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sábado, 25 de janeiro de 2014

Animais têm sentimentos?

Quem gosta de bicho não duvida que seus companheiros de estimação sentem simpatia, indignação, ou gratidão; cientistas, porém, fazem distinção entre respostas a estímulos e a interpretação das próprias emoções.

 

Klaus Wilhelm


Imagem: Flamingos

No horizonte surgem duas manadas de elefantes, andando uma ao encontro da outra. As colossais criaturas fazem um barulho ensurdecedor, abanam suas enormes orelhas e dão voltas em torno de si. Elas parecem se conhecer - e o ritual todo lembra uma verdadeira reunião de família.

Qualquer pessoa que tenha viajado pelas savanas africanas pode ter testemunhado um desses eventos. Ao longo de décadas de trabalho de campo, Joyce H. Poole, diretora de pesquisas do Fundo Amboseli para Elefantes do Quênia, presenciou encontros similares muitas e muitas vezes. "Elefantes", diz a bióloga, "ficam felizes por ver seus velhos amigos e conhecidos."

Pesquisadores já presenciaram manadas reunidas ao redor de natimortos. Os elefantes tocam o corpo do filhote repetidamente com as suas trombas, como se tentassem ressuscitá-lo. Passam dias em vigília, derramando lágrimas. Quando um membro da manada está doente ou foi ferido por um caçador, eles acariciam a vítima, reconfortando-a, e cuidam dela até que se recupere.

Outros animais também demonstram emoções. Chimpanzés quando brincam emitem sons característicos de alegria e riem.Cachorros latem de maneira a convidar outros cães a participar de brincadeiras, e pesquisadores que reproduziram esses sons em canis e abrigos para animais abandonados conseguiram provar que o som reduz o nível de stress dos animais. Especialistas dizem que ratos de laboratório, quando acariciados, guincham alegremente em frequências sonoras superiores às que os seres humanos conseguem ouvir. 

Pessoas que acreditam nos sentimentos dos animais em geral são acusadas de antropomorfismo - atribuição de características humanas a seres não-humanos. Contudo, após anos ignorando ou desprezando o que os amantes dos animais de estimação sustentam há muito tempo, a ciência finalmente começa a acreditar que, se não todos os bichos, ao menos os mamíferos apresentam alguma forma de emoção.


Ansiedade emocional


Alguns cientistas exploraram corajosamente o mistério das emoções dos animais. O naturalista inglês Charles Darwin, pai da teoria da evolução, escreveu A expressão das emoções no homem e nos animais (1872).

Ninguém pode negar que as reações dos animais têm um lado emocional, ele concluiu, dadas as impressionantes similaridades entre o comportamento humano e o animal. No século passado, porém, consagrou-se a visão reducionista de que abelhas, sapos, vacas, cães, gatos, cobras e lagartos seriam organismos com padrões de comportamento instintivos e rígidos. Os bichos seriam desprovidos de sentimentos.

Recentemente, no entanto, uma visão mais flexível começou a ganhar credibilidade, à medida que se começou a questionar as vantagens evolutivas que os seres humanos, ou os animais, tiram das emoções. Segundo o darwinismo, todo e qualquer organismo tem por objetivo supremo reproduzir-se o mais freqüentemente e da melhor forma possível.
No caso de minhocas, insetos ou águas-vivas, seguir um padrão predeterminado de comportamento para atingir esse objetivo basta. Porém, entre peixes, répteis, aves e vertebrados, o comportamento é menos previsível. Em última análise, o comportamento dos mamíferos é muito maleável e imprevisível, e por isso sua atividade não pode resultar única e exclusivamente de modelos já estabelecidos. Como ratos, bodes, símios, elefantes e seres humanos sabem quais ações favorecem a sobrevivência e a reprodução? Entre outras coisas, eles contam com as emoções.

A afirmação de que um animal pode "utilizar suas emoções" significa que seu cérebro reage a certos eventos de maneira particular - uma rede de neurônios é ativada, dando início a um comportamento previsível. Um animal evitará situações que, anteriormente, o fizeram se sentir ameaçado. Do mesmo modo, animais procuram repetir ações que associem a experiências positivas. Mas a pergunta permanece: será que o animal sente? Nesse ponto, os especialistas divergem.

