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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu e a dor do Outro

Mãe e filhote de orangotango , foram espancados e amarrados, pois devido a invasão humana de seu habita, passam fome e entram nas plantações para obter comida.O ser (h)umano invasor os espanca para evitar o "prejuízo" nas plantações


A tecnologia nos proporciona coisas inimagináveis: o contato com pessoas distantes, a rapidez dessa comunicação, as notícias que nos chegam em tempo real, ou seja, a tecnologia deveria aproximar as pessoas, mas, será que é isso mesmo que ela tem feito?

Nós temos mais acesso as notícias, as imagens ,aos fatos do dia a dia, mas nós também temos acesso a um lado (h)umano que não conhecíamos e que deveria ser muito estudado.

A visão dele (h-umano) diante da dor do outro.

Nós nos abstraímos tanto da dor alheia que não conseguimos mais senti-la como algo a ser evitado, mas apenas como algo a ser visto,aceito e talvez se possível filmado, e que pode ou não, causar algum sentimento em algumas pessoas.

Nos revoltamos com cenas de espancamentos, com cenas de assalto. Nos recusamos a ver cenas de abatedouros ou de criações de animais em confinamento. Mas não fazemos absolutamente nada para mudar as coisas.

A dor do outro permanece em nós como sendo apenas " a dor do outro".

Enquanto o outro sofre nós filmamos para depois postarmos nas redes sociais para que "alguém" faça alguma coisa, para que alguém mais, além do meu Eu, saiba que tal fato existiu.

Cão abandonado
A dor do outro nos parece algo inevitável, a qual algumas vezes pode nos revoltar mas que, em pouco tempo, cai no esquecimento até que mais um sofrimento nos seja mostrado, e assim por diante, causando em nós uma inssenssibilizaçao atordoante que  nos inibe de qualquer ato para evitar que o Outro permaneça em sofrimento.

Para Levinas, filósofo, qualquer um de nós tem inteira responsabilidade pelo outro, sobretudo pelo seu sofrimento, pela sua dor . Para este autor, somente o fato do Outro me olhar, já me torna responsável por ele.O Outro para Levinas, é todo aquele que sofre e necessita de meu auxílio, em sua concepção, todos somos culpados por essa dor.

" [...] a culpabilidade não é um sentimento neurótico, mas a obsessão do sujeito que escuta com solicitude o apelo do outro." (Timm, et.Ética e dialogos)

Ouvir o "grito silencioso" da dor do outro é uma emergência ética.Se posicionar diante desse fato é abrir caminho para tornar-se realmente humano.

A manifestação do outro diante de mim é capaz de trazer com ela o sentido da dor que se exprime naquele ser a quem , eticamente, não posso me furtar em auxiliar. Ao vê-lo, ao tomar seu lugar (alteridade), ao auxiliá-lo, redimo em mim a humanidade esquecida, quase perdida . Abdico de meu solipcismo, de meu antropocentrismo em direção ao outro. Ao vê-lo, finalmente vejo a mim, não importa se ele é humano ou animal, vejo apenas aquele que sofre e que merece a minha humanidade.

Elefante acorrentado
Só assim me posiciono diante do mundo ao qual pertenço, só assim enxergo que também sou o Outro de algum outro Eu.




Simone Nardi







Fonte:

Éticas em Diálogo;Levinas e o pensamento contemporâneo; Ricardo Timm






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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Sem sonho não há empatia - a dor do outro



Filhote de orangotango


Tecnicamente falando, empatia é a capacidade de se colocar no lugar do outro e, em imaginando o que ele está sentindo em determinada situação, emocionar-se com tais sentimentos, de forma negativa ou positiva, graças a essa projeção de consciência. 


