Em qualquer época e em qualquer lugar, quando o homem tenha perdido os seus
pêlos, é provável que habitasse então um país quente, condições favoráveis para
um regime Vegetariano que, segundo as Leis da Anatomia, devia ser o seu.
Charles Darwin
Atualmente, graças ao movimento de proteção animal e ao surgimento de Casas
Espíritas que recebem animais, o tema “Alimentação” vem aguçando a curiosidade
de muitas pessoas que, ao passarem a aceitar que os animais possuem senciência
e uma alma semelhante a dos seres humanos, começaram a rever suas atitudes em
relação a estes irmãos. Uma delas é a reeducação alimentar através da opção
vegetariana. Embora muitas ideias a favor da alimentação a base de animais
tenha, durante alguns anos, se alicerçado em algumas questões do Livro dos
Espíritos , publicado em 18 de Abril de 1857, hoje, através do estudo mais
refinado dessas mesmas questões, é possível notar que foi um erro
interpretativo que fez com muitos acreditassem que Kardec e os Espíritos fossem
a favor a morte de outros irmãos que estagiam conosco no orbe terrestre.
Seria impossível em poucas páginas realizarmos todo um estudo sobre o conteúdo
do Livro dos Espíritos no que toque a alimentação de carne animal, por isso e
com intuito de aguçar a curiosidade do querido leitor, escolhemos uma única
questão que é capaz, também, de dar conta de toda a confusão que muitos fizeram
em torno desta e de outras questões. Mas o que poderia ter causado tal
confusão? Talvez o fato de não sabermos, em relação aos animais, o que sabemos
hoje, a certeza de que possuem alma , de que são seres sencientes e de que
possuem, cada um dentro de suas necessidades, um grau de inteligência.
Foram todas essas mudanças dentro do campo físico terrestre, nosso e dos
animais, que fizeram com que hoje tenhamos a obrigação moral de ressignificar
nossos antigos conhecimentos, olhando com ingenuidade para essas mesmas
questões, a fim de poder enxergar tudo com um novo olhar. As questões 722, 723
e 724 são algumas das muitas questões que também tratam da alimentação a base
da carne de nossos irmãos animais, mas que deixaremos para estudar numa outra
oportunidade.
Em meados do século 19, época em que o Livro dos Espíritos foi publicado, bem
pouco se conhecia sobre os animais. A Revista Espírita de Janeiro de 1866 ainda
precisava reafirmar a realidade da alma das mulheres coisa que hoje em dia ,
somente a menção de que as mulheres , os índios e os negros não possuam alma,
passa a ser ridícula. O conhecimento evoluiu desde então.
A questão 722 do Livro dos Espíritos trata - se nos atentarmos melhor a
pergunta elaborada por Kardec - dos valores culturais de cada povo e da
proibição de determinados alimentos , não necessariamente fala sobre a carne.
Em muitas religiões consideravam-se duas categorias de animais : os limpos e os
imundos. Os limpos seriam todos os animais que possuíssem unhas fendidas e
ruminassem como os bois, cordeiros, carneiros entre outros. Os animais
considerados imundos seriam todos os que possuíssem apenas as unhas fendidas ou
apenas os que ruminassem tais como o porco, que possui a unha fendida, porém não
é ruminante. Era proibido, portanto, alimentar-se da carne dos animais
considerados imundos.
O que nos esquecemos é que também nós,nos dias atuais,temos nossos tabus
culturais. Nos é proibido moralmente a alimentação a base de carne de cães e
gatos, porém não a base de carne de bois e frangos, isso implica em um tabu
cultural nosso, enquanto que por outro lado nos revoltamos ao saber que alguns
povos orientais comem cães e gatos sem o menor constrangimento. Daí surge a
questão 722 e é necessário estar atento ao enunciado para que se possa,
realmente, compreender a resposta.
722. Será racional a abstenção de certos alimentos, prescrita a diversos povos?
R. “Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde.
Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer o uso de
certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis,
apresentaram-nas como emanadas de Deus.”
