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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Meu Grande Tutor (História)

Foto by SN: Yannis

(Baseado num fato real)




Eu cheguei naquele lugar sozinha. Não vi meus pais e olha que eles sempre estavam comigo. Continuei a andar vendo que outros como eu também caminhavam um tanto assustados. Me enchi de coragem, sim pois que meus pais sempre me chamavam de “Grande Cão de Guarda”,  por isso achei que deveria agir como um.

Olhei com olhos antigos um mundo novo diante de mim, então percebi que havia uma rodinha de outros cães, todos sentados conversando uns com os outros. Um velho humano fez sinal para que eu me juntasse a eles, obedeci, afinal sempre fui muito obediente mesmo.

Aproximei-me e sentei descuidadamente sobre o rabo de um de meus novos amigos, desculpei-me e sorri mostrando meus dentes brancos para ele. Minha mãe gostava quando eu fazia isso para ela.

Fiquei ali parada, ouvindo eles contarem sobre suas experiências sem saber ainda aonde estava. Sentia falta dos meus pais, mas sabia que cedo ou tarde eles viriam me apanhar, sempre diziam assim:

“ Nossa que saudades do amor da mãe”, ou então: “Cadê o amor da mãe? “ .

E eu balançava meu toquinho de rabo e sorria para eles. Não, eu não devia me preocupar, eles viriam me pegar a qualquer momento.

Notei com estranheza que meu peito não estava mais inchado e notei também que algumas gotinhas d’água brotavam dos meus pelos umedecendo-os levemente. Não dei muita importância , então percebi que aquele senhor velhinho, o humano, olhava fixamente para mim .

— Você sabe onde está agora?

Victoria
Claro que eu sabia! Devia estar na clínica veterinária. Meus pais sempre me levavam lá.

— No médico eu acho- falei meia atrapalhada - Só que acho que ele já me curou e espero apenas meus tutores virem me buscar, estou louca para brincar de  paninho com minha mãe.

— Você se lembra do que houve ?

Se eu me lembrava ? Era claro que sim...

— Eu havia ficado doente, minha perna doía  - comecei a dizer - aí meus pais haviam me levado no veterinário, tiraram fotos minhas e quando saí para encontrá-los eles estavam chorando, não soube bem o motivo . Ouvi o médico falar algo como: “Vai chegar a hora em que teremos que sacrificar".

Não sabia o que era , então brinquei para tentar alegrá-los. Fomos para casa e eles não pararam de chorar, no dia seguinte fomos a outro médico, a mesma coisa, eles choravam mais e mais. Minha mãe brincava comigo , mas com um pouco mais de cuidado, pois minha perna ainda doía.

Mais uns dias e fomos à outro médico, esse eu já conhecia e não tinha medo dele, era muito bonzinho. Ao contrário dos outros, ele não falou a palavra sacrificar nem uma vez. Sequer sei para que usavam essa palavra, mas achei que era por causa dela que meus tutores choravam tanto.

Comecei a sentir dores mais fortes, mas meus pais me compraram um colchão enorme de espuma e ali eu comecei a passar a maior parte do meu tempo. Saia para fazer xixi e  bem, você sabe o quê, depois voltava. Até comer era fácil, meus pais me davam ali mesmo, na boca. Comecei a tomar umas bolinhas doces que me davam mais animo, mas eu sentia que havia alguma coisa errada.

Já não conseguia mais correr como antes e nem tinha mais animo para brincar com o paninho, mesmo quando minha mãe pedia, então para disfarçar , eu enchia ela de beijos e fazia ela coçar minhas costas. Acho que ela ficava triste comigo, porque ela chorava muito.

Os dias passaram e eu fui piorando. Já quase não conseguia mais andar, então meus pais me ajudavam a caminhar lentamente. Me seguravam enquanto eu fazia xixi e me enxugavam, afinal sempre fui muito cuidadosa com minha aparência. Depois eles me deitavam e me ofereciam água, eu tomava tudo, mesmo que não estivesse com sede. Era meu jeito de agradecer à eles pela ajuda, sabia que quando ficasse forte novamente poderia recompensá-los melhor.

Yannis
Mas parecia que eu não melhorava, nem fome eu sentia mais e olhe que eu comia muito bem. Mas lá estava minha mãe de novo. Ela comprou
uma ração super gostosa, era especial - eu os ouvia falar -  para eu comer. Vejam só, ela dava ração na minha boca com  aquela colher que os humanos usam. Então, para não fazê-la chorar eu comia tudo. Depois vinham aquelas massagens gostosas no meu braço e no meu peito, água e muito carinho. Depois eu dormia e quando acordava sempre um deles estava do meu lado.