Podemos nos ver refletidos no bonitão da TV que pega um monte de gatinhas com um estalar de dedos, ou no intelectual talentoso, que comove multidões com a profundidade de suas obras. Podemos ainda, à guisa de exemplo, imaginarmo-nos na pele do bombeiro destemido que, com suas ações heroicas, salva vidas diariamente. Ou mesmo nos projetarmos naquele atacante habilidoso – embora eles estejam cada vez mais raros -, cujos dribles, gols e jogadas incríveis levam ao delírio os torcedores. No entanto, tais exercícios de imaginação não constituem, essencialmente, processos empáticos, na exata conotação do termo, não obstante os primeiros possam ser entendidos, de certa sorte, como fenômenos psicológicos semelhantes aos segundos, haja vista terem em comum a exigibilidade da faculdade imaginativa para se processarem.

Quando sonhamos ser o galã da TV ou o craque famoso, descansando folgadamente na paradisíaca Ilha de Caras, cercados de mimos e mordomias por todos os lados, estamos, obviamente, fazendo um exercício de imaginação que pode satisfazer ou frustrar nosso ego de maneira momentânea mais ou menos demorada, dependendo do ângulo pelo qual o processo seja interpretado por nossa psique. (Que atire a primeira pedra quem nunca sonhou ser o Brad Pitt ou o Bono, do U2.) Contudo, tais projeções, tanto num quanto noutro caso, representam a exteriorização pura e simples de nosso egoísmo, tendo em vista que, por meio delas, transportamo-nos para o lugar do outro apenas visando à satisfação de desejos particulares, que não implicam necessariamente o bem coletivo ou de outro indivíduo, além de nós mesmos. Daí sua diferenciação da empatia. 

A empatia é o componente psíquico de nossa personalidade que abala nossa zona de conforto e nos faz sentirmos a dor do próximo, imaginando-a em nós mesmos. A princípio, pode não parecer, mas a maioria esmagadora dos seres humanos a possui, latente, dentro de si. Exceção feita aos psicopatas, que são incapazes de sentir emoções desse tipo, apesar de conseguirem enxergá-las nos outros e simulá-las maquiavelicamente em seu dia a dia, segundo seus interesses mesquinhos, no teatro existencial. 

Tais propriedades singulares metamorfoseiam a empatia num elemento de suma importância para a higidez dos relacionamentos humanos, por constituir ela o móvel primário das ações mais nobilitantes realizadas pelos indivíduos dentro do organismo social. A solidariedade, a caridade e o amor ao próximo se tornariam mera letra morta no livro da vida não fosse esse dom sublime das criaturas de se enxergarem umas nas outras, absorvendo a aflição alheia como se fosse a sua. 

AMPLIAÇÃO DE HORIZONTES

Animal aprisionado
O curioso é que esse “transporte consciencial”, tão salutar, não deveria se verificar apenas entre os chamados seres hominais, mas, sim, abarcar igualmente os membros das demais espécies que habitam o planeta, tendo em vista que a única diferenciação entre os primeiros e as segundas é o grau evolutivo em que se encontram. De fato, como a própria ciência vem comprovando a cada dia, os animais têm emoções bastante similares às dos humanos e um nível de inteligência que se sobrepõe, em muito, ao mero instinto – este, por si só, aliás, já uma expressão intelectiva, em última instância. 

Via de consequência, faz-se imperativo que deixemos de enxergá-los como meros objetos, sujeitos a nosso bel-prazer, inclusive aos caprichos de nossa gula, e passemos a vê-los como nossos irmãos menores, necessitados de proteção e amparo. Precisamos ampliar nossa capacidade empática, a fim de que ela passe a englobar, mais do que o universo restrito dos homens, os infinitos reinos da natureza, em suas expressões multifárias. Faz-se necessário que passemos a vislumbrar em cada criatura que nos cerca um indivíduo detentor dos mesmos direitos à vida, ao respeito e à dignidade que nós. Somente quando isso acontecer estaremos realmente exercitando, em sua plenitude, nossa empatia.

É óbvio que, como há diferentes níveis de consciência e entendimento, essa dilatação conceitual ocorrerá aos poucos, conforme a capacidade assimilativa de cada um. O que não se pode fazer é deixar de buscar essa mudança íntima, mesmo que no nível mais mínimo, dia a dia. 

