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sábado, 24 de dezembro de 2016

A história: Milagre de Natal (Conto)


Platão, Einstein e Bach, convidados que não podem faltar em qualquer que seja o Natal.

E todos os anos eles são os mais ilustres personagens, todos adoram quando eles estão a mesa, preparam o mais delicioso prato para servi-los com acompanhamento de primeira. Após o agradecimento de mãos dadas é hora de dar aos convidados especiais e ilustres que tanto amam, a sua mais digna faticidade! Todos a postos com um prato na mão e um copo de vinho na outra, empunhando garfos e facas afiadas. Faz-se fila porque todos querem ser os primeiros a contemplar o cheiro delicioso saindo dos convidados, que embriaga como perfume anestésico! E na hora que se mira com a faca espelhada os olhos de Platão já a mesa, este pula de forma assustadora e estarrecedora diante os olhos dos que esperavam sorver de suas entranhas,o mais puro deleite perversivo.

Com a agilidade de um tender, Platão literalmente voa e acaba caindo em cima de Einstein, que dá um grito de alegria quando a maçã que lhe tapava a boca sai de sopetão. Os dois ilustres convidados, agora parecem ser a festa!. Se juntam e cada um com um artefato de cozinha nas mãos, ficam de costas juntas e se protegem das pessoas que agora, fazem de escudo o prato e rezam novamente, mas não agradecendo e sim pedindo misericórdia ao Senhor por um fato no mínimo anormal.

Com passos sincronizados, partem de lado para a cozinha e procuram uma saída, não mais queriam fazer parte daquela festa e entraram na primeira porta que acharam.

A porta do forno não era bem o que pretendiam achar, mas foi ali que acabaram indo, no lugar escuro e quente; as pessoas paradas na porta não acreditavam no que viram e um espertalhão aproveitou o momento e amarrou a porta do forno com um guardanapo enxuga pratos!

Agora estavam perdidos mesmo, o espertalhão ascendeu o fogo e a temperatura alta, já começava a queimar os pés dos dois destemidos, dentro daquele lugar Platão faz uma pergunta  à Einstein, e este, antes mesmo de responder, escuta um grito alto em meio a tênue luz azul e amarela; é um chester que aguardava a hora do almoço do dia seguinte, já devidamente temperado para ser servido.

Com a ajuda dos dois, agora companheiros de forno, espantado e aflito, o chester se contorcia para se livrar do fundo da tigela que estivera metido, não foi fácil fazê-lo ficar de pé, pois o demasiado azeite que havia não facilitava as coisas. Tirá-lo de lá foi o melhor a fazer, Bach fazia movimentos com os braços que Platão não entendia, mas Einstein sim, e este traduzia a Platão, que desesperado ao saber da embolada que se meteram começou a chorar! 

Bach já estando ali dentro a mais de duas horas, teve tempo mais do que suficiente para avaliar todos os cantos do pequeno local. Mas disso não passava, Einstein de diferente maneira começou a bolar um plano de fuga, pois a cada segundo a temperatura subia e já estavam sentindo o cheiro de pena começando a queimar.


A lâmpada de dentro do forno foi acesa, por um curioso mas assustado e vestido de papai Noel ,chefe da família e dono da casa; com seus pequenos óculos sem lentes, firmou a vista e viu os três em formação de time antes de entrar em campo; bolavam um plano estrambólico de fugir pela saída de gás, ideia de Platão que Einstein recusou de princípio, mas foi aceitando aos poucos.... 

Ao verem o homem vestido de papai Noel, Bach que já havia ficado ali dentro por horas, deu um grito ao revê-lo e voou de encontro ao vidro; ele havia pedido incessantemente que naquele Natal papai Noel lhe salva-se a vida e ao vê-lo ficou tão feliz que surtou de vez; a porta do forno abruptamente foi arrebentada e Bach caiu em cima do já desmaiado chefe de família, o resto das pessoas, atônitas com toda a situação, fugiram as pressas prensando seus corpos ante a estreita parede de acesso à sala de jantar.


Era estranho e aterrorizador à todos, ver a comida da ceia de Natal fugir da mesa, ressuscitada, andando por toda a casa,correndo entre as pessoas , tal obra só poderia ser coisa do capeta, que o mal havia se instalado naquela casa ou talvez algum caboclo estava enterrado debaixo da mesa....na cozinha, quem poderia dizer. Bach , agora emocionado,beija Noel agradecendo-o pelo milagre, Platão e Einstein se vêem livres do inferno em que haviam se metido, saem de lá feito ratos na toca, perscrutam todo o ambiente e num rápido salto, Platão já no lombo de Einstein puxa o chester pelas penas do rabo e os três seguem rumo a janela. Einstein queria voar e o porquinho corre cada vez mais e mais.....rumo a liberdade, junto de Platão e Bach, seus novos amigos.