Boa parte da discussão se dá em torno das definições de emoção e sentimento. Não há acordo entre psicólogos e neurologistas nem mesmo no caso dos seres humanos, quanto mais no dos animais. No livro Em busca de Espinosa, publicado em 2003, António R. Damásio, da Universidade de Iowa, apresenta um esquema que tem aceitação crescente e que distingue emoções primárias, quase instintivas; emoções sociais, que ajudam um indivíduo a conviver em grupo; e sentimentos, que nascem da reflexão autoconsciente.

Emoções primárias incluem medo, raiva, repulsa, surpresa, alegria e tristeza, e Damásio as atribui a vários animais. Até mesmo a Aplysia, um molusco marinho, demonstra medo. Quando suas guelras são tocadas, sua pressão sangüínea e seus batimentos cardíacos aumentam e seu corpo se encolhe. Isso não é reflexo, diz Damásio, mas elementos de uma resposta ao medo, que compreende reações complexas. Ele enfatiza, porém, que organismos tão primitivos não produzem sentimentos. Para Damásio, as emoções são sinais físicos do corpo, em resposta a estímulos, e os sentimentos são sensações que surgem quando o cérebro interpreta essas emoções. Tanto em humanos como nos moluscos marinhos a frequência cardíaca aumenta e os músculos se contraem, mas um organismo só registra a sensação de medo se o cérebro percebe as alterações físicas. 

Entre as emoções sociais, Damásio lista simpatia, constrangimento, vergonha, culpa, orgulho, inveja, admiração, ciúme, gratidão, contentamento e indignação. Essas reações tampouco estão restritas à espécie humana. Gorilas adotam atitude arrogante para ganhar o respeito de outros gorilas. Lobos em posições hierárquicas inferiores na alcatéia demonstram resignação com "gestos" de humildade. Cães que levam broncas de seus donos dão sinais evidentes de constrangimento. Mesmo assim, como no caso das emoções primárias, neurocientistas entendem que essas ações são inatas, automáticas e as colocam entre os mecanismos usuais de que os animais se valem para a sobrevivência.


Reflexão ancestral 


Os sentimentos, ao contrário, surgem da mente analítica. Uma pessoa que se sente bem, que experimenta alegria, está consciente de que seu corpo se encontra num humor específico. A percepção de tal sentimento requer processamento de regiões somatossensoriais do córtex cerebral, que mapeiam as partes do corpo e suas condições além de, simultaneamente, controlar a atividade cerebral que avalia o que essas condições significam. Esse processamento constitui o que se chama de auto-reflexão, e pode ocorrer devagar ou rápido.

É difícil provar que animais possuem capacidade de auto-reflexão. Damásio aventa a possibilidade de que chimpanzés pigmeus, por exemplo, talvez sejam capazes de sentir pena (emoção social) de outros animais, mas eles não teriam "consciência" disso. Em face da impossibilidade de definir o que se passa na mente de um animal, Damásio reluta em afirmar que eles têm sentimentos.

Outros especialistas, no entanto, estão dispostos a aceitar a idéia. Jaak Panksepp, renomado especialista em comportamento da Universidade Estadual de Bowling Green, Ohio, concorda que apenas seres humanos refletem sobre seus sentimentos, graças a seu neocórtex altamente desenvolvido. E apenas humanos podem controlar e fingir sentimentos, como políticos e atores o fazem. 

Panksepp não acredita, porém, que sentimentos surjam apenas da reflexão. Ele afirma que a raiz das emoções se encontra em regiões do cérebro tais como o sistema límbico, muito antigo do ponto de vista evolutivo e presente em todos os mamíferos. Ele cita, a esse respeito, uma recente pesquisa liderada por Naomi I. Eisenberger, da Universidade da Califórnia. Eisenberger usou imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI, na sigla em inglês) para monitorar a atividade cerebral de pessoas que se consideravam socialmente excluídas. Pedia-se aos voluntários que participassem de um jogo de computador, em que eram informados de que havia dois outros participantes ocultos. Na verdade, os "outros" eram ícones controlados por um software. Os três participantes deveriam arremessar uma bola virtual uns para os outros, mas as duas "pessoas" controladas pelo computador passavam a bola apenas entre si, ignorando a pessoa real que as observava na tela. Os voluntários sofriam com a experiência, por se sentirem excluídos.