 

ELEMENTO INDISPENSÁVEL

 

Agora, se você teve a paciência de chegar até aqui, recoste-se na sua cadeira, ajeite seu notebook e resista mais um pouco, porque já está no finalzinho e eu vou lhe revelar um segredo que, no fim das contas, não é tão secreto assim: pessoas sem imaginação dificilmente desenvolvem a empatia. Pode acreditar: a capacidade imaginativa é um pressuposto básico para a ocorrência do fenômeno empático. Afinal, se você não consegue se imaginar no lugar do outro, consequentemente, não conseguirá sentir compaixão pelo seu sofrimento, já que as sinapses de seu cérebro não serão ativadas convenientemente, devido à ausência do tipo de estímulo adequado. 

Homem dando água a um coala, após incendio
Pode até parecer esquisito, mas, para sentir a dor do próximo é preciso romper os grilhões que nos ajudam ao nosso próprio interior. É preciso fugir de nós mesmos e procurarmos o outro, porque somente escapando de nossas próprias celas mentais arrancaremos dos tornozelos as incômodas correntes de egoísmo que nos atam à frieza e à insensibilidade perante as mazelas alheias. Mas, para isso, é condição sine qua non sonhar. Quem não sonha não sai de si mesmo. É estático, inerme, estéril. Paradoxalmente, apenas com o poder da imaginação é possível tornar tangível, palpável o quase sempre distante, abstrato e incompreensível sofrimento do próximo, seja ele homem ou animal. Sem sonho não há empatia.

Jones Mendonça , colaborador do Blog 

 

 

 

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quarta-feira, 21 de maio de 2014

A dor do outro

Primata atrás das grades


“O ser humano vivencia a si mesmo, seus pensamentos, como algo separado do resto do universo - numa espécie de ilusão de ótica de sua consciência. E essa ilusão é uma espécie de prisão que nos restringe a nossos desejos pessoais, conceitos e ao afeto por pessoas mais próximas. Nossa principal tarefa é a de nos livrarmos dessa prisão, ampliando o nosso círculo de compaixão, para que ele abranja todos os seres vivos e toda a natureza em sua beleza. Ninguém conseguirá alcançar completamente esse objetivo, mas lutar pela sua realização já é por si só parte de nossa liberação e o alicerce de nossa segurança interior”.


Albert Einstein







Esse  pensamento fez-me lembrar de um dos ensinamentos de Jesus: “Amai ao próximo como a si mesmo”. Mas o Mestre não especificou se o próximo era o seu irmão de sangue, sua mãe, ou seu pai. Não especificou se o próximo seria mesmo aqueles que estão próximos ou que são iguais a você. Em meu entendimento, o próximo é muito mais. É como Gandhi disse: “o próximo é tudo o que vive”. E quando pensamos assim, estamos aumentando gigantescamente o nosso círculo de compaixão. Deixamos de amar apenas os nossos familiares e amigos e passamos a amar tudo o que vive. 



Entre tantos seres viventes, estão os animais. Sim, eles também são o nosso “próximo”. Estão presentes em nossa vida não para que façamos deles meros objetos. Eles têm sentimentos, alma, sofrem, necessitam do nosso auxílio para seguirem rumo à evolução. O que ocorre é que nós “humanos”, em nossa prepotência e soberba, julgamo-nos superiores, feitos à imagem e semelhança de Deus. Diante desse grandioso orgulho, sentimo-nos no direito de usurpar as vidas inocentes que estão em nosso planeta tão-somente para evoluírem, assim como nós mesmos, seres imperfeitos que somos. Desde os primórdios, estamos destruindo sem piedade tudo o que nos cerca, numa frieza implacável. 

