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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Veganismo e Alteridade - E-book Grátis


Mais um e-book do IACH disponível gratuitamente :







VEGANISMO: mOVIMENTO SOCIAL PELA  ALTERIDADE



Os movimentos sociais são reconhecidamente uma das principais ferramentas de mudança das quais as pessoas podem se utilizar para efetuar grandes modificações dentro de uma sociedade, e é dentro dessa estrutura de movimento social em franca expansão que, nos parece, o veganismo já se encontra


Boa leitura


Contamos com a colaboração de nossos leitores na divulgação deste e-book, e já nos preparamos para lançar muitos outros.

Grande abraço

Simone Nardi








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terça-feira, 1 de julho de 2014

Quem são os oprimidos?Uma questão de Alteridade!



“A partir dos anos 80 ficou claro para muitos teólogos – nem todos, claro – que não só os povos gritam, as águas gritam, as florestas, os animais, a Terra grita, porque são todos oprimidos. Solos são devastados, os ares são poluídos. O planeta é agredido de todas as formas”. Leonardo Boff.





Essa é a questão fundamental para que o rumo da Filosofia e sua eterna, e quase inalcançável busca pela ética, mude. Quem são os oprimidos? A quem se estende a nossa alteridade? Afinal, o que é alteridade e o que é opressão?

Alteridade é quando conseguimos compreender o “Outro”, nos colocarmos em seu lugar, nos compreendermos como ele se compreende, é ouvi-lo, é sentir seu desejo pela vida e pela liberdade. Em nossa dominação pela Terra e por tudo que nela existe, nós não exercitamos a alteridade, mas sim, a dominação, de forma bruta tanto para com aqueles que julgamos inferiores, como para conosco mesmo. Ação e reação, o que enfrentamos hoje nos aparece na forma da terceira lei de Newton:

“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”. Somos incapazes de pensar na Natureza como um “Outro”, como aquele a quem oprimimos e subjugamos, somos incapazes de ver os animais como um “Outro Ser” do qual nos apropriamos e oprimimos, porque somos incapazes de exercitar a alteridade para com eles.

Talvez com poucas exceções, a grande maioria dos autores que fala em alteridade, aponta como “Outro” apenas o ser social, aquele que se relaciona, porém, esse mesmo “Outro” que se comunica e troca experiências é, na ponta dessa corrente, um ser oprimido devido à opressão que ele, e quem o defende, causa ao esquecer que a água igualmente grita, que os animais igualmente gritam por serem eles, todos oprimidos.

Por isso a necessidade de nos debruçarmos sobre a Filosofia e encararmos com coragem os desafios que ela nos impõe, para que alcancemos uma ética que mostre que o “Outro” não é necessariamente o “Outro Humano”, mas um “Outro Ser” pelo qual, igualmente, temos a obrigação moral de oferecer respeito.

Merleau Ponty nos diz: “ Na experiência do diálogo, constitui-se entre mim e o outro um terreno comum, meu pensamento e o dele formam um só tecido, minha fala e as dele são invocadas pela interlocução, inserem-se numa operação comum da qual, nenhum de nós é criador.Há um entre os dois, eu e o outro somos colaboradores, numa reciprocidade perfeita coexistindo no mesmo mundo.”

Mas as águas gritam, os animais gritam e nós fechamos nossos ouvidos para o sofrimento deles porque acreditamos que apenas o ser social, apenas o ser comunicador tem o direito de coexistir ao nosso lado, no entanto, eles não se calam. Mas ignoramos porque ouvindo-os, seremos obrigados a novas atitudes, a novas reflexões, a novos conceitos.

Ouvindo-os, nos aproximaremos de novas questões morais e éticas, e finalmente, da inclusão desse critério de alteridade aos demais seres que tanto marginalizamos e nessa nova práxis libertadora , seremos apresentados a verdadeira liberdade dos oprimidos.

Essa negação do critério de alteridade para com os animais, transformando-os em não-outro ou não-ser, ocorre devido à dominação que nós, animais humanos, os submetemos; ao subjugá-los como fazemos, lhes negamos o direito de liberdade e os oprimimos. Não nos colocamos no lugar de seres que dominamos, isso é opressão. Não ouvimos seus gemidos, nem sentimos suas dores, apenas os oprimimos e não podemos deste modo, nos considerarmos seres éticos na busca pela libertação e pela alteridade, o que nos coloca em contradição com aquilo que buscamos, ou seja, a própria Ética. A consequência dessa exclusão é a opressão e as mudanças a qual temos assistido todos os dias, na reação de um Planeta que igualmente no todo, é considerado um não-ser, sendo violentado diariamente pelo desejo humano.