Os resultados do fMRI obtidos durante o experimento mostraram atividade significativa em várias regiões do cérebro, especialmente no córtex cingular anterior. Estudos anteriores indicam que pessoas que se vêem em situações depressivas apresentam atividade incomum no tálamo e no tronco cerebral. Essas regiões desempenham papéis importantes no sistema límbico - área cerebral que produz e regula as emoções.


Alegria e diversão 


É interessante notar que porquinhos-da-índia prematuramente separados da mãe apresentam grande atividade no mesmo sistema cerebral. Na visão de Panksepp, a sensação de solidão e vulnerabilidade, e o stress dela decorrente, têm origem em mecanismos arcaicos que são a base do sentimento de tristeza dos humanos. O sistema límbico é uma estrutura cerebral antiga, e o fato de ele desempenhar papel importante indica que a emoção é parte fundamental da vida dos animais.

Biólogos que observam sinais de contentamento em animais concordam. Nas florestas tropicais de Sumatra, orangotangos balançam em galhos de árvores e batem as mãos em poças d`água para se divertir. No Alasca, corvos deitam e escorregam sobre telhados cobertos de neve sem motivo aparente. Búfalos da América do Norte berram ao deslizar, de propósito, sobre tufos de grama congelada. Macacos da ilha japonesa de Honshu brincam com bolas de neve. 

É largamente aceito que mamíferos possuem tendência inata para brincar, porque a interação os ajuda a descobrir oportunidades sociais e testar limites. Eles aprendem habilidades que mais tarde serão importantes para a sobrevivência. Mas o que os motiva a brincar? Marc Bekoff, biólogo da Universidade do Colorado em Boulder, pesquisou profundamente o tema. Ele afirma que é a necessidade de diversão que leva à brincadeira.

Estudos sobre o metabolismo do cérebro fornecem evidências de que os sentimentos dos animais talvez não sejam muito diferentes dos sentimentos dos seres humanos, pois entre eles há processos cerebrais comuns. Pesquisas mostram que o neurotransmissor dopamina é importante no processamento de emoções como alegria e desejo tanto em humanos como em outros mamíferos.

Ainda não é possível provar, através da observação, se um animal possui sentimentos conscientes, do mesmo modo como não se pode ter certeza sobre o que uma pessoa sente no íntimo. Experimentos de laboratório indicam que pelo menos alguns animais dispõem de capacidade de autoconsciência. Portanto, não é totalmente despropositado supor que talvez tenham consciência de suas emoções. Bekoff lembra que os sentimentos dos animais não precisam ser idênticos aos das pessoas.

Humanos ficam felizes de inúmeras maneiras. Animais talvez fiquem felizes de um jeito diferente daquele dos humanos.

É possível que animais e humanos compartilhem orgulho, alegria, sofrimento e vergonha. O psicólogo Marc Hauser, da Universidade Harvard, observou um macaco reso que, depois de copular, passou a desfilar cheio de si até que tropeçou e caiu. Aflito, olhou ao redor antes de se levantar - aparentemente envergonhado do tombo. Quando teve certeza de que ninguém o vira, ergueu-se, empertigado, como se nada tivesse acontecido.

Para Bekoff, as novas descobertas têm não apenas valor científico, mas também significado social: se os animais são capazes de sentir emoções, então temos uma razão a mais para tratá-los com carinho.


- Tradução de Demétrio Toledo 

Para conhecer mais

The smile of a dolphin. Marc Bekoff. Discovery Books, 2000.

Minding animals: awareness, emotions and heart. Marc Bekoff. Oxford University Press, 2002.

