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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Síndrome de Narciso

Narciso



Conta a lenda que Narciso era filho de um deus com uma ninfa, e que segundo um adivinho, o jovem viveria muito desde que não visse a própria imagem. Rapaz de extrema beleza e orgulho, um dia ao ver seu reflexo nas águas de um lago, apaixonou-se.Encantado com o que via, passou dias a admirar a própria imagem, sem beber ou comer, até seu corpo ir definhando. Alguns contam que atirou-se, o jovem, nas águas do lago afim de abraçar a imagem, e assim morreu afogado.

Assim também, são os seres humanos, incapazes de enxergar qualquer beleza além de sua própria forma. Nada para eles, esses narcisos modernos, é mais belo do que eles, é mais inteligente , mais merecedor de respeito ou melhor. O orgulho por sua dominação aos outros seres, seu ego extremamente “Narcisista” é tão grande que os está, a cada dia, mergulhando nas águas que um dia levaram o jovem grego para a morte. Seu desprezo pelos demais seres da criação é tão grande que lhes é impossível olhar para outra imagem que não seja a própria.”Nós podemos, somos os únicos abençoados, somos superiores...”

E como Narciso, a cada dia eles deixam de beber, poluindo as águas dos mares, rios e lagos. Deixam de comer, queimando florestas, contaminando o solo, matando em nome de uma falsa necessidade. Aos poucos seus corpos igualmente estão definhando, porque a Terra já não lhes suporta mais esse orgulho infantil e os esmaga e , embora egoistas, eles sabem que diante da Terra, nada podem, nada são.

Os narcisos modernos não respeitam cores , credos ou raças.Não respeitam qualquer forma de vida que não possuam a “SUA” forma. Animais não são belos ou inteligentes para esses narcisos.Não merecem respeito apesar de ser-lhes impossível sobreviver sem eles. São maltratados, mortos e torturados em nome da beleza e da soberbia humana.São massacrados em nome de seu mais adorado profeta, em nome de suas vidas, como se apenas eles fossem merecedores de sua egoísta existêncialidade.

Tal como o herói grego, a humanidade se encontra agora orgulhosamente olhando para sua própria face, com todas as dores, com toda destruição que ela mesmo causou.É sua imagem que ela agora vê refletida no lago em forma de desastres naturais, mortes, roubos, corrupção.É seu ego e seu egoísmo que ela vê quando olha para as milhares de criaturas presas em minúsculas celas aguardando apenas a hora da execução, porque para esses narcisos, somente eles são importantes, somente eles merecem viver. E são milhares de atrocidades que ela agora vê refletida em seu espelho espiritual com a Terra se modificando, com a poluição que os sufocará assim como eles fizeram com tantos outros. Como uma imagem no espelho d’água, a humanidade recebe agora tudo o que ofereceu durante tantos anos :Dor, desespero, morte.

E aos poucos chafurda nas águas de seu orgulho sem que ninguém mais venha o auxiliar, pois como jamais angariou amigos, não há quem possa tirá-los agora, das profundezas do lago de lama e dor, em que está se afogando. Como Narciso, a humanidade se afoga em seu ego e em sua falsa beleza , como Narciso a humanidade passará a ser apenas uma lenda, nada mais que uma lembrança perdida no passado.

Então ela verá que não era a coisa mais importante, pois sem ela a vida renascerá, os animais renascerão e a Terra se renovará passando a viver em sua plenitude, sem guerras, sem assassinatos, sem medo.Sem a humanidade narcisista a Terra viveu milhares de anos, e assim voltará a viver novamente quando, por suas próprias mãos, for a humanidade banida do Planeta que tanto sofreu em suas mãos.

Simone Nardi 






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terça-feira, 1 de julho de 2014

Quem são os oprimidos?Uma questão de Alteridade!



“A partir dos anos 80 ficou claro para muitos teólogos – nem todos, claro – que não só os povos gritam, as águas gritam, as florestas, os animais, a Terra grita, porque são todos oprimidos. Solos são devastados, os ares são poluídos. O planeta é agredido de todas as formas”. Leonardo Boff.