Só não contavam que estivessem no 5º andar, onde somente o tender e o chester conseguiriam voar, se estivessem com penas claro!! Ao saltar, ou cair, os três se abraçam pelo medo da queda, Platão berra, Einstein só geme e Bach chora "amuído"......

 Platão e Bach, tentando bater as asas e Einstein tentando se agarrar neles, acaba mordendo um pedaço de linha que sai dentre os dois, mas que linha afinal, já que nem penas possuem??


E por falar em penas, uma surge após a linha ter esticado, e mais outra pena e depois mais outra.........parece que como mágica as penas de Bach estão voltando ao seu normal e ele começa a voar aos poucos já com as duas asas totalmente refeitas, ouve-se um murmurinho de Platão em plena queda, e Einstein ao esticar as orelhas o ouve  dizendo baixinho.

- Meu senhor, faça com que minhas penas também voltem a nascer! 

 Einstein tenta se agarrar as pernas de Bach, mas acaba escorregando junto com a antiga pele queimada que cobria seu corpo sob a mesa de jantar. - Pele queimada antiga?? ....Espera aí!!  diz Einstein com o rosto de felicidade. 


 Venha mais perto de mim Platão, deixe me agarrar em você; este por sua vez, com muito esforço se aproxima de Einstein que agarra a pele do tender e desesperadamente a puxa, puxa e puxa........as penas de Platão voltam a aparecer, um pouco chamuscadas é claro, mas ainda inteiras o suficiente para escapar da queda.


Einstein agora aos prantos ao ver o chão se aproximar olha pra cima e vê Bach em um mergulho em direção a eles; Platão não consegue voar com Einstein preso as suas pernas e os dois seguem caindo até que Bach se aproxima e pelo rabo de Einstein o segura.

A queda é amenizada e eles tocam o chão suavemente, após muito esforço de Platão e Bach!!

Exaustos, porém alegres, os três descansam e olham para o alto, a família que perdera os convidados se espreme na janela, alguns irritadíssimos e outros ainda muito espantados pelo acontecido. Havia uma pessoa da família que durante todo o tempo, ficou em seu cantinho assistindo a tudo de longe e com os dedos em "figuinha". Era Teobaldinho, o filho mais novo que durante o ano viu os animais sendo colocados a mesa, cortados e mastigados, ingeridos com ervas finas e preparados das mais diversas formas possíveis. 

 Quando o final do ano vinha chegando, Teobaldinho começou a escrever cartinhas e pedir ao Papai do Céu e Noel....que este ano, os animais pudessem  ser convidados à mesa e não servidos à mesa. A mamãe de Teobaldo ficava incumbida de colocar as cartinhas no correio, mas lia antes e depois da terceira começou a comover-se e decidiu preparar uma surpresa a Teobaldo e aos convidados humanos e não-humanos.


E assim foi feito. Vestiu os animais com pele queimada e um pouco de sonífero, para que só acordassem na hora "h"....ninguém jamais desconfiara.

Os animais fugitivos, começaram a procurar um lugar para os três, acharam uma chácara após 12 dias de procura.

Uma senhora muito simpática e seu marido os acolheram e cuidaram de Platão, Einstein e Bach, nomes estes dados por sua única filha, que sempre amou os animais e protegeu-os até que papai do Céu um dia os levasse em paz.



Anderson Pacheco, amigo, louco por animais, veg e de vez em quando..... escritor de contos.




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segunda-feira, 14 de abril de 2014

Dualismo Platônico x Dualismo Espirita

    Teoria das Ideias


Cavalo ideal somente no mundo das ideias
 
Platão talvez tenha sido o primeiro cristão antes mesmo do cristianismo surgir na Terra, obra essa de Agostinho que resgatou muitos dos escritos de Platão como se fossem, seus pensamentos, uma obra cristã.

Mas deixando esses detalhes de lado, vamos falar um pouco do dualismo Platônico e da critica de Nietzsche a esse dualismo.

O que tem a ver com Direitos animais e com espiritismo?

Logo veremos que Tudo.

O que é o dualismo Platônico?

Já fizemos um artigo no blog falando sobre o Mito da Caverna e explicando o que seria esse dualismo, mas para encurtar o assunto: Platão formulou a Teoria das Ideias ou seja, existiriam dois mundos. O mundo sensível , que é este no qual vivemos, ou seja, o mundo material e  o mundo da ideias (Eidos), um plano invisível aos olhos, o lado verdadeiro e imutável.É nele onde a ideia do Bem e do que é Belo prevalece. Ou seja, somente lá existe o verdadeiro bem e a verdadeira beleza.

