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terça-feira, 8 de julho de 2014

O homem é a medida de todas as coisas!



Imagem: Experimento Pavlov
Sim,  depois de ouvir tantas críticas, tantas ofensas, depois de ver pessoas se descabelarem literalmente , ao ver que um grupo de pessoas “estranhas” não pensam como elas e sendo assim não comem carne , resolvi buscar em Protágoras uma explicação, ao menos coerente, para que a massa tradicional puna com argumentos antigos e culturalmente arcaicos, as pessoas que defendem os animais não-humanos.


Protágoras dizia que:  “ como cada coisa aparece para mim, assim ela é para mim, como cada coisa aparece para ti, assim ela é para ti”, nesse contexto o homem, ou cada homem, seria então a medida de todas as coisas, para ele, não necessariamente para o mundo.


Aos veganos parece estranho confinar um ser senciente, alimentá-lo até que cresça e matá-lo para servir de alimento a seres que se consideram igualmente sencientes, superiores e racionais.  Assim é que para os veganos, tratar um ser senciente sem respeito deixa de ser sinal de superioridade para ser sinal de irracionalidade, já que comprovada a sensibilidade dos animais não-humanos, é difícil ficar indiferente a qualquer tipo de sofrimento que possa lhe ser infligido. Assim lhes parece incoerente com a racionalidade e superioridade, fazer outro sofrer somente porque há que se seguir um hábito alimentar baseado apenas na violência contra outra criatura. Assim nos aparece, assim é para nós.


Parece igualmente incoerente que as pessoas sofram diante da televisão com as imagens de dor que assolam o mundo em forma de catástrofes naturais ou guerras mundiais, se em seus pratos trazem igualmente uma parcela dessa mesma guerra travada nos abatedouros , mas pela qual nada sintam a respeito. Parece incongruente que as pessoas chorem  pelo outro humano, ao se colocar em seu lugar, porque sabem o que é dor, medo e desespero, mas ignoram a dor, o medo e o desespero daquela criatura morta em seus pratos. Por quê?


Porque não conseguem enxergar, porque ali, segundo a tradição cultural que foi passada , aquilo é apenas carne, de quem, de onde, nunca se questionaram, não faz parte da vida  delas questionar sobre isso. A elas parece normal, assim é para elas. Só se esquecem de um detalhe: a violência contra a vida é a mesma.


Para muitas pessoas matar outra criatura parece normal, porque elas são a medida de todas as coisas que fazem referência a elas, não aos demais e isso lhes parece normal porque simplesmente querem acreditar nisso. E a grande maioria é tão centrada em si mesma que se irrita ao ouvir alguém dizer algo que possa vir a contrariar suas crenças. Não lhe parece antinatural criar um animal senciente para a morte, não lhe parece anormal infligir dor, colocar em desespero, torturar, porque não lhe ensinaram que pode haver outros saberes que não aquele aos quais elas se prendem. Matar é algo normal, é assim que ela vê, é assim que ela sente, é assim que é para ela, desde que os veganos não lhe digam como o bife foi parar em seu prato.


Sendo cada um de nós, a medida de todas as coisas, cada um de nós pode sentir as mesmas coisas de formas diferentes. Alguns sentirão horror diante do abate de um animal senciente, seja humano ou não humano, outros serão frios diante disso. Alguns podem sentir compaixão por um animal abandonado, seja um animal humano ou não humano, outros podem querer se aproveitar fisicamente deles. Alguns podem sentir-se mal diante da tortura de um animal, humano ou não humano, outros serão aqueles que infligirão a tortura. Cada um é a medida de si mesmo, o problema é que, no tocante ao outro que sofre, essa medida pode surgir de forma boa ou ruim, em forma de vida plena, ou de morte cruel. Por isso Protágoras dizia : “ O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são por aquilo que são, daquelas não são por aquilo que não são”. Cada pessoa representa o seu mundo e o mundo em si, representa todas as pessoas e todas as suas medidas. Os veganos não são conhecedores de todos os saberes, mas sabem do principal: é imoral e antiético fazer qualquer criatura sofrer, seja ela de qual espécie for. Ser a medida de todas as coisas implica muitas vezes em invadir a vida de outras criaturas, como vamos fazer isso é o que nos torna morais ou imorais.