"Laughing" rats and the evolutionary antecedents of human Joy. Jaak Panksepp e Jeff Burgdorf, em Physiology and Behaviour, vol. 79, nº 3, págs. 533-547, 2003. 

 




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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os Animais Pensam?

Imagem: Símio pensando

 

Sim. Como os autistas

Temple Grandin, pesquisadora norte-americana, afirma que os mecanismos do "pensamento" animal são os mesmos das pessoas autistas.



Estudiosa do autismo, a norte-americana Temple Grandin (ela própria autista) diz que sua forma de ver o mundo pode ajudar a compreender como pensam os animais. Ao comparar mecanismos do “pensamento” animal com os de autistas, ela aproxima os animais dos seres humanos e lança as bases de uma grande polêmica científica

Quem ainda não parou, tocado no fundo do coração, diante do olhar intenso e meigo de um cão labrador? Se você é ligado em animais, sejam selvagens ou domésticos, certamente já se pegou admirado diante de tanta expressividade e se perguntou: será que eles pensam? E, se pensam, o que pensam? Para a ciência, essa também é uma pergunta recorrente, origem de inúmeras pesquisas, centenas de dúvidas e muitas, muitas controvérsias. Uma delas diz respeito aos novos estudos realizados pela pesquisadora norte-americana Temple Grandin.

Recentemente, ela sacudiu os meios acadêmicos ao afirmar não apenas que os animais pensam, mas também ao lançar uma teoria para explicar como eles o fazem. Mais que isso: Temple deixou cientistas de cabelo em pé quando comparou a mente de um animal à mente de um ser humano autista. Para ela, animais e pessoas com autismo têm a mesma forma de ver mundo e os mesmos mecanismos de “pensamento”.

Absurdo? Pode parecer, embora boa parte dessa polêmica seja amenizada diante do fato de que a própria autora dessa teoria é autista e conhece o assunto de um ponto de vista muito particular, único na história da ciência. Aos 62 anos, Temple faz parte de uma estatística que aponta 20 casos a cada 10 mil pessoas (quatro vezes maior nos homens, de acordo com a Sociedade Americana de Autismo), com vários níveis de comprometimento do cérebro. No caso da pesquisadora, o autismo manifestou-se num grau considerado baixo, o que permite que ela leve uma vida muito próxima dos padrões de normalidade, interagindo perfeitamente com o mundo que a cerca.

O termo autista, que provém do grego (autos significa “de si mesmo”), foi usado pela primeira vez em 1906, pelo psiquiatra Plouller, mas foi entre 1943 e 1944 que os pesquisadores Leo Kanner e Hans Asperger lançaram as bases para o estudo mais sistemático do problema. Hoje, o que se sabe é que o autismo é um transtorno definido por disfunções físicas no cérebro, ocorridas antes dos 3 anos de idade, e caracterizado por perda da comunicação, distúrbios nas habilidades físicas e linguísticas, e em dificuldades na interação social.

Felizmente, nas últimas décadas, vários mitos em torno do autismo foram derrubados. Um deles é o de que pessoas autistas vivem isoladas “em seu mundo”. Na verdade, a falta de comunicação entre autistas e as outras pessoas deve-se às dificuldades que eles têm de estabelecer uma comunicação, muitas vezes até uma simples conversa, dependendo do grau do transtorno.

No caso de Temple, o autismo foi diagnosticado aos 2 anos e, embora ela tenha nascido num tempo em que o tema era muito pouco conhecido, em 1947, seus pais perceberam seu problema e deram estímulo e ensino adequados para ela se tornar uma profissional respeitada no meio acadêmico e científico. Formou-se em psicologia em 1976 e desenvolveu vários trabalhos científicos que vêm ajudando pesquisadores de todo o mundo a entender melhor essa lacuna na medicina. Hoje, possui vários livros publicados e o título de Ph.D. (equivalente ao doutorado no Brasil) pela Universidade de Illinois, nos Estados Unidos.

Portadora de uma forma leve de autismo, Temple Grandin conquistou uma posição respeitável nos meios científicos e acadêmicos. Sua perspectiva de autista lhe proporciona abordagens inovadoras sobre esse transtorno.