Essa é a questão fundamental para que o rumo da Filosofia e sua eterna, e quase inalcançável busca pela ética, mude. Quem são os oprimidos? A quem se estende a nossa alteridade? Afinal, o que é alteridade e o que é opressão?

Alteridade é quando conseguimos compreender o “Outro”, nos colocarmos em seu lugar, nos compreendermos como ele se compreende, é ouvi-lo, é sentir seu desejo pela vida e pela liberdade. Em nossa dominação pela Terra e por tudo que nela existe, nós não exercitamos a alteridade, mas sim, a dominação, de forma bruta tanto para com aqueles que julgamos inferiores, como para conosco mesmo. Ação e reação, o que enfrentamos hoje nos aparece na forma da terceira lei de Newton:

“Para cada ação há sempre uma reação, oposta e de mesma intensidade”. Somos incapazes de pensar na Natureza como um “Outro”, como aquele a quem oprimimos e subjugamos, somos incapazes de ver os animais como um “Outro Ser” do qual nos apropriamos e oprimimos, porque somos incapazes de exercitar a alteridade para com eles.

Talvez com poucas exceções, a grande maioria dos autores que fala em alteridade, aponta como “Outro” apenas o ser social, aquele que se relaciona, porém, esse mesmo “Outro” que se comunica e troca experiências é, na ponta dessa corrente, um ser oprimido devido à opressão que ele, e quem o defende, causa ao esquecer que a água igualmente grita, que os animais igualmente gritam por serem eles, todos oprimidos.

Por isso a necessidade de nos debruçarmos sobre a Filosofia e encararmos com coragem os desafios que ela nos impõe, para que alcancemos uma ética que mostre que o “Outro” não é necessariamente o “Outro Humano”, mas um “Outro Ser” pelo qual, igualmente, temos a obrigação moral de oferecer respeito.

Merleau Ponty nos diz: “ Na experiência do diálogo, constitui-se entre mim e o outro um terreno comum, meu pensamento e o dele formam um só tecido, minha fala e as dele são invocadas pela interlocução, inserem-se numa operação comum da qual, nenhum de nós é criador.Há um entre os dois, eu e o outro somos colaboradores, numa reciprocidade perfeita coexistindo no mesmo mundo.”

Mas as águas gritam, os animais gritam e nós fechamos nossos ouvidos para o sofrimento deles porque acreditamos que apenas o ser social, apenas o ser comunicador tem o direito de coexistir ao nosso lado, no entanto, eles não se calam. Mas ignoramos porque ouvindo-os, seremos obrigados a novas atitudes, a novas reflexões, a novos conceitos.

Ouvindo-os, nos aproximaremos de novas questões morais e éticas, e finalmente, da inclusão desse critério de alteridade aos demais seres que tanto marginalizamos e nessa nova práxis libertadora , seremos apresentados a verdadeira liberdade dos oprimidos.

Essa negação do critério de alteridade para com os animais, transformando-os em não-outro ou não-ser, ocorre devido à dominação que nós, animais humanos, os submetemos; ao subjugá-los como fazemos, lhes negamos o direito de liberdade e os oprimimos. Não nos colocamos no lugar de seres que dominamos, isso é opressão. Não ouvimos seus gemidos, nem sentimos suas dores, apenas os oprimimos e não podemos deste modo, nos considerarmos seres éticos na busca pela libertação e pela alteridade, o que nos coloca em contradição com aquilo que buscamos, ou seja, a própria Ética. A consequência dessa exclusão é a opressão e as mudanças a qual temos assistido todos os dias, na reação de um Planeta que igualmente no todo, é considerado um não-ser, sendo violentado diariamente pelo desejo humano.

Essa “ética” atual é na verdade uma ética injusta e irresponsável, que aniquila não apenas os excluídos, mas os que os excluem e ameaça dia a dia, o futuro de todos os seres que aqui habitam.