Essa “ética” atual é na verdade uma ética injusta e irresponsável, que aniquila não apenas os excluídos, mas os que os excluem e ameaça dia a dia, o futuro de todos os seres que aqui habitam.

Sabemos que essa estrutura de dominação e aniquilação da alteridade para com os animais, está enraizada parte na Filosofia e nos foi passado pelo rebanho social que nos precedeu, tentando colocar em nossas mentes que esse abuso é uma coisa perfeitamente normal, talvez por isso a dificuldade das novas gerações em considerar os animais, assim como o planeta, como um “Outro” a quem a ética também deva preservar. É bem mais simples encarar os animais como “coisas” desprovidas de qualquer senciência, de qualquer conotação moral, dispensados de qualquer critério de alteridade, pois mudar isso desestruturaria parte das grandes obras filosóficas, uma verdadeira heresia.

“ os conquistadores dominaram o índio; os negreiros venderam africanos como “instrumentos”(…) Qual tipo de lógica dirige a argumentação de tais injustiças? Para justificar a morte de alguém, a exploração a opressão, sem a culpabilidade moral, é necessário algo que fundamente.(…) O outro é visto como alguém diferente da totalidade.” (Enrique Dussel)

E qual será a lógica para todas as injustiças cometidas contra os animais, qual o nosso direito como seres superiores, de infligirmos tanto sofrimento a seres que não possuem a capacidade de defenderem-se sozinhos?

Infelizmente ainda hoje, é assim que os animais são vistos , como seres diferentes da totalidade, como seres instrumentos, objetos descartáveis que nada sentem e nada desejam. Será essa a ética que a Filosofia deve buscar, ou deve ela se questionar:

Quem realmente são os oprimidos?

Para responder a si mesma: Oprimidos são todos aqueles a quem eu julguei como não seres, como não outros, são todos aqueles a quem eu dominei, são todos aqueles a quem eu subjuguei e são, ainda, aqueles a quem hoje eu ainda desconsidero.

Somente a partir desse ponto, é que poderemos separar o bem, a ética e a justiça, e é sabido por todos que a exclusão é um dos maiores, senão o maior de todos os fatores, da causa de injustiças, mesmo assim nos excluímos os animais. A Ética somente será Ética quando conseguir ver o Outro sem diferenças, sem dominações ou exclusões, quando pensar realmente a partir daquele Outro ser que havia sido esquecido durante tanto tempo. A proposta é romper com toda a Filosofia antropocêntrica que desconsidera e exclui esses seres do direito que possuem ao conceito de alteridade, criando assim uma nova Filosofia de Inclusão e de Libertação.

Não queremos abandonar a Filosofia, mas usá-la como ferramenta para libertar. O que vemos ocorrendo com os animais nos impõe essa necessidade de mudar, por isso a importância da expansão do critério de alteridade para com os animais, para com as águas, para com o Planeta. Não podemos mais repetir antigos conceitos sem vivermos plenamente, a realidade cruel pela qual passam os animais.

Mas sabemos, ao mesmo tempo, o motivo pelo qual muitos não desejam exercitar a alteridade para com os animais:

“Quando se reconhece o outro como alguém, um além da totalidade, é possível uma “práxis de libertação” que procura reconstituir a alteridade, a liberdade de quem vive oprimido na totalidade. ”(E.Dussel)

A liberdade de quem vive oprimido na totalidade. Seres livres do nosso jugo cruel, fim da exploração e do abuso humano sobre os animais.

Esse é o principio primordial e potencializador da Libertação Animal, e mudarmos isso exigirá muito trabalho, afinal como considerarmos, logo nós seres reinantes, que um a um animal possa ser estendido o critério de alteridade? Relembrando a frase de abertura desse artigo, que foi dita durante o último fórum de Teologia da Libertação, e que deixou claro que os oprimidos não são apenas os animais humanos, mas todo o Planeta que também é um “Outro Ser“ a quem devemos estender a alteridade de modo a poder, desta forma, libertarmo-nos da opressão que causamos a nós mesmos e por conseguinte, libertar a própria Filosofia, apresentando assim uma ética material que arrebanhe todos os seres e que permita a todos o mesmo direito, o direito a vida e a liberdade.

“Aja de tal maneira que permitas que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco”.(L.Boff)

E sabemos que não podemos evoluir se não mudarmos, eis a grande questão proposta à Filosofia.