Mundos sensível e das ideias
Antes da existência do mundo material/sensível, havia apenas o mundo das ideias/invisível, até que Demiurgo -δημιουργός- o artífice criador, para Platão uma divindade, decidiu criar o mundo sensível, onde passaram a habitar humanos e animais, uma copia imperfeita/inteligível do mundo das ideias[1].

Há muita semelhança com o que conhecemos tanto dentro do catolicismo quanto dentro do espiritismo.

Dentro da teoria das ideias Platão coloca que  o conhecimento ocorre de duas formas: sensível ou doxa[2] e inteligível ou episteme[3], a primeira se ocuparia dos objetos sensíveis(materiais) e a segunda do mundo das ideias.
De modo simples pudemos reparar que existem dois mundos o mundo que conhecemos que é material e o mundo que podemos chamar agora de plano astral, ou espiritual devido as semelhanças entre as ideias platônicas e determinadas religiões.

Mas o que tem isso a ver com os animais?

Pois bem, Friedrich Wilhelm Nietzsche era um dos que discordavam desse dualismo platônico. Para este grande filósofo alemão, Platão era o culpado pela total inversão de valores na qual a humanidade vinha e podemos dizer, ainda vem  vivendo culturalmente.

Na imagem Platão apontando para o alto e Aristóteles com a mão estendida, como a dizer nem muito acima nem muito abaixo, mas , a justa medida
Para Nietzsche essa valorização demasiada do mundo das ideias, que passamos também a chamar de plano astral , acabava por desvalorizar o mundo material, ou seja, o mundo sensível. 

Nietzsche
Para ele, o ser humano passou a valorizar muita mais a alma em detrimento do corpo, como se o corpo fosse uma cela que aprisionava o ser livre e lhe abafava todos os conhecimentos.Nada no mundo material era verdadeiro ou belo, ou possuía o conceito de bem, não, somente encontraríamos isso no mundo das ideias; era para ele e somente para ele que deveríamos viver.


Pois é aqui que começamos a falar sobre Direitos Animais.

Muitas religiões a princípio sequer aceitam que os animais são todos eles, Criações Divinas, algumas acreditam que os porcos são imundos, que cães e gatos pertencem ao mal e , deste modo, os tratam como meros objetos sujeitos a ira e a determinados dogmas e fanatismos humanos.

Durante determinado período, estivemos presente em Casas Espíritas que atendiam animais, uma novidade salutar para a qual e pela qual, desejávamos frutos e transformações.

Foi possível notar ali, tanto por parte dos trabalhadores quanto por parte dos atendidos o dualismo platônico tão criticado por Nietzsche. Vimos uma certa desvalorização do animal material pelo animal imaterial.

Menina junto a um espírito de um cão
Todos os estudos dos trabalhadores e questionamentos dos atendidos, até onde pudemos observar, ficavam encarcerados no estudo/dúvidas da espiritualidade animal. A Alma animal. Os animais no plano espiritual. A reencarnação dos animais. O mundo das ideias dos animais em total detrimento do mundo material destes irmãos.

Cada atendido , em sua maioria salvo um ou outro caso, preocupava-se com seu cão/gato, com o que iria ocorrer com ele, para onde ele iria depois da desencarnação e se ele voltaria para eles, pois eles o amavam muito. O cão/gato, o dele.

Qual a função, em nossa opinião, das Casas que atendiam os tutores? 

Mostrar que não é só aquele cão/gato que é importante, mas todos os animais, principalmente aqueles que estão encarnados e que não reconhecemos como animais. 

Como fazer isso? 

Apenas dizendo que eles possuem alma? 

Menino e espírito de um cão




O conhecimento da alma animal fez muito pouco por ele até hoje, já que reconhecidamente sabemos que há centenas de anos grande parte dos espíritas reconhece que os animais possuem alma e mesmo assim permitem-se alimentar-se de seus corpos...

Vez ou outra chamávamos  atenção pra livros "materiais", que tratavam do mundo sensível como Peter Singer e Libertação Animal, Tom Regam e Jaulas Vazias, livros que mostravam antes de tudo o que realmente acontecia com os animais enquanto vivos no mundo inteligível. Afinal, eram esses livros que mostrariam como muitos animais desencarnam e chegam ao plano espiritual.

Não estamos dizendo que os livros que versam sobre a espiritualidade dos animais não são importantes, trazemos aqui no Blog dezenas de artigos sobre esse tema, porém, nos preocupamos também em mostrar a realidade na qual esses irmãos vivem.