Eu não conseguia mais andar quando nos voltamos naquele veterinário bonzinho. Fiquei "esticadona" no carro e vi ele vir todo preocupado para meu lado. Disse que havia inchado muito, olhou para meus pais e disse que estava indo tudo bem, depois sorriu para mim e esfregou minhas costas, então todos foram lá para dentro. Minha mãe voltou chorando, mas eu sabia que estava prestes a melhorar.

Quando voltei para casa naquele dia eu não me sentia muito bem, estava muito cansada , dormi. Minha mãe me acordou só mais tarde para comer, comi e voltei a dormir. Logo aprendi que precisava da ajuda deles para tudo.

Quando estava com sede ou com fome .

Foi assim que aprendi que se eu chorasse, mesmo que baixinho, um deles sempre vinha correndo para me ajudar.

Eu chorava baixinho.

Meus pais vinham e me perguntavam o que eu queria, eu olhava o pote d’água e eles me davam de beber. Chorava só para eles ficarem ao meu lado . Eles aprenderam rápido o que eu queria.

Renno
Quando a dor me incomodava, me davam um remédio docinho, minha mãe dizia que tinha um tal de “açuquinha” não sei o que era mas era bom. Eu dormia e não sentia mais nada.

De noite todos se reuniam em volta de mim e proferiam o que eles chamavam de oração. Era muito bom. Eu relaxava muito e podia ter todos
eles ao meu redor por mais tempo e era naquela hora que eu dava beijinho de esquimó na minha mãe. Meu nariz roçando no dela, era divertido, as vezes eu não aguentava e dava uma lambida nela, mas ela gostava e começava a sorrir para mim. Fazia isso também quando eu tentava abanar o rabinho , mas eu estava sempre muito cansada para isso.

Foi quando comecei a entender que talvez eu estivesse mesmo muito doente. Não conseguia me mexer mais e meus pais arranjaram um travesseiro para mim, viviam trocando as fronhas pois eu babava muito nele, mas era gostoso, sempre um deles estava perto de mim.

Eu sabia que estava acontecendo alguma coisa errada, mas não sabia o que era. Quando não pude mais me mover minha mãe comprou fraldas para mim, então eu podia fazer xixi e tudo mais sem  eles terem que ficar me arrastando de um lado para o outro como faziam antes. Aí eu fazia xixi, chorava e eles vinham trocar aquele paninho úmido que ficava por baixo de mim.

Fui piorando.

Agora só meus olhinhos se moviam. Eu chorava mais, não por que queria comer ou beber, simplesmente  chorava porque tinha medo de ficar sozinha e meus tutores aprenderam rapidamente a ler isso nos meus olhos. Minha mãe se deitava por horas sem fim ao meu lado, falando comigo e me fazendo companhia.

Então um dia notei que todos eles estavam chorando muito, acho que é por que eu não havia comido toda minha comida, bebi muita água e não me sentia bem. Meu corpo estava dolorido e pesado, só dei um beijo de esquimó na minha mãe e uma ou duas lambidinhas neles. Estava com muito sono, não sei como foi, acordei com minha mãe chorando e trocando a fronha onde eu sem querer vomitara. Ela pedia para eu ficar e eu queria realmente ficar com ela.

Mel
Abri meus olhos para ela ver que eu queria ficar ali. Eu a vi chorar . Todos eles. Fechei meus olhos e senti ela me beijar e me abraçar, foi aí que ela me disse que me amava muito. Eu não queria ir, então o sono me fez dormir..........é ......acho que estou sonhando agora.”

Olhei para aqueles rostinhos curiosos diante de mim, um dos meus amiguinhos chorava baixinho e eu não pude deixar de notar isso.

— E você meu amigo, como são seus tutores? - Perguntei à ele tentando animá-lo, afinal, os humanos deviam ser todos iguais, ao menos os que eu conhecia eram bons.

Ele me olhou tristinho e todos nós ficamos quietos. Notei que ele não parecia bem, seu corpo tremia como se estivesse com frio.