Contudo, aos poucos, algumas mentes adormecidas foram despertando e pouco a pouco expandindo em si mesmas o sentido de amar ao próximo.  Alguns já conseguem se colocar no lugar do outro, sentir um pouco a dor alheia. Mas não é fácil. Temos a tendência de amar os nossos familiares, alguns poucos amigos e, se amarmos além, como, por exemplo, a um animal, amamos apenas aquele que é “nosso”, o cachorrinho de estimação da família. Não conseguimos enxergar no cão de rua o nosso próximo, aquele que necessita da nossa compaixão profunda. Não conseguimos nos colocar no lugar dos nossos irmãos que todos os dias são abatidos friamente, apenas para se transformarem em pedaços de carne. E por que fechamos os nossos olhos? Porque ainda não sabemos amar. Amamos de maneira egoísta, um amor que aprisiona, sufoca e mata. Amamos como se nosso coração não suportasse amar mais. Dedicamos o nosso carinho e respeito apenas àqueles que estão literalmente próximos. Enquanto permanecermos assim, o mundo será de provas e expiações, porque é inimaginável um planeta de regeneração onde o significado da palavra amor ainda é tão mesquinho.

Filhote abandonado, parece invisível para os seres (h)umanos que passam por ele.

Precisamos abrir nossos olhos, os da alma, para enxergarmos o que ainda é invisível para a maioria e, quando estivermos com os olhos abertos, precisamos ajudar a abrir os olhos dos que nos cercam para que vejam que o próximo pode estar em qualquer lugar que nosso pensamento possa alcançar. Notaremos em toda a parte mãos precisando das nossas para serem conduzidas. Fitaremos pessoas com os corações necessitados de um pouco de ânimo para seguir em frente. Sentiremos as plantas necessitando de nossa proteção e cuidados. Ouviremos os animais pedindo para viver, para terem a oportunidade sagrada da vida, que lhes tiramos simplesmente pelo fato de não os considerarmos como nosso próximo. Que cada um de nós abra os olhos, o coração. Que possamos expandir nosso círculo de compaixão, estendendo nosso amor para tudo o que vive. Somente assim seremos capazes de exercitar, em sua plenitude, nossa condição de seres humanos. 




Fernanda Almada   



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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Filosofia antropocêntrica ou Filosofia pela Vida?

A própria filosofia que prega contra a opressão, dentro de seu antropocentrismo cego e tradicionalista, gera opressões ainda mais cruéis. Filósofos que pregam para que “se libertem os excluídos”, excluem o direito de viver de todos aqueles a quem, em teoria, defendem, pois a teia da vida é muito mais longa do que ele pode supor. Toda vez que se sentam para fazer um simples ritual como o de comer, iniciam um mecanismo de opressão que desfaz, literalmente, tudo aquilo pelo qual trabalharam e teorizaram. Esse antropocentrismo não os deixa visualizar que são eles também, os principais pilares que sustentam a opressão, quando se propõe a excluir uma classe que lhes é singular, em favor daquela que lhes é totalmente aprazível.

O Filósofo diz lutar contra uma opressão quando é aquele que, com suas palavras, argumentações e teorias, o que mais pode oprimir ao excluir “outros” de suas ideias, conseguindo abster-se da culpa somente porque, fechado em si mesmo, não consegue enxergar o que faz, infelizmente existem muitos filósofos ainda presos a Caverna platônica.

Para libertar a vítima, é necessário que primeiro o Filósofo se liberte, pois ele é, em si, vitima de sua própria opressão.