Pode ser muito bonito conhecermos a alma animal, sua vida no plano espiritual, o trabalho de reencarnação desses irmãos, mas também é muito importante que saibamos que muitas de nossas ações podem fazer com que muitos animais atravessem a fronteira do mundo sensível para o mundo das ideias.A começar pelo prato nosso de cada dia.

Não tenha medo eu sou vegan.
Não é preciso que um espírito surja e diga : "os animais são sencientes, respeite-os, não os devorem"

Não, nós temos do lado material/sensível um verdadeiro arsenal de livros que há muito já  nos traziam esse conhecimento, só que nunca nos importaram.Como se a vida espiritual deles fosse mais importante para nós do que seu corpo material, aquele que é senciente, que sofre, que morre.

Aos poucos começamos a perceber que Nietzsche realmente tinha razão, nos preocupamos tanto com o mundo das ideias que esquecemos que vivemos no mundo sensível.

Não adianta nos justificarmos o tempo todo de que ainda fazemos determinadas coisas com os animais porque somos imperfeitos, porque necessitamos, porque não evoluímos. A questão dos Direitos Animais não tem nada a ver com evolução, mas sim com Conscientização e não pelo lado espiritual (mundo das ideias), mas pelo lado material, do mundo sensível, para que sintamos compaixão e essa compaixão nos leve inevitavelmente a sermos caridosos com quem divide este Planeta conosco.

Nós vivemos hoje no mundo sensível, o que fizermos nele se refletirá no mundo das ideias e não vice versa.É preciso preservar a vida dos animais aqui e agora, eles não precisam de orações depois de desencarnados ou que saibamos de cor e salteado o que lhes ocorre no mundo espiritual se não os respeitamos quando estiveram deste lado dividindo suas vidas conosco.

Eles não precisam de piedade, eles precisam de ações pautadas no verdadeiro amor.



Simone Nardi





 


Notas:

1. Para Platão o mundo perfeito seria sempre o mundo das ideias, e o imperfeito, o mundo sensível.Os seres humanos deveriam trabalhar, buscar conhecimento até chegar a essência da perfeição.
2.  É tida na maioria das vezes como uma opinião subjetiva
3. Seria o conhecimento da realidade das coisas, não mais subjetivo, mas verdadeiro 



 

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quarta-feira, 24 de julho de 2013

Mito da Caverna :Verdade x Mentira

Alegoria da Caverna é uma metáfora criada por Platão, onde o filósofo demonstra de que forma podemos nos tornar livres das sombras que nos aprisionam da verdadeira Luz. Esse texto encontra-se em seu livro A República (livro VII) onde ele também fala de ética e política, para um bem maior. Em forma de diálogo, Platão nos narra a seguinte visão:

“Seres humanos que, acorrentados no interior de uma caverna desde sua infância, apenas podem contemplar as sombras que são projetadas na parede, tendo como realidade, apenas aquela visão. Entretanto, um deles (o filósofo) consegue se libertar, seguindo o caminho que leva para fora da caverna. Contempla então a realidade, as idéias puras. Retorna para o interior da caverna a fim de mostrar aos outros que as sombras não são tudo que existe. No entanto, os demais, acostumados às sombras e acreditando que elas são toda a realidade, não dão ouvidos ao filósofo. Mais do que isso: acabam por “maltratá-lo.”


Platão referia-se às crenças e tradições de seus contemporâneos, demonstrando como os homens dentro da caverna estão sendo condicionados a acreditar que só existe aquela realidade, e o homem que escapa seria aquele capaz de livrar-se das amarras dessas falsas crenças, seguindo então em busca da verdade. Ao falar dessa verdade aos homens que eram fiéis as antigas tradições e crenças pessoais, não seria ele aceito e nem compreendido. Essa metáfora demonstra a condição humana perante o Mundo; em termos de conhecimento, educação, ética, política e desejo de vencer nossa própria ignorância, a fuga do senso comum para uma visão mais organizada, lógica e verdadeira do Universo que nos cerca.


Tal realidade Platônica acontece hoje em dia e de uma forma tão simples que ninguém, ou quase ninguém, consegue se aperceber disso. No simples desenvolver-se do dia a dia, dentro de nossas casas, nos faróis, esse Mito está tão infiltrado dentro de nossas vidas, que passou a ser tão real quanto as sombras platônicas na caverna. Não vemos nada além daquilo que nos obrigaram a ver, não repetimos nada além daquilo que nos ensinaram a repetir, não mudamos nada em nós porque não desejamos ser como o prisioneiro que fugiu da caverna e que foi desacreditado, queremos ser iguais, acreditar no que todos acreditam, viver, como todos vivem.


Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, disse um dia que a verdade atravessa três fases:

“Na primeira ela é ridicularizada; Na segunda contrariada; Na terceira, é aceita como o própria prova”.


E o que nós fazemos diante de novas verdades? Será que aceitamos como o prisioneiro que fugiu da caverna? Ou será que ridicularizamos e maltratamos aquele que vem nos dizer a verdade? Vamos fazer esse exercício de reflexão.


Imaginemo-nos dentro da Caverna Platônica, sim, porque podemos até não acreditar, mas muitas pessoas permanecem ainda hoje dentro dessa Caverna, olhando para sombras e acreditando que aquilo seja a mais pura e autêntica realidade. Não temos correntes de aço e podemos nos libertar a qualquer momento, porém, embora as correntes não sejam de aço, elas existem de uma forma alegórica e são feitas com um material mil vezes mais resistente. O comodismo. Esse tipo de grilhão sufoca a mente e o corpo, e embora seja simbólico e não físico, acaba sendo ainda pior que as correntes de aço que Platão usava em sua teoria, pois na Teoria das Idéias elas prendiam somente a matéria, e a corrente do comodismo e da alienação prende a mente e a vontade de conhecer a realidade.


Pois bem, estamos na Caverna de nossos vícios, de nossos comodismos, agindo e vendo as mesmas coisas, do mesmo modo, há séculos em nossa parede mental, desde nossa tenra infância. Acostumamo-nos a isso, aquelas imagens, aquelas vozes, aquelas crenças pessoais e tradições seculares. Sendo moldados Ética, Moral e Esteticamente pelos padrões da nossa exigente sociedade, através das microrelações e dos micropoderes[1] que sofremos e que, poderemos vir a exercer sobre os outros. Eis que um dos prisioneiros se liberta, tal como no Mito da Caverna de Platão, e ao sair dessa escuridão ele se depara com a verdadeira realidade.


No início seus olhos doem ao contemplar a Luz da Verdade. Sua mente julga ser aquilo tudo uma mentira, pois não reconhece ali todo aquele “Conhecimento” que obtivera dentro da Caverna. Ele se assusta, pensa em voltar para dentro, pois se sente mais seguro ali. Mas algo o impede de retornar para dentro da Caverna ; O desejo pelo novo conhecimento, a descoberta, a visão de algo que desconhecia : A Luz da Verdade. Ele Muda, mesmo que sem reconhecer essa mudança.


E o que seria essa verdade ? Nietzsche, em seu livro “Verdade e Mentira no Sentido Extra Moral” nos responde:


[...] a verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. (…)Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.

Mas um homem conseguiu escapar da Caverna, do rebanho social ao qual Nietzsche se refere, e esse homem, tal como o filosofo de Platão, volta para contar o que viu, porém os outros não acreditam nele e o maltratam. Ao tentar falar o que viu a esses homens que há tantos séculos vivem em “rebanhos”, presos as suas crenças e superstições, seria chamado de mentiroso, uma ameaça a ordem natural[2], chamam a nova verdade de “mentira” e o excluem do rebanho. Essa punição é hoje, realizada de forma simbólica[3]·, às vezes um afastamento, a ridicularização, a completa negação através de uma agressividade emocional, tal como Schopenhauer já havia colocado. Eis que o Mito da Caverna de Platão se repete todos os dias de nossas vidas e reafirma a idéia de Nietzsche sobre a mentira que nos faz viver em sociedade:


“O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o exclui”.


Essa é a punição ao homem moderno, a punição simbólica, a Exclusão. Assim é a luta pelos Direitos Animais. A esmagadora maioria das pessoas vive dentro da Caverna de Platão ou dentro do rebanho social de Nietzsche, imaginando que o Mundo é somente aquilo no que as fizeram acreditar. As pessoas dessa moderna Caverna social acreditam que a carne que chega ao seu prato lhes é extremamente necessária, pois uma sombra projetada na parede as ensinou isso; do mesmo modo passam a acreditar que o animal que foi assassinado nada sofreu, nem antes ou durante o crime, pois as imagens que se refletem na parede de sua Caverna mental são belas, meigas e carinhosas, de forma a moldá-las docilmente aos desejos sociais. Fomos condicionados a imaginar vaquinhas pastando em campos verdes, com seus bezerrinhos felizes e saltitantes.