Referências Bibliográficas
DUSSEL, E. D. – Para uma Ética da Libertação Latino-Americana, v. I, II, III, IV, e V, Loyola.  SP. Fórum – Teologia da Libertação / 2009.

 

Simone Nardi








Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu e a dor do Outro

Mãe e filhote de orangotango , foram espancados e amarrados, pois devido a invasão humana de seu habita, passam fome e entram nas plantações para obter comida.O ser (h)umano invasor os espanca para evitar o "prejuízo" nas plantações


A tecnologia nos proporciona coisas inimagináveis: o contato com pessoas distantes, a rapidez dessa comunicação, as notícias que nos chegam em tempo real, ou seja, a tecnologia deveria aproximar as pessoas, mas, será que é isso mesmo que ela tem feito?

Nós temos mais acesso as notícias, as imagens ,aos fatos do dia a dia, mas nós também temos acesso a um lado (h)umano que não conhecíamos e que deveria ser muito estudado.

A visão dele (h-umano) diante da dor do outro.

Nós nos abstraímos tanto da dor alheia que não conseguimos mais senti-la como algo a ser evitado, mas apenas como algo a ser visto,aceito e talvez se possível filmado, e que pode ou não, causar algum sentimento em algumas pessoas.

Nos revoltamos com cenas de espancamentos, com cenas de assalto. Nos recusamos a ver cenas de abatedouros ou de criações de animais em confinamento. Mas não fazemos absolutamente nada para mudar as coisas.

A dor do outro permanece em nós como sendo apenas " a dor do outro".

Enquanto o outro sofre nós filmamos para depois postarmos nas redes sociais para que "alguém" faça alguma coisa, para que alguém mais, além do meu Eu, saiba que tal fato existiu.

Cão abandonado
A dor do outro nos parece algo inevitável, a qual algumas vezes pode nos revoltar mas que, em pouco tempo, cai no esquecimento até que mais um sofrimento nos seja mostrado, e assim por diante, causando em nós uma inssenssibilizaçao atordoante que  nos inibe de qualquer ato para evitar que o Outro permaneça em sofrimento.

Para Levinas, filósofo, qualquer um de nós tem inteira responsabilidade pelo outro, sobretudo pelo seu sofrimento, pela sua dor . Para este autor, somente o fato do Outro me olhar, já me torna responsável por ele.O Outro para Levinas, é todo aquele que sofre e necessita de meu auxílio, em sua concepção, todos somos culpados por essa dor.

" [...] a culpabilidade não é um sentimento neurótico, mas a obsessão do sujeito que escuta com solicitude o apelo do outro." (Timm, et.Ética e dialogos)

Ouvir o "grito silencioso" da dor do outro é uma emergência ética.Se posicionar diante desse fato é abrir caminho para tornar-se realmente humano.

A manifestação do outro diante de mim é capaz de trazer com ela o sentido da dor que se exprime naquele ser a quem , eticamente, não posso me furtar em auxiliar. Ao vê-lo, ao tomar seu lugar (alteridade), ao auxiliá-lo, redimo em mim a humanidade esquecida, quase perdida . Abdico de meu solipcismo, de meu antropocentrismo em direção ao outro. Ao vê-lo, finalmente vejo a mim, não importa se ele é humano ou animal, vejo apenas aquele que sofre e que merece a minha humanidade.

Elefante acorrentado
Só assim me posiciono diante do mundo ao qual pertenço, só assim enxergo que também sou o Outro de algum outro Eu.




Simone Nardi







Fonte:

Éticas em Diálogo;Levinas e o pensamento contemporâneo; Ricardo Timm






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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sem sonho não há empatia - a dor do outro



Filhote de orangotango


Tecnicamente falando, empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e, em imaginando o que ele está sentindo em determinada situação, emocionar-se com tais sentimentos, de forma negativa ou positiva, graças a essa projeção de consciência. 


Podemos nos ver refletidos no bonitão da TV que pega um monte de gatinhas com um estalar de dedos, ou no intelectual talentoso, que comove multidões com a profundidade de suas obras. Podemos ainda, à guisa de exemplo, imaginarmo-nos na pele do bombeiro destemido que, com suas ações heroicas, salva vidas diariamente. Ou mesmo nos projetarmos naquele atacante habilidoso – embora eles estejam cada vez mais raros -, cujos dribles, gols e jogadas incríveis levam ao delírio os torcedores. No entanto, tais exercícios de imaginação não constituem, essencialmente, processos empáticos, na exata conotação do termo, não obstante os primeiros possam ser entendidos, de certa sorte, como fenômenos psicológicos semelhantes aos segundos, haja vista terem em comum a exigibilidade da faculdade imaginativa para se processarem.