A Filosofia atual é uma causa da opressão porque se recusa a enxergar além de si mesma e de seu antropocentrismo, porque não consegue enxergar além dos seres humanos, porque idolatra antigos filósofos antropocêntricos e vaidosos e transmite essa mesma missão aos futuros professores de Filosofia, numa cadeia sem fim que oprime a própria Filosofia. Nós combatemos os professores de ciência que dessensibilizam seus alunos durante uma aula de vivissecção, combatemos os doutos em medicina porque fazem com que os futuros doutores matem animais alegando que isso, é em defesa da vida, e ignoramos que essa batalha acontece dentro de um curso que deveria privilegiar o “Pensamento” – Hegel se refere a liberdade de “pensar um pensamento”, no entanto continuamos, ano após ano, pensando o que outros seres humanos pensaram -. Aprendemos filosofia, porém muitos não aprendem a filosofar, a realmente, se libertar. A Filosofia que deveria se essa “Mãe que Liberta”,exclui e oprime os seres que lhe são singulares e, nesse círculo fechado em que vivemos, sabemos que qualquer ato contra o “Outro”1 se volta contra o interlocutor. E como podemos encarar esse “Outro”? Enrique Dussel coloca que o “Ser” precisa deixar de ser metafísico, fechado em si mesmo, que é preciso se relacionar com outros seres, trocar experiências, sua Filosofia de Libertação passa a ser refletida no “Outro” e a Ética se materializa na figura do ser ‘Oprimido”, da vítima, com isso existindo uma razão crítica libertadora. A questão é: Quem é esse “Outro”? Para a filosofia antropocêntrica esse “Outro” seria legitimamente os seres humanos, porém não são apenas eles os oprimidos da dor, há um outro “Outro”, muito mais oprimido e marginalizado:o animal não humano.

Toda Filosofia busca uma ética para melhorar o mundo; todas as filosofias falharam em determinadas épocas, em levar os homens a esse melhor, todas, senão a esmagadora maioria era antropocêntrica.

Dussel nos mostra uma filosofia que transporta o ser ontológico para o ser material, o Ser, esse Outro, através da concepção de alteridade2 faz com que eu também exista através do outro, da visão do outro, de forma que eu possa compreender o Mundo a partir da compreensão desse “Outro”. Esse “Outro” não pode mais ser deixado de lado, ser encoberto ou esquecido, não pode mais ser dominado, excluído ou subjugado por aqueles que se acham os “senhores” superiores. Ao trazer essa materialidade para o Ser, descobre-se então a vítima, o principal motivo da Ética dusseliana, pois a vítima se enquadra em qualquer povo, em qualquer continente, em qualquer ethos humano, e vamos adiante em nosso pensamento, essa vítima se enquadra no todo pertencente a Vida, animais humanos, animais não humanos e até mesmo nas plantas.

Mas a Filosofia ainda sim está repartida entre animais humanos e não humanos, porém uma leitura rápida e livre de qualquer antropocentrismo pode nos mostrar uma nova visão, que muitos filósofos ainda não perceberam:

” O oprimido, o torturado, o que vê ser destruída sua carne sofredora, todos eles simplesmente gritam clamando por justiça:
__ Tenho fome! Não me mates!Tem compaixão de mim!- é o que exclamam esses infelizes.
[...] Ele simplesmente grita. O grito -enquanto ruído, rugido, clamor, protopalavra ainda não articulada, interpretada de acordo com o seu sentido apenas por quem tem “ouvidos de ouvir”- indica simplesmente que alguém(um ser- grifo meu) está sofrendo e que do íntimo de sua dor nos lança um grito, um pranto, uma súplica.É a interpelação primitiva”3

Essa, a máxima da Filosofia da Libertação: A escuta do grito do oprimido.

Livres do antropocentrismo filosófico que cega a muitos, de quem seria, também, esse grito?

” O oprimido, o torturado, o que vê ser destruída sua carne sofredora, todos eles simplesmente gritam clamando por justiça:

O animal oprimido e torturado, o que vê ser destruída sua carne sofredora, todos eles simplesmente clamam, a seu modo, por justiça e por liberdade, pois seu desejo inerente é o de permanecer vivo, sem sofrer qualquer abuso, dor, exploração. No antropocentrismo o que ocorre é simplesmente a opressão do oprimido com outra vítima humana.

“Ele simplesmente grita.O grito – enquanto ruído, rugido, clamor, protopalavra ainda não articulada, interpretada de acordo com o seu sentido apenas por quem tem “ouvidos de ouvir”

É nós temos ouvidos de ouvir e olhos de ver, os animais demonstram claramente quando estão com medo, fogem, se debatem e gritam em desespero, como não enquadrar esses indivíduos no rol de vítimas oprimidas?