Projetaram em nossas mentes, desde tenra idade, porquinhos sorridentes fazendo propaganda de toucinho. Nossos pais nos faziam assistir desenhos animados onde pássaros comiam filés descomunais, onde os animais comem lanches de pão com presunto embora tenham entre si, laços de amizade . Vemos a todo instante, imagens coloridas de vaquinhas felizes nas caixas de leite e bois atléticos pastando alegremente enquanto mostram a carne de primeira que as pessoas devem comprar. Assistimos inertes um franguinho alegre que senta-se a mesa para apreciar a suculenta carne de frango e de peru, seus primos em espécie, e nos extasiamos ao ver uma propaganda com paisagens paradisíacas onde são processadas as salsichas e as linguiças, tudo arborizado, cheio de flores e feliz. Mas nunca nos perguntamos qual a real ligação entre os felizes animais ao qual nos condicionam a ver e a realidade dos animais que consumimos.


Mas lá vai nosso destemido “Filosofo”[4], libertando-se dos grilhões que lhe atavam a mente e, em sua loucura pela verdadeira Luz, escapa da Caverna e se depara com um Mundo Real e não um Mundo de Sombras e mentiras ao qual o acorrentaram durante tanto tempo. Ele assiste a agonia dos belos porquinhos que não fazem propaganda do toucinho porque descobre que se assim o fizessem, estariam vendendo a própria vida, então descobre que enquanto estava acorrentado, era-lhe impossível fazer essa conexão entre a vida e a morte de seres que lhe ensinaram, não possuíam qualquer valor. Ele começa a ver que os bois atléticos que vendiam a si e a seus irmãos, hoje correm de medo ao sentir o cheiro da morte de seus companheiros; que na maioria das vezes, por causa de uma produção que precisa aumentar a cada dia, a pistola pneumática não funciona 100% e eles acordam sentindo a dor de uma garganta dilacerada, enquanto aspiram o odor de seu próprio sangue que se espalha, toda vez que seu apavorado coração pulsa. Ele enfim descobre que a vaquinha da caixa de leite, produz leite acima da média porque toma hormônios e que suas tetas incham e ficam inflamadas pela mastite depois, quando não serve mais, é arrastada para qualquer frigorífico para virar ração animal, já que sua carne não serve para alimentação do rebanho humano. Que seu bezerrinho não fica saltitante pelo campo como lhe mostraram, mas que desde tenra idade é impedido de mamar, sendo retirado de sua mãe para ser confinado por 2 a 3 meses, amarrado, sem espaço para poder movimentar-se, ficando anêmico para que alguns apreciem sua carne clara, levemente rosada, a carne de um filhote que sofreu desde seu nascimento, um bezerrinho igual ao daquele desenho[5] que ele assistiu e o qual hoje, seu próprio filho assiste. Ele descobre que na verdade, aquele “Paraíso” no qual o fizeram acreditar, onde os animais eram felizes e não sofriam, não passa de um “Inferno” de dor e agonia, uma realidade virtual que nos engana, nos impedindo de presenciar a realidade.


“(…) o intelecto ilude, dissimula, forja imagens luminosas, tudo para lançar um véu sobre esse fundo trágico e assim continuar vivendo[6].”


E o filosofo volta a Caverna para contar o que viu, e sabemos o que acontece tanto na visão de Platão, quanto na visão de Nietzsche e Schopenhauer. A maioria o chama de louco, outros o maltratam e o excluem do rebanho; uns poucos se arriscam a sair da Caverna para presenciar a Verdade, porém, a grande maioria prefere continuar vivendo na escuridão, na segurança daquele rebanho social, porque a realidade os fará mudar e se eles mudarem, poderão acabar excluídos; “E “assim continuar vivendo”. Somente a coragem e a determinação na busca pela verdade podem libertar os homens das correntes mentais do comodismo, essas, muito mais fortes do que os grilhões de aço. O que podemos afirmar é que, após tantos Séculos de escuridão, a grande maioria das pessoas ainda sente medo de mudar, elas sentem medo do novo e preferem ignorar a palavra daquele que presenciou a realidade, preferindo enxergar somente o que existe nas sombras de suas paredes mentais.


Nesse exato momento, enquanto o “Filósofo” tenta mostrar a verdade, muitos ainda o estão ridicularizando e dizendo : “Não, isso não é a verdade, os animais foram criados para nos servir, nós precisamos de proteínas, precisamos da carne, existe o abate humanitário, sem dor, os animais não sofrem, esse bife que como, nada mais é que um simples pedaço de carne, não há vida por detrás dele, não desejo saber como ele chegou aqui, só quero fazer o que sempre fiz, agir como fui condicionado a agir, falar e pensar como me condicionaram a falar e pensar”. E essas palavras continuam soprando em sua parede mental, palavras que não são dela, palavras que lhe foram ditas, imagens que lhe foram projetadas para que ela pudesse ser mais um, entre o rebanho que pensa igual, que age igual, que se sente na realidade mesmo que aprisionada pelos grilhões do comodismo e da alienação mental. Ela acredita naquilo que lhe mostram, não questiona, não vai além, não se permite pensar por si mesma, fazer algo fora disso é opor-se a sociedade e tal coisa é passível de punição, de exclusão social e ela precisa permanecer ligada a sociedade.