— Meu "dono" me levou ao médico, parece que era um problema que dava para resolver, mas a cirurgia ia custar muito caro. Coitado do meu "dono", ele quase nem tem dinheiro, trocou o carro porque fiz xixi nas rodas e elas enferrujaram. Dei muito gasto para ele. Pois é, ele não tinha dinheiro, aí ele mandou o homem de branco me sacrificar. Não o vi sair, fiquei esperando ele voltar e me levar para casa , mas ele não voltou. Nem sei se vai voltar para me buscar.

— O meu fez igual, ele me sacrificou por que eu latia demais defendendo a casa....falou um outro ao lado dele.

Fiquei tão triste com as histórias deles e olhei para o velhinho que havia começado a conversar comigo.

— Você sabe onde está agora?

Olhei para aquele rosto carinhoso e finalmente entendi o que havia acontecido.

Meus tutores não poderiam vir me buscar e sei o quanto desejavam. Eu havia morrido. Ficara doente e havia morrido, por isso aquelas gotinhas de água que molhavam meus pelos.

Eram lágrimas. 

As lágrimas dos meus pais que ainda choravam por mim.





Foto by SN; Yannis












Yannis, morta por Osteosarcoma em 14 de setembro de 2001.







Simone Nardi 




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domingo, 8 de junho de 2014

Faça a conexão com a vida






Fonte:MaeinNatura

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

A Estrela (Conto)