“indica simplesmente que alguém (um ser- grifo meu) está sofrendo e que do íntimo de sua dor nos lança um grito, um pranto, uma súplica. É a interpelação primitiva”

O pedido de socorro desses indivíduos que são marginalizados pela vaidade filosófica de fazer valer apenas a palavra humana, de achar que somos melhores, que somos o inicio, o meio, o fim, quando somos apenas vítimas de nós mesmos. Talvez o maior erro filosófico até hoje seja seu antropocentrismo exarcebado, sua visão de que apenas o indivíduo humano mereça os cuidados da ética e da moralidade, e vemos até hoje que a Filosofia se debate na questão ética, sem achar solução para os conflitos que se avolumam pelo Mundo, sejam as guerras ou a opressão dos indivíduos.

O certo é que, nenhuma ética vencerá esses impasses enquanto não levar em consideração a vida, como medida de todas as coisas, não importando a forma que ela tome diante de nossos olhos.

O certo hoje é que o Filosofo não vê que suas palavras, cheias de argumentos e razões libertárias esbarram no preconceito antropocêntrico delas mesmas ao afirmar que, libertando uma vítima humana, que também oprimi muitas das vezes, essa opressão irá cessar, como se não estivéssemos ligados a mais nada, a não ser a outros seres humanos. Somos fios de uma só teia e se um dos fios se parte, toda a teia corre o risco de desaparecer.

Enquanto não conseguirmos enxergar com clareza quem são realmente os “Outros” aos quais nos referimos nas teorias filosóficas, a quem devemos estender nossa alteridade, e quem são realmente as “vítimas”, todos seremos opressores e todos seremos oprimidos.Não é mais possível separar classes para lutar pela vida, pois a Natureza é única e é ela quem dita as regras, não os Filósofos. Se antes o homem era o “tudo”, hoje não precisamos filosofar para saber que a Vida é o principio primordial, a essência universal do que somos e do que seremos.

É impossível conceber que a morte solitária de um boi no abatedouro, o bife no prato do filósofo e a fome dos excluídos não tenha qualquer relação entre si. Mas ao defender algumas vítimas, pois o filosofo antropocêntrico não defende todas e sim somente as que elege, ele cria erroneamente essa separação, como se nossas vidas não estivessem ligadas a nada a não ser a outras vidas humanas, e é perfeitamente sabido que na teia da vida a humanidade é apenas mais um fio que forma o todo, que é formado por outros fios que não devem ser desconsiderados, criando a possibilidade da teia se enfraquecer ou pior, destruir-se com a mais leve brisa.Na teia da vida, cada fio tem sua função total e igualitária.

É preciso uma nova filosofia de Libertação Ética, mas de libertação da vida igual e totalitária, pois o oprimido que o filósofo defende também é opressor, e sendo assim, cria-se um circulo de opressão imperceptível a olhos totalmente antropocêntricos que, se não mudado, jamais terá um fim, e continuaremos incessantemente buscando por uma ética que impeça holocaustos, que impeça a fome, que impeça a dor e os tormentos, enquanto de olhos fechados, sentamo-nos sobre uma pilha de corpos mutilados, torturados e famintos que provocamos todos os dias porque não conseguimos enxergar nos animais, seres que merecem nossa consideração na teia da vida.

Como não ser oprimido se eu igualmente oprimo usando da força e de um direito que me outorguei tal qual aquele que me oprime? Nota-se aqui que o pensamento do opressor é sempre o mesmo, seja a vítima quem for e que forma tiver. O filósofo defende a vítima, mas dá força ao opressor para que continue agindo.