Vamos rever esse trecho em particular: “Alguns legisladores, porém, com um fim
útil, entenderam de interdizer o uso de certos alimentos e, para maior
autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus”. O
Espírito que responde a questão coloca que alguns “Legisladores” criaram leis
próprias a atribuindo posteriormente a Deus, por isso, e somente por atribuir
ao homem a criação de uma “verdade”, é que o Espírito coloca que é “Permitido
ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde”. O que não
significa, como geralmente é interpretado, que Deus tenha fornecido aos seres
humanos uma autorização para matar seus outros filhos, os animais, em nome da
manutenção de seus organismos, tal como não autorizou aos homens e mulheres a
se matarem como ocorre desde a antiguidade.
Seja como for, a questão 722 foi perfeitamente respondida a partir do momento
em que seu enunciado foi perfeitamente compreendido, afinal até bem pouco tempo
muitos acreditavam que comer manga e tomar leite levava a morte. O tomate mesmo
era tido como fruto venenoso e cultivado apenas como ornamento, até o Coronel
Robert Gibbon Johnson subir nas escadarias do Tribunal de Salem, New Jersey em
26 de setembro de 1820 e comer uma cesta repleta de tomates, mais de 2000 mil
pessoas assistiam o que acreditavam ser total suicídio. Johnson não morreu e
encerrou ali um tabu alimentar.
O que ocorre é que, normalmente, o trecho onde se lê que tudo é permitido
remete a alguns, a ideia de que Deus criou os animais para os seres humanos se
alimentarem, como se nossos irmãos menores fossem meros objetos utilizados a
cada toque de nossos desejos. Mas, seria correto? Para responder a essa questão
seria preciso repetir aqui o Paradoxo de Epicuro para nos lembrarmos o que é
Deus:
Ou Deus quer eliminar o mal e não pode; ou pode e não quer; ou não pode nem
quer; ou quer e pode. Se quer e não pode, é impotente, o que não corresponde a
Deus; se pode e não quer, é mau, o que é estranho a Deus. Se não pode nem quer,
é ao mesmo tempo impotente e mau, logo não é Deus. Se quer e pode, o que
corresponde somente a Deus, de onde então vem o mal ou por que Deus não o
suprime? (Epicuro)
Livre Arbítrio, esta seria a resposta para a questão de Epícuro. Podemos acusar
a Deus, mas, se Deus é bom, inteligência suprema e força primária de todas as
coisas, podemos pensar: Que tipo de Deus permitiria este massacre diário que se
torna ainda mais voraz no Natal, nascimento de Jesus?
Segundo a resposta do Espírito , quando os legisladores proibiram determinados
alimentos alegando ordens divinas, o fizeram em beneficio próprio, contudo,
hoje muitos de nós fazemos o mesmo ao atribuir ao Livro dos Espíritos a
permissão para o extermínio de animais . Tais como os antigos legisladores hoje
nós nos escondemos atrás de “leis divinas” para permitir que os animais sejam
abatidos, tudo em benefício próprio. Por isso a necessidade de rever esses
antigos conceitos que durante anos acabaram por sedimentar hábitos que se
apropriam de vidas alheias com total naturalidade. Muitas podem ter sido as
razões que levaram a proibição da alimentação, teníase, intoxicações, alergias
e uma infinidade de outras doenças, porém, em nenhum momento recebemos a
habilitação Divina para matarmos outros animais, façam eles bem ou mal a nossa
saúde.
Referências
Allan Kardec – Livro dos Espíritos e Revista Espírita -Jornal de
Estudos Psicológicos -ANO IX JANEIRO de 1866 Nº1
Tomatoes Lore and Legend
http://homecooking.about.com/od/foodlore/a/tomatolore.htm
The Problem of Evil(Paradoxo de Epícuro)
http://plato.stanford.edu/entries/evil/
Simone Nardi
Redação do blog Irmão Animais- Consciência Humana
Este artigo pode ser lido no site da
Feal.
Imagem de Maria, Mãe de Jesus e de todos nós : SirioArt
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