas de vivissecção. 


“Pertencemos ao Universo, não somos donos dele.” (F. Capra)


E não sendo donos do Universo, não temos o direito de dispor de nada que pertença a ele, nada que cause sofrimento ou morte. Os futuros doutores de amanhã, precisam mostrar aos seus professores de hoje que existem sim métodos alternativos. Os futuros filósofos precisam criar sistemas com valores baseados nos conceitos de respeito, compaixão e alteridade afim de que seja possível moralizar os indivíduos diante da natureza, dos animais e de si mesmos.Os alunos precisam muito mais do que apenas frequentar as aulas, precisam buscar conhecimentos fora delas, principalmente os conhecimentos que seus professores jamais irão lhes mostrar. Principalmente os filósofos precisam se ocupar dessa idéia de libertação, de alteridade para com os animais, para que a ética em relação a eles mude de tal forma que a fidelidade que antes era destinada a apenas uma espécie, passe a ser uma fidelidade pela Vida.


Não somos o centro de tudo, nem tampouco a medida de todas as coisas, nem o eixo no qual o Universo gira, não é a razão que nos separa dos animais mas o nosso orgulho e a nossa vaidade.


“(…) houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da .história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.” (F. Nietzsche)


O antropocêntrico se dispensa da alteridade para com aqueles que passa a julgar inferior, se dispensa da ética e de toda moralidade quando se coloca acima de qualquer outro ser.


Portanto, essas desconsiderações de valores, apoiadas somente na vaidade antropocêntrica dos seres humanos pode, daqui a alguns anos, ser apenas uma lembrança de uma raça que abusava dos recursos do meio em que vivia para proveito próprio, colocando-se como um ser acima da natureza, e não ao lado dela:




“[...] Imagina-se um ponto isolado e único, fora da natureza e acima dela. Arrogantemente se dispensa de respeitá-los.” (L. Boff)



Podemos imaginar a partir desse ponto, o caos em que o Planeta ainda pode se transformar se não ocorrer a mudança desse paradigma para um que privilegie a vida, e não somente uma determinada espécie.






Referências Bibliográficas


BOFF, Leonardo – Ecologia: Grito da Terra, Grito dos Pobres

NIETZSCH – Friedrich – Os Pensadores – Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral



Nota

1 O mestre (o) disse”. É uma frase proverbial , que ficou popular pelos estudiosos se Aristóteles, para que a opinião de um mestre não admitia, em hipótese alguma, uma réplica.


Simone Nardi







Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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