Se somos a medida de todas as coisas, e agora é Schopenhauer quem nos diz,: “O mundo é representação minha” , e podemos fazer o mundo ser melhor ou pior , ser vida ou ser morte, luz ou escuridão. Assim como podemos ver e sentir as demais criaturas, elas igualmente podem nos ver e sentir, e podemos ser donos de um toque de suave compaixão ou a mão pesada do cutelo rasgando a carne. Podemos ser o acalento da dor ou o desespero do abandono, mas em cada ação, somos os únicos responsáveis por nós e pelo que acontece ao outro diante de nós.


Qual a certeza que resta disto?


Que cada um tem a sua verdade, e que essa verdade pode transformar para o bem ou para o mal, mas deve-se levar em alta conta que não vivemos isolados uns dos outros e cada ação nossa implica em uma reação do outro, ou dos outros. Toda vez que  consumimos  carne vermelha, nossa ação gera uma reação de maior degradação e fome. Toda vez que consumimos peixes, nossa ação gera uma reação que coloca em risco toda a biodiversidade marinha. São nossas medidas se voltando contra nós mesmos, pois não sabemos viver em harmonia, isso sem levarmos em conta o fato de estarmos matando seres sencientes , se olharmos por esse lado então, veremos que o prejuízo moral é ainda maior, pois aquilo que levamos por medida de todas as coisas, ou seja, nós e sempre nós, invade com desrespeito e violência extrema a vida de outras criaturas.


Floresta
O mundo não é apenas o seu mundo, mas é o mundo de todas as criaturas e dentro dele  todos nós, de todas as espécies nos relacionamos.  Não há outro mundo, não há outra saída. Quando nós vemos nesse mundo é que podemos ver que há opção em mudar ou não, em conhecer outra “verdade”, dentro de  outra medida, ou não.


Ocorre que a verdade que conhecemos e que nos torna a medida de todas as coisas é primeiramente aquela verdade subjetiva que tínhamos na infância e que foi apagada de nós por nossos pais ao insistirem que comêssemos a carne que recusávamos a colocar na boca, transformando essa verdade natural naquela na qual nos ensinaram a crer e que não nos permitia, até então, enxergar nos animais não-humanos nada mais do que meros objetos de consumo. Quando passamos a perceber o mundo ao nosso redor , conseguimos trazer essa verdade subjetiva a tona, nos livrando da “verdade” imposta pela tradição cultural da sociedade e mudando assim o rumo de “nossas” medidas.


Somos a medida de todas as coisas?


Devemos ser com sabedoria, pois qualquer ação que cause mal, que seja violenta ou cruel, nos torna imorais e nos fará, cedo ou tarde, prestar contas junto as demais criaturas. Se o mundo é nossa representação, basta termos coragem de encarar nossas ações diante do mundo, olhar como ele se encontra, olhar um matadouro ou uma granja, ver a verdade que se expressa nos animais diante da morte, diante da dor , não fugir diante de um animal que se debate para escapar ou que agoniza diante de nós. Não virar o rosto, não fechar os olhos e não tapar os ouvidos.


Será que estamos mesmo preparados para sermos a medida de todas as coisas, diante daquilo que ocultamos ou vamos continuar mentindo para nós mesmos?


Simone Nardi







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sexta-feira, 29 de novembro de 2013

As Plantas

Imagem: Rosa



Vamos tocar num assunto muito conhecido dos vegetarianos/veganos: as plantas. Esse tema não é novo, em 2006(1) escrevi um pequeno ensaio (Reflexão sobre a atribuição de sensibilidade as Plantas)que rodou a internet e incentivou alguns amigos a pensarem sobre o assunto e hoje, alguns anos depois, posso ver como ainda desconhecia muita coisa, por isso é preciso muito cuidado com o que vai ser respondido, pois nosso futuro pode sempre mudar. Muitos estudos já se baseiam na inclusão delas em nossa esfera moral(2) e, embora possa parecer complicado, não é impossível que tal fato venha há ocorrer daqui a alguns anos. Mas a questão das plantas continua sendo uma das melhores “armas’” de defesa para pessoas que se negam a aceitar o fato de que os animais sofrem ao serem explorados. A grande maioria, não sabendo como se defender do que é óbvio frente aos olhos de qualquer pessoa, mas que as assusta ao ponto tentarem ridicularizar os próprios amigos, indagam sempre a mesma coisa: “Vocês não comem animais, mas e as plantas, afinal, elas também são seres vivos e sentem dor!?” Mal sabem elas que armam uma perigosa armadilha contra si mesmas, porque desconhecem tal assunto, e porque uma ética para as plantas, exige antes do que qualquer outra coisa, uma ética para com os animais.