A verdade e a mentira são ditas a partir do critério da utilidade ligada à paz no rebanho. Assim, os gestos, as palavras e os discursos que manifestem uma experiência individual própria em oposição ao rebanho, ou não são compreendidos ou trazem mesmo perigo para aqueles que assim se mostrem.[7]


E não faltam exemplos da incompreensão dessa realidade em argumentos que atravessam os anos, repetitivos e condicionantes, além de totalmente úteis a “paz do rebanho”, porém sem bases morais nos quais se fundarem. Quantas vezes não ouvimos alguém repetir frases do tipo: “Nós podemos comer carne porque muitos animais selvagens fazem isso”. Não pensam, porém, no que implica buscar bases morais em seres que ela foi condicionada a crer, são inferiores a ela, seu grau de “domesticação” é tão alto que ela não consegue perceber que, ao buscar essa base moral nos animais, equipara-se a tudo o que nega a eles, descendo a uma condição que tanto busca para se distanciar dos animais, a de inferioridade e falta de capacidade intelectual. Sim, aqueles mesmos animais que nós, os acorrentados, chamamos de selvagens porque matam e porque são irracionais, nos servem agora de parâmetro ético e moral para que nos perdoemos pela morte e tortura que lhes infligimos. Mas nós podemos, porque nós somos inteligentes, nós temos nossa “própria opinião”, eles o fazem porque são selvagens. Nós sabemos a verdade e encaramos como natural[8] a morte de milhões de animais. Além disso, nós não os matamos, nós somos “limpos”, pagamos para que façam isso por nós. Apesar de “nossa opinião própria”, que temos e é “nossa”, ouvimos alguém dizer que é natural, que faz parte da cadeia alimentar, além disso, “nos foi dito” que os animais não são nada, e acreditamos, mas é “nossa” opinião pessoal, não roubamos de ninguém…


As pessoas que se fundam nesses argumentos são incapazes de notar um detalhe: Em nenhum momento elas passaram o que lhes foi exposto pelo crivo da razão, da curiosidade, do “estranhamento”. Simplesmente aceitaram como Imperativo Categórico[9] o que lhes foi mostrado na parede da Caverna: “Se os homens da caverna comiam carne, nós também podemos comer. Se isso é feito há séculos, é porque deve ser verdade. Porque se meus antepassados viviam assim, eu também posso viver. Não há razão para pensar quando é mais fácil aceitar a imposição social. Para que descobrir a verdade quando se podemos aceitar as verdades dos outros?


E assim nos negamos a deixar nossa Caverna Mental, nosso Rebanho Social, porque ele nos assegura o direito de continuarmos ignorantes sobre o que ocorre com o destino dos animais. Porque nossa caverna e nossos grilhões nos permitem permanecermos cegos e surdos, porque nos permite continuar a ser o que os outros já foram, e é desse modo que ensinaremos nossos filhos e os filhos de nossos filhos. Não queremos saber o que poderíamos ter feito ou o que poderíamos ter sido, não queremos deixar esse lugar seguro que nos mostra sombras que nos alegram, mentiras nas quais desejamos continuar acreditando.


Dentro da Caverna nós não somos o que queremos ser, não vemos o que queremos ver, não pensamos o que queremos pensar, nós somos o que os homens de um passado distante foram e nos adestraram a ser. Nós não acreditamos no que queremos acreditar, acreditamos nas mentiras que nos contaram e que nos foram mostradas em nossa parede mental, porque achamos que seria mais fácil nos encaixarmos numa sociedade racista, sexista, especista e mais do que tudo, egoísta. Queremos ser o que “eles”, pessoas que nem ao menos conhecemos, foram, queremos agir como “eles” agiram, porque sabemos que, como o Filosofo que escapou da Caverna e vislumbrou a verdade sendo curado de sua ignorância, se fizermos o mesmo, iremos parecer estranhos a essa sociedade, incompreendidos, ridicularizados e queremos, não, nós precisamos ser aceitos; queremos ser iguais a todos, afinal é mais fácil viver assim, nas sombras, escondidos em meio a um imenso rebanho.


E surge a questão:o que somos para nós mesmos enquanto dentro da Caverna? O que representamos para o Mundo enquanto levamos essa vida social em forma de rebanho?