Depois de se dedicar à mente humana, Temple se especializou em comportamento animal. Em 1975, fez seu mestrado em ciência animal e mais tarde doutorou-se na mesma área, aperfeiçoando ainda mais seu trabalho com animais e dando os primeiros passos em direção às atuais descobertas. Suas principais ideias sobre o pensamento dos animais estão defendidas no livro Na língua dos bichos, escrito em parceria com a jornalista Catherine Johnson e lançado no Brasil em 2005.

Antes mesmo de seus estudos, a relação de Temple com os animais já era marcante. Quando criança, estudou numa escola especial e descobriu que o contato com animais, em especial os cavalos, auxiliava na superação de vários problemas emocionais. Mais tarde, tornou-se referência mundial no que se costuma chamar hoje de estudos do bem-estar animal. Sua preocupação com eles está presente até na hora da morte, pois projetou um sistema de abate que poupa o gado do estresse e do pânico antes de ser sacrificado. Construído de forma circular e todo coberto, esse sistema é usado por metade dos matadouros dos EUA, pois evita que o gado se assuste com sons e movimentos bruscos vindos de fora e ao mesmo tempo impede que vejam o que há pela frente. Seja como for, o sistema dá certo e ajuda a explicar sua teoria de que os animais enxergam muito mais detalhes do que um humano. Segundo ela, um porco evita atravessar um local por ver poças d’água com reflexos, pois podem parecer coisas assustadoras. Para Temple, isso ocorre também com alguns autistas, mais sensíveis a mudanças insignificantes do ambiente onde vivem. Mas as comparações entre autistas e animais não param por aí.

Para ela, uma das semelhanças entre o funcionamento da mente de um animal e de um autista diz respeito à maneira de processar as informações visuais que chegam ao cérebro. “Pessoas normais veem e ouvem de forma seletiva, com uma ‘peneira’ que filtra o que vai ser realmente compreendido pelo cérebro”, diz Temple. A partir de várias pesquisas com animais em cativeiro, ela percebeu que eles possuem um processo distinto de absorver o mundo que os cerca, que permite acessar todas as informações sensoriais brutas.

Os animais pensam?


Para diversas pessoas, é muito difícil aceitar a ideia de que formas mais inferiores de vida, tais como vermes ou carrapatos, sejam capazes de pensar e exibir consciência, planejamento a longo prazo ou raciocínio abstrato, as marcas fundamentais de uma mente. Mas poucos duvidam de que os grandes símios, primatas antropoides, como gorilas, bonobos, orangotangos e chimpanzés (estes últimos compartilham impressionantes 98% do seu genoma com os seres humanos) possuam coisas que parecem ser pensamento e cultura.

Em artigo sobre a evolução da inteligência humana publicado na revista Cérebro & Mente, o neurocientista paulista Renato M. E. Sabbatini argumenta que a inteligência não é uma propriedade única aos seres humanos. “A inteligência humana parece ser composta de várias funções neurais correlacionadas e que cooperam entre si, muitas das quais também estão presentes em outros primatas, tais como destreza manual, visão colorida estereoscópica altamente sofisticada e precisa, reconhecimento e uso de símbolos complexos (coisas abstratas que representam outras), memória de longo prazo, entre outras.

De fato, a visão científica corrente é que existem vários graus de complexidade da inteligência presente em mamíferos e que compartilhamos com eles muitas das características que previamente pensávamos ser exclusivas do ser humano, tal como linguagem simbólica, que se comprovou também ser possível em antropoides. O estudo da evolução da inteligência humana forneceu evidências de que parece haver uma “massa crítica” de neurônios de maneira a conseguir consciência semelhante à dos humanos, linguagem e cognição, mas que essas propriedades da mente parecem estar já presentes em outras espécies com cérebros altamente desenvolvidos, embora em forma mais primitiva ou reduzida.