É mais do que necessário uma Filosofia de Libertação Animal, nós como animais necessitamos nos libertar desse antropocentrismo tradicionalista e destruidor, que acoberta os olhos dos filósofos e os leva ao precipício da vida que eles dizem defender. Quando se defende a vida, não se pode escolher ou eleger privilégios. A causa de todos os problemas da modernidade estão ancorados exatamente nesse pensamento antropocêntrico que insiste em permanecer. O homem não pode ser a medida de todas as coisas, isso é eleger privilégios, a Vida em si, deve ser a medida de todas as coisas, pois ela é reguladora, é meio termo, é imparcial, está em tudo e permeia tudo, ela é o motivo da liberdade e o fim da opressão. Enquanto a Vida não for tida como elemento primordial, não haverá qualquer ética capaz de moralizar o caráter humano.

Não são apenas os oprimidos humanos que clamam por justiça, mas se tirarmos de todos os seres, as formas4, veremos a todos apenas como Vida, e todas as vidas clamam por justiça, somente filósofos que ainda não pensam livremente é que possuem ouvidos surdos e olhos cegos para não compreender que a base do Mundo é a vida e não os seres humanos, esse não lutam pelo fim da “Dor”5. A importância de cada ser está na sua existência, em sua participação na teia da Vida, é preciso ao filósofo, libertador e ético, que reconheça que até então, apesar de tudo o que aprendeu e buscou, ainda se encontra preso ao poder da sociedade que o rege, vendo o que ela o obriga a ver, falando o que ela o obriga a dizer e nada mais.

Se fôssemos tão importantes como nos imaginamos, não estaríamos atravessando tantos problemas de ordem climática como estamos. Se chegamos a esse ponto do caos ecológico de um sistema que era perfeito, de uma teia que era perfeita, é porque nossa filosofia preocupou-se apenas com a vida de determinados indivíduos renegando outros a marginalidade. Somos os causadores desse desequilíbrio e somos responsáveis pela opressão e pelos oprimidos. Quando a teia se desfizer, levará com ela aqueles que ignoramos, tanto quanto aqueles que idolatramos e elegemos como nosso objeto de defesa, porque não conseguimos aceitar que a teia da vida era feita de cada ser composto de matéria e forma, de cada ação que a tornava mais firme. A decisão agora é simplesmente: aprender filosofia ou aprender a filosofar, e filosofar é amar, é desprender-se dos preconceitos arraigados no ser, somente assim poder-se-á criar uma ética capaz de evitar a opressão, de evitar as mortes e as injustiças, libertando-se a vítima, elimina-se para sempre o opressor, essa sim, a Filosofia da Vida.





Referências Bibliográficas

PANSARELLI, Prof. Mestre Daniel – Algumas questões filosóficas contemporâneas – Dussel , a Filosofia da Libertação e o Eurocentrismo- Palestra proferida em 11/10/2008 .
DUSSEL, Enrique – Filosofia da Libertação e Ética da Libertação
ARISTÓTELES – Os Pensadores- Abril Cultural






Notas
1 Na descoberta do “outro”, o ser filosófico, até então metafísico, deixa essa ontologia para se tornar material, passa a existir, a ter um rosto, ou seja se completa em si e em nós mesmos.
2 Quando passamos a compreender o outro ser, nos colocando no lugar dele, nos completando através dele, quando a sua visão, passa a ser a nossa, como se enxergássemos pelos olhos dele.
3 Livro- A filosofia dusseliana da libertação e sua ética.
4 Aristóteles dizia que dentre tudo o que éramos, em essência, em substância, éramos todos matéria e forma. Vamos filosofar, pois nos é permitido pensar livremente. Somos todos seres integrantes do Planeta, alguns moldados na Forma Humana outros na Forma Animal e somos todos matéria, ossos, sangue, pele, órgãos.E como dizia grande filósofo, só se pode separar forma e matéria no pensamento, então, se tirássemos a Forma de todos os seres e deixássemos somente a Matéria, coração, sangue, pele, veremos que a forma é algo irrelevante para separar quem deve viver e quem deve morrer.
5 Toda injustiça causa dor, independente do ser que venha a atingir.










Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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