Se acreditarmos que é tudo muito natural, que os animaizinhos vivem e morrem felizes para servirem de comida, diversão, agasalhos para nós, os seres racionais, é porque estamos assistindo as sombras passando na parede da Caverna Platônica, distantes da verdadeira Luz da Sabedoria e do Conhecimento.


Acreditamos que essa seja a realidade, embora não seja, e tememos mudar.
Se soubermos que eles sofrem e mesmo assim não nos preocuparmos com seu destino, precisamos parar e descobrir o que há de errado conosco. Pois se sabemos que causamos dor e aflição e apreciamos isso, talvez seja porque nos sintamos fracos para reagir, e isso é sinal de covardia, não queremos lutar contra as ondas e preferimos seguir junto com a maré, leve-nos ela para onde nos levar.


O mesmo se dá se acreditamos que escolhendo vidas que devam ser salvas enquanto outras possam ser mortas, estamos sendo éticos, ainda sim estaremos nas sombras, pois estaremos usando de dois tipos de ética, a verdadeira e a utilitária . A utilitária, aquela que nos satisfaz e nos alegra e a verdadeira, aquela que valeria universalmente para todos os seres. Acreditamos ser éticos quando na verdade não sabemos o que realmente significa ética.


Se conseguirmos dar os primeiros passos para fora da Caverna, se formos capazes de nos separar dos grilhões mentais dos demais aprisionados e, se conseguimos olhar para o Sol enxergando em sua Luz, a Verdade,a Realidade, dificilmente nos omitiremos de tomar uma atitude em relação a vida. Seremos o filósofo que escapou da caverna, que através da dialética foi buscar respostas a fim de eliminar primeiramente o senso comum a visão de todos dentro da caverna, depois as hipóteses para finalmente se pautar em argumentos seguros se desvencilhando das mentiras que lhe eram impostas.


Sempre haverá aqueles que não desejarão, os cegos e surdos, os egoístas, de quem nada se poderá esperar além de sombras. Mas também sempre haverá aqueles que, em meio a multidão, conseguirão erguer a cabeça e contemplar o Sol da verdade. São aqueles que não terão medo de sair da alienação mental que acorrenta a sociedade e que aprenderão a viver com a verdade ao invés de permanecer na mentira.


Einstein explicou isso de forma sutil ao dizer: “Quando uma mente se abre à uma nova ideia, jamais volta ao seu tamanho original. Quando se sai da Caverna e se enxerga a realidade, se torna impossível conviver com a mentira.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PLATÃO - A República -Editora Martin Claret- 2ª Edição
NIETZSCH - Friedrich - Os Pensadores-Verdade e Mentira no Sentido extra Moral
KANT, Immanuel - Metafísica da Moral-Fundamentação da Metafísica dos Costumes e outros Escritos
FOLCAULT, Michael - Vigiar e Punir e Microfísica do Poder - Editora Vozes - 39ª Edição

NOTAS

[1] Foucault- Microfísica do Poder
[2] Hoje os DDA's (Defensores dos Direitos Animais) são considerados a terceira maior ameaça no Mundo.2008
[3] Foucault-Vigiar e Punir/Microfísica do Poder
[4] Na verdade esse termo é usado por Platão na Teoria das Idéias, numa referência a morte de Sócrates, mas no sentido do texto o termo pode ser compreendido como uma pessoa que defende os animais
[5] Jackers, As aventuras de Piggle Winks, onde há uma confusão entre animais, pois uns falam enquanto outros são explorados por seus donos, todos animais.
[6] Nietzsche, Verdade e mentira do sentido extra moral.
[7] Nietzsche.
[8] A pessoa condicionada, perde a capacidade de discernir que a dor e a morte nos animais se procede nos mesmos graus orgânicos que com os animais humanos.
[9] Kant e seu imperativo categórico de viver de um modo tão ético que sirva para todos, o problema porem é que, os homens dirigem a ética para aquilo que desejam, e não para aquilo para o que serve a ética: O bem coletivo, e como Bem coletivo pode-se incluir a Natureza, sempre colocada de lado.



Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espirita da Feal (Fundação Espirita André Luiz) é fundadora do Grupo de discussão  espírita Clara Luz, que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pôs-Graduada em Filosofia Contemporânea e História.






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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Direitos animais em Grandes Temas do Conhecimento - Filosofia

Mais uma vez temos a oportunidade de chegar ao grande público através de uma revista de grande circulação como a revista de Filosofia da Editora Mythos, dessa vez abordando o tema : O Mito da Caverna e os Direitos Animais, uma abordagem filosófica sobre o direito de viver desses nossos irmãos em evolução.


A Revista pode ser encontrada nas Bancas ou adquirida pelo site da editora.





Redação do blog Irmão  Animais- Consciência Humana