O problema é que os seres humanos sabem que outros humanos têm mentes iguais às suas, porque podemos compartilhar essas experiências entre nós, através da linguagem simbólica. Outros animais são incapazes de comunicar isso diretamente a nós, porque eles não têm linguagem ou introspecção. Entretanto, os estudiosos da comunicação simbólica dos antropoides, tais como os que fizeram experimentos que foram capazes de ensinar orangotangos, gorilas e chimpanzés a usar linguagens artificiais, são rápidos em afirmar que eles possuem fortes evidências de que isso é verdade. “Experimentos com os chimpanzés Koko e Washoe e com o gorila Kenzi demonstraram que eles eram capazes de inventar novas palavras, construir frases abstratas e expressar seus sentimentos através da Linguagem Americana de Sinais (para surdos-mudos) ou linguagens simbólicas baseadas em computadores”, escreve Sabbatini.

“É o que ocorre também no cérebro dos autistas”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, pessoas normais usam os lobos frontais e o neocórtex para juntar os estímulos dos órgãos dos sentidos num todo coerente, que estabelece um limite de acesso a essas informações sensoriais brutas. Embora os autistas tenham essas partes do cérebro normais, elas não estão totalmente ligadas ao resto do cérebro, não permitindo essa filtragem. Para ela, o fato de os animais também terem o neocórtex pouco desenvolvido justificaria tal semelhança.

Para Temple, ainda existem semelhanças na forma de se relacionar emocionalmente com o mundo. “Emoções como raiva, medo, curiosidade, atração sexual e laços sociais como a amizade são básicas para ambos, pois tanto animais quanto autistas têm menor capacidade de associar coisas o tempo todo, o que ajuda a manter os sentimentos mais separados”, diz a pesquisadora. “Ambos têm uma percepção mais amena da dor por conta da possível falta de conexão entre a dor e sentimentos como a preocupação e a ansiedade.”

As afirmações de Temple causaram muita polêmica na comunidade acadêmica e, logo após ter lançado seus artigos, cientistas do mundo todo opuseram-se aos pontos de vista ali defendidos. Para muitos, ainda é difícil fazer essa equivalência de funções cognitivas, o que exigiria mais pesquisas tanto do cérebro animal como dos humanos. Para outros, é muito perigoso fazer esse tipo de comparação, que poderia gerar uma distorção do autismo e até mesmo suscitar comparações esdrúxulas entre humanos e animais, ou suscitar o preconceito com os autistas. Os pesquisadores também contestam que os animais tenham acesso privilegiado a níveis básicos de informação sensorial. Defendem que tanto os animais como os humanos processam a informação segundo regras, uma função especializada do hemisfério esquerdo do cérebro observada em ambos.

Para temple, o fato de animais e autistas terem o neocórtex pouco desenvolvido ajuda a explicar suas limitações no processo do pensamento

Em sua defesa, Temple diz que uma das causas da discórdia está no modo como as informações são apreendidas pelos não autistas, que pensam com linguagem, enquanto os autistas e animais pensam a partir de dados sensoriais brutos. Ela acrescenta que seu cérebro e o dos animais funcionam como a internet, na qual se pode acessar qualquer tema a partir de uma busca. “No nosso caso, porém, essa busca é 100% visual”, completa.

Diante dessa controvérsia, cientistas se apoiam principalmente no fato de as ideias de Temple não estarem baseadas em provas físicas concretas – em grande parte das vezes, elas se apoiam em sua própria experiência pessoal. No entanto, todos concordam que seu trabalho tem revelado um vasto conhecimento no que diz respeito ao autismo e à percepção dos animais. Enquanto isso, seguimos observando os olhos desses seres que sempre fizeram parte de nossa vida, do nosso meio, e que, muitas vezes, nos ajudam a compreender melhor o mundo. E a nós mesmos.

João Correia Filho


Para saber mais

• Temple Grandin e Catherine Johnson,Na língua dos bichos, Ed. Rocco, 2005
• Tim Radford, “Do animals think?”,Guardian, dezembro 2002
• Sabbatini, R.M.E., “The evolution of human intelligence”.Brain & Mind, 12, 2001


Fonte:Revista Planeta



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