Chico levantou bem naquele dia. O sol brilhava no firmamento e uma leve brisa tocava-lhe o rosto. Era dia de trabalhar, Deus já estava trabalhando, por isso ele precisava se apressar, era um mero instrumento do Criador, por isso levantou-se e dirigiu-se ao trabalho.
Logo na esquina presenciou uma discussão entre um casal. Ela dizia que tudo estava terminado, que o odiava. Indeciso sobre prosseguir ou não, Chico aproximou-se do casal, com tranquilidade inspirou-lhes o amor, a cautela, a compaixão, minutos depois o casal já conversava mansamente demonstrando o imenso amor que nutriam um pelo outro.
Mais adiante, enquanto Chico se encaminhava para seu trabalho, passou por dois motoristas que se ofendiam mutuamente por causa de uma pequena colisão. Mais uma vez Chico, nosso amigo, resolveu parar. Sua voz suave e seu toque sereno acalmou os dois homens que acabaram se perdoando mutuamente pela distração. A discórdia acabou e ambos seguiram para seu trabalho em clima de união.
Chico sorriu e continuou.
Seus olhos alegres se depararam então com a velha senhora jogada ao chão. A vestimenta rota, as mãos calejadas e o rosto vincado pelo sofrimento. Ele sentiu a amargura daquela alma, as dúvidas em seu coração mas Chico não teve duvidas, aproximou-se da mulher e conseguiu despertar-lhe o sentimento de luta, de coragem, de fé. A velha abraçou-o e afastou-se disposta a enfrentar suas dores tendo a Fé como escudo.
Chico seguiu para o trabalho.
O sol ainda brilhava.
Mas logo deparou-se novamente com outro problema. Um homem acusava um garoto de ter-lhe roubado a carteira. Chico olhou ao redor, o homem estava errado. Ele deu a volta e viu a carteira no chão, apanhou-a e devolveu-a ao homem mostrando lhe que a carteira caíra e não que fora roubada. Essa era a verdade.
E Chico continuou a andar e em seu caminho encontrou uma mãe que chorava a perda do filho, foi então que lhe falou da vida eterna, do mundo espiritual e do reencontro entre as almas afins, renovando-lhe desta feita, as esperanças. Transformando a tristeza em alegria e as trevas em luz.
Foi quando Chico chegou ao seu trabalho. Um senhor de certa idade logo veio encontrá-lo e abriu o portão para que ele entrasse . Com o olhar orvalhado Chico sentiu o abraço do querido amigo.
— Está atrasado hoje, Chico. Mas venha, venha logo meu amigo, as crianças o estão aguardando.
Chico entrou reconhecendo cada um daqueles rostinhos. Alguns choravam e Chico se aproximava para consolá-los. Alguns se sentiam abandonados e incompreendidos, assim como Chico se sentia as vezes,mesmo assim ele os ouvia e os compreendia. Chico amava, sem necessitar ser amado.
Dava o melhor de si sem esperar receber algo em troca. Perdoava o que lhe faziam dia após dia, pois sabia que quando morresse o Criador lhe daria uma nova vida, a vida eterna.
Ao final do exaustivo dia de trabalho, Chico agradeceu o alimento oferecido pelo querido amigo e partiu.
Tinha que repousar também
—      Esse cachorro vem aqui todo dia! –falou a faxineira.
—      Pois é, é o trabalho dele.- Falou o senhor fechando o portão.
—      E para onde ele vai quando sai daqui?
—      Ninguém sabe. Há anos ele vem até o orfanato. Era pequeno quando veio pela primeira vez, estava doente e eu cuidei dele, depois ele passou a brincar com as crianças e nunca mais deixou de vir aqui. Muitas delas tinham problemas de fala, de choro e hoje falam e não choram mais quando ele chega. As vezes acho que ele traz a cura para todos os males delas.
—      Mas é só um cachorro.
—      É ! - sorriu o velho vendo o amigo sumir na rua- É só um cachorro.
Chico esgueirou-se para o vão da velha padaria e deitou-se, de onde estava conseguia ver bem as estrelas. Estava ansioso, aliás, como sempre ficava.
Lembrava-se pouco de sua vida, sabia apenas que fora abandonado ainda filhote nas ruas da cidade, o velho ancião o socorrera, abrigara e alimentara, mas também não tinha um espaço para que ele ficasse. Ninguém tinha. Chico lembrava-se também que pensara em se matar, estava cansado de ser incompreendido pelos humanos, humilhado e maltratado, até que um dia aquela estrela caiu do céu.
Lhe disse tantas coisas e o ensinou a viver, dizia que os homens precisam aprender a viver também e que cabia a ele: Chico, o cão das ruas, ensinar.
Disso ele jamais se esqueceria, da doce oração que a estrela fizera ao seu lado, da compaixão que vira em seus olhos e do amor que transbordava em suas palavras.
Chico remexeu-se e olhou o céu. Uma delas começou a brilhar mais e o cão abanou o rabo todo feliz quando a luz esmaeceu e transformou-se num homem que se aproximou dele com um sorriso meigo nos lábios.
Chico rastejou até ele e lambeu-lhe os pés, por sua vez, o homem curvou-se em sua direção e tocou-lhe a cabeça .Depois sentou-se ao seu lado e seus lábios proferiram a oração que Chico já conhecia. E a cada linha, o velho cão de rua lembrava-se do que acontecera durante o dia:
Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz : sim, Chico era o instrumento do qual o Criador se utilizava para instruir os homens.
Onde houver ódio que eu leve o amor: o casal que brigava na rua, ele se aproximara e roçara na calça da jovem, fora o bastante para fazê-la pensar e mudar de opinião.
Onde houver ofensas que eu leve o perdão: os motoristas que discutiam, Chico começara a latir para chamar-lhes a atenção, os dois o viram e ouviram, sorriram e se perdoaram.
Onde houver discórdia que eu leve a união: sim ele interrompera a discussão com seus latidos insistentes.
Onde houver dúvidas que eu leve a fé: a velha senhora que achava que tudo havia acabado, mas que, quando Chico se aproximara dela, ela como que despertara de seu torpor, achando que o cão era um sinal, renovando-lhe a fé que ainda havia em seu coração.
Onde houver erro que eu leve a verdade: a carteira que ele encontrara caída no chão.
Onde houver desespero que eu leve a esperança: a pobre mãe que perdera momentaneamente a esperança de rever o filho amado.
Onde houver tristeza que eu leve a alegria: inspirado pela estrela guia que o acompanhava, a mãe compreendeu que a vida não terminava ali.
Onde houver trevas que eu leve a luz : das trevas de sua tristeza, surgiu a luz de uma nova alegria.
Oh Mestre, fazei que eu procure mais
Consolar que ser consolado: quantas noites ele não passara sozinho.
Compreender que ser compreendido: quantas humilhações não passara.
Amar, que ser amado:  ele amava aquelas crianças.
Pois é dando que se recebe: dava à elas o pouco que tinha.
É perdoando que se é perdoado: perdoava que o velho ancião não lhe desse abrigo.
E é morrendo que se vive; mas sabia que um dia morreria.
Para a vida eterna
Chico sorriu e recebeu um abraço do homem que se transformou novamente em luz . Luz que virou estrela e passou a brilhar na imensidão do céu. Depois aninhou-se em seu leito de madeira e adormeceu, aquela candura do homem ainda embalava seus sonhos e a tranquilidade dele, invadia-lhe o coração, Chico não sabia quem era ele, só sabia que aquela estrela tinha o mesmo nome dele:
Francisco, Francisco de Assis!







Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.






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