Quando sonhamos ser o galã da TV ou o craque famoso, descansando folgadamente na paradisíaca Ilha de Caras, cercados de mimos e mordomias por todos os lados, estamos, obviamente, fazendo um exercício de imaginação que pode satisfazer ou frustrar nosso ego de maneira momentânea mais ou menos demorada, dependendo do ângulo pelo qual o processo seja interpretado por nossa psique. (Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou ser o Brad Pitt ou o Bono, do U2.) Contudo, tais projeções, tanto num quanto noutro caso, representam a exteriorização pura e simples de nosso egoísmo, tendo em vista que, por meio delas, transportamo-nos para o lugar do outro apenas visando à satisfação de desejos particulares, que não implicam necessariamente o bem coletivo ou de outro indivíduo, além de nós mesmos. Daí sua diferenciação da empatia. 

A empatia é o componente psíquico de nossa personalidade que abala nossa zona de conforto e nos faz sentirmos a dor do próximo, imaginando-a em nós mesmos. A princípio, pode não parecer, mas a maioria esmagadora dos seres humanos a possui, latente, dentro de si. Exceção feita aos psicopatas, que são incapazes de sentir emoções desse tipo, apesar de conseguirem enxergá-las nos outros e simulá-las maquiavelicamente em seu dia a dia, segundo seus interesses mesquinhos, no teatro existencial. 

Tais propriedades singulares metamorfoseiam a empatia num elemento de suma importância para a higidez dos relacionamentos humanos, por constituir ela o móvel primário das ações mais nobilitantes realizadas pelos indivíduos dentro do organismo social. A solidariedade, a caridade e o amor ao próximo se tornariam mera letra morta no livro da vida não fosse esse dom sublime das criaturas de se enxergarem umas nas outras, absorvendo a aflição alheia como se fosse a sua. 

AMPLIAÇÃO DE HORIZONTES

Animal aprisionado
O curioso é que esse “transporte consciencial”, tão salutar, não deveria se verificar apenas entre os chamados seres hominais, mas, sim, abarcar igualmente os membros das demais espécies que habitam o planeta, tendo em vista que a única diferenciação entre os primeiros e as segundas é o grau evolutivo em que se encontram. De fato, como a própria ciência vem comprovando a cada dia, os animais têm emoções bastante similares às dos humanos e um nível de inteligência que se sobrepõe, em muito, ao mero instinto – este, por si só, aliás, já uma expressão intelectiva, em última instância. 

Via de consequência, faz-se imperativo que deixemos de enxergá-los como meros objetos, sujeitos a nosso bel-prazer, inclusive aos caprichos de nossa gula, e passemos a vê-los como nossos irmãos menores, necessitados de proteção e amparo. Precisamos ampliar nossa capacidade empática, a fim de que ela passe a englobar, mais do que o universo restrito dos homens, os infinitos reinos da natureza, em suas expressões multifárias. Faz-se necessário que passemos a vislumbrar em cada criatura que nos cerca um indivíduo detentor dos mesmos direitos à vida, ao respeito e à dignidade que nós. Somente quando isso acontecer estaremos realmente exercitando, em sua plenitude, nossa empatia.

É óbvio que, como há diferentes níveis de consciência e entendimento, essa dilatação conceitual ocorrerá aos poucos, conforme a capacidade assimilativa de cada um. O que não se pode fazer é deixar de buscar essa mudança íntima, mesmo que no nível mais mínimo, dia a dia. 

 

ELEMENTO INDISPENSÁVEL

 

Agora, se você teve a paciência de chegar até aqui, recoste-se na sua cadeira, ajeite seu notebook e resista mais um pouco, porque já está no finalzinho e eu vou lhe revelar um segredo que, no fim das contas, não é tão secreto assim: pessoas sem imaginação dificilmente desenvolvem a empatia. Pode acreditar: a capacidade imaginativa é um pressuposto básico para a ocorrência do fenômeno empático. Afinal, se você não consegue se imaginar no lugar do outro, consequentemente, não conseguirá sentir compaixão pelo seu sofrimento, já que as sinapses de seu cérebro não serão ativadas convenientemente, devido à ausência do tipo de estímulo adequado. 