Sabemos que essa estrutura de dominação e aniquilação da alteridade para com os animais, está enraizada parte na Filosofia e nos foi passado pelo rebanho social que nos precedeu, tentando colocar em nossas mentes que esse abuso é uma coisa perfeitamente normal, talvez por isso a dificuldade das novas gerações em considerar os animais, assim como o planeta, como um “Outro” a quem a ética também deva preservar. É bem mais simples encarar os animais como “coisas” desprovidas de qualquer senciência, de qualquer conotação moral, dispensados de qualquer critério de alteridade, pois mudar isso desestruturaria parte das grandes obras filosóficas, uma verdadeira heresia.

“ os conquistadores dominaram o índio; os negreiros venderam africanos como “instrumentos”(…) Qual tipo de lógica dirige a argumentação de tais injustiças? Para justificar a morte de alguém, a exploração a opressão, sem a culpabilidade moral, é necessário algo que fundamente.(…) O outro é visto como alguém diferente da totalidade.” (Enrique Dussel)

E qual será a lógica para todas as injustiças cometidas contra os animais, qual o nosso direito como seres superiores, de infligirmos tanto sofrimento a seres que não possuem a capacidade de defenderem-se sozinhos?

Infelizmente ainda hoje, é assim que os animais são vistos , como seres diferentes da totalidade, como seres instrumentos, objetos descartáveis que nada sentem e nada desejam. Será essa a ética que a Filosofia deve buscar, ou deve ela se questionar:

Quem realmente são os oprimidos?

Para responder a si mesma: Oprimidos são todos aqueles a quem eu julguei como não seres, como não outros, são todos aqueles a quem eu dominei, são todos aqueles a quem eu subjuguei e são, ainda, aqueles a quem hoje eu ainda desconsidero.

Somente a partir desse ponto, é que poderemos separar o bem, a ética e a justiça, e é sabido por todos que a exclusão é um dos maiores, senão o maior de todos os fatores, da causa de injustiças, mesmo assim nos excluímos os animais. A Ética somente será Ética quando conseguir ver o Outro sem diferenças, sem dominações ou exclusões, quando pensar realmente a partir daquele Outro ser que havia sido esquecido durante tanto tempo. A proposta é romper com toda a Filosofia antropocêntrica que desconsidera e exclui esses seres do direito que possuem ao conceito de alteridade, criando assim uma nova Filosofia de Inclusão e de Libertação.

Não queremos abandonar a Filosofia, mas usá-la como ferramenta para libertar. O que vemos ocorrendo com os animais nos impõe essa necessidade de mudar, por isso a importância da expansão do critério de alteridade para com os animais, para com as águas, para com o Planeta. Não podemos mais repetir antigos conceitos sem vivermos plenamente, a realidade cruel pela qual passam os animais.

Mas sabemos, ao mesmo tempo, o motivo pelo qual muitos não desejam exercitar a alteridade para com os animais:

“Quando se reconhece o outro como alguém, um além da totalidade, é possível uma “práxis de libertação” que procura reconstituir a alteridade, a liberdade de quem vive oprimido na totalidade. ”(E.Dussel)

A liberdade de quem vive oprimido na totalidade. Seres livres do nosso jugo cruel, fim da exploração e do abuso humano sobre os animais.

Esse é o principio primordial e potencializador da Libertação Animal, e mudarmos isso exigirá muito trabalho, afinal como considerarmos, logo nós seres reinantes, que um a um animal possa ser estendido o critério de alteridade? Relembrando a frase de abertura desse artigo, que foi dita durante o último fórum de Teologia da Libertação, e que deixou claro que os oprimidos não são apenas os animais humanos, mas todo o Planeta que também é um “Outro Ser“ a quem devemos estender a alteridade de modo a poder, desta forma, libertarmo-nos da opressão que causamos a nós mesmos e por conseguinte, libertar a própria Filosofia, apresentando assim uma ética material que arrebanhe todos os seres e que permita a todos o mesmo direito, o direito a vida e a liberdade.

“Aja de tal maneira que permitas que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a continuar a evoluir conosco”.(L.Boff)

E sabemos que não podemos evoluir se não mudarmos, eis a grande questão proposta à Filosofia.




Referências Bibliográficas
DUSSEL, E. D. – Para uma Ética da Libertação Latino-Americana, v. I, II, III, IV, e V, Loyola.  SP. Fórum – Teologia da Libertação / 2009.

 

Simone Nardi








Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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