Homem dando água a um coala, após incendio
Pode até parecer esquisito, mas, para sentir a dor do próximo é preciso romper os grilhões que nos ajudam ao nosso próprio interior. É preciso fugir de nós mesmos e procurarmos o outro, porque somente escapando de nossas próprias celas mentais arrancaremos dos tornozelos as incômodas correntes de egoísmo que nos atam à frieza e à insensibilidade perante as mazelas alheias. Mas, para isso, é condição sine qua non sonhar. Quem não sonha não sai de si mesmo. É estático, inerme, estéril. Paradoxalmente, apenas com o poder da imaginação é possível tornar tangível, palpável o quase sempre distante, abstrato e incompreensível sofrimento do próximo, seja ele homem ou animal. Sem sonho não há empatia.

Jones Mendonça , colaborador do Blog 

 

 

 

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quarta-feira, 21 de maio de 2014

A dor do outro

Primata atrás das grades


“O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior”.


Albert Einstein







Esse  pensamento fez-me lembrar de um dos ensinamentos de Jesus: “Amai ao próximo como a si mesmo”. Mas o Mestre não especificou se o próximo era o seu irmão de sangue, sua mãe, ou seu pai. Não especificou se o próximo seria mesmo aqueles que estão próximos ou que são iguais a você. Em meu entendimento, o próximo é muito mais. É como Gandhi disse: “o próximo é tudo o que vive”. E quando pensamos assim, estamos aumentando gigantescamente o nosso círculo de compaixão. Deixamos de amar apenas os nossos familiares e amigos e passamos a amar tudo o que vive. 



Entre tantos seres viventes, estão os animais. Sim, eles também são o nosso “próximo”. Estão presentes em nossa vida não para que façamos deles meros objetos. Eles têm sentimentos, alma, sofrem, necessitam do nosso auxílio para seguirem rumo à evolução. O que ocorre é que nós “humanos”, em nossa prepotência e soberba, julgamo-nos superiores, feitos à imagem e semelhança de Deus. Diante desse grandioso orgulho, sentimo-nos no direito de usurpar as vidas inocentes que estão em nosso planeta tão-somente para evoluírem, assim como nós mesmos, seres imperfeitos que somos. Desde os primórdios, estamos destruindo sem piedade tudo o que nos cerca, numa frieza implacável. 

Contudo, aos poucos, algumas mentes adormecidas foram despertando e pouco a pouco expandindo em si mesmas o sentido de amar ao próximo.  Alguns já conseguem se colocar no lugar do outro, sentir um pouco a dor alheia. Mas não é fácil. Temos a tendência de amar os nossos familiares, alguns poucos amigos e, se amarmos além, como, por exemplo, a um animal, amamos apenas aquele que é “nosso”, o cachorrinho de estimação da família. Não conseguimos enxergar no cão de rua o nosso próximo, aquele que necessita da nossa compaixão profunda. Não conseguimos nos colocar no lugar dos nossos irmãos que todos os dias são abatidos friamente, apenas para se transformarem em pedaços de carne. E por que fechamos os nossos olhos? Porque ainda não sabemos amar. Amamos de maneira egoísta, um amor que aprisiona, sufoca e mata. Amamos como se nosso coração não suportasse amar mais. Dedicamos o nosso carinho e respeito apenas àqueles que estão literalmente próximos. Enquanto permanecermos assim, o mundo será de provas e expiações, porque é inimaginável um planeta de regeneração onde o significado da palavra amor ainda é tão mesquinho.

Filhote abandonado, parece invisível para os seres (h)umanos que passam por ele.

Precisamos abrir nossos olhos, os da alma, para enxergarmos o que ainda é invisível para a maioria e, quando estivermos com os olhos abertos, precisamos ajudar a abrir os olhos dos que nos cercam para que vejam que o próximo pode estar em qualquer lugar que nosso pensamento possa alcançar. Notaremos em toda a parte mãos precisando das nossas para serem conduzidas. Fitaremos pessoas com os corações necessitados de um pouco de ânimo para seguir em frente. Sentiremos as plantas necessitando de nossa proteção e cuidados. Ouviremos os animais pedindo para viver, para terem a oportunidade sagrada da vida, que lhes tiramos simplesmente pelo fato de não os considerarmos como nosso próximo. Que cada um de nós abra os olhos, o coração. Que possamos expandir nosso círculo de compaixão, estendendo nosso amor para tudo o que vive. Somente assim seremos capazes de exercitar, em sua plenitude, nossa condição de seres humanos. 




Fernanda Almada   



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