Até quando vamos buscar por uma ética antropocêntrica, centrada no homem, enquanto que a verdadeira ética jaza moribunda debaixo do nariz de cada um?


Não comemos animais somente porque sabemos que eles sentem dor ou prazer, mas porque, tal como nós, possuem o interesse em permanecerem vivos. Não sabemos ainda se as plantas sentem realmente dor, mas sabemos que elas possuem uma singularidade conosco e com os animais: o mesmo “desejo” de permanecerem vivas. E o Biocentrismo acata a esse “desejo”, colocando-as como seres aceitáveis dentro de nossa comunidade moral. É, porém, uma nova ética a ser ainda estudada, debatida e compreendida, mas demonstra o avanço rumo à moralização humana, moralização que se iniciou há muitos séculos atrás quando deixamos de acreditar que as mulheres não possuíam alma, depois os negros, os indígenas e agora com a recusa a exploração animal, é assim que a ética trabalha, mudando a moral e as antigas tradições, restaurando e mudando conceitos, dando mais eticidade aos seres para que possam conviver em harmonia com o Planeta.


A questão, para o momento, pois nem todos conseguiram alcançar o grau biocêntrico ainda é: as plantas sofrem tanto quanto os animais? Cientificamente já foi comprovado que animais em geral, e vamos frisar aqui os peixes que algumas pessoas insistem em dizer que sofrem menos, todos sentem dor, sentem medo e fogem daquilo que os ameaça. Todos buscam pela preservação da vida, ao menos nesse primeiro momento é incomparável a dor que notamos nos animais diante da comparação que podemos fazer com as plantas. Porém, ao contrário do que possamos ter lido ou ouvido falar, as plantas não são como objetos, pratos, talheres ou carros. Elas buscam a melhor forma de viver, de sobreviver ao meio que as cerca, evoluíram assim como os animais num território extremamente feroz e competitivo e são, também como os animais, seres pluricelulares(3) que também, ao contrário do que achávamos há alguns anos e do que muitos ainda hoje insistem em dizer, não são seres totalmente inertes e passivos diante das agressões externas que possam vir a sofrer, sejam doenças ou insetos, pois desenvolveram mecanismos de defesa que são acionados diante de qualquer agressão. O fato de não poderem fugir quando são queimadas, por se tratarem de organismos sésseis(4), não significa que estejam totalmente impassíveis ou que sejam seres inanimados diante de determinadas ameaças. Como as víboras, escorpiões e aranhas, as plantas também possuem seu próprio arsenal químico, com venenos tão tóxicos que podem, igualmente aos de aracnídeos e serpentes, levar os animais humanos a morte se houver desrespeito em relação a elas. O mecanismo pelo qual elas reconhecem as agressões talvez ainda não esteja totalmente descrito, porém, apenas o fato de sabermos que elas buscam esses mecanismos, que buscam o Sol para realizarem a fotossíntese a fim de continuarem vivendo, já deixa claro que não são objetos inanimados. Evoluíram, cada qual ao seu tempo, de folhagens apenas, para flores, porque descobriram a necessidade de se tornarem chamativas aos insetos que as polinizam, criaram cores e odores, e ainda evoluem.


Imagem: Flor
A grande maioria das pessoas ainda não consegue vê-las como seres vivos, mas apenas como artigos de paisagismos, desconhecendo e desrespeitando muitas vezes suas reais necessidades de sobrevivência (reprodução, defesa a agressões, respiração, etc.). O conhecido diretor de cinema M. Night Shyamalan, contou numa entrevista, que antes de realizar seu filme “Fim dos Tempos”, estudou sobre os mecanismos das plantas e ficou surpreso ao descobrir como elas, esses seres vistos como inanimados, reagiam diante de ameaças e como haviam desenvolvido sistemas incrivelmente complexos para lidar com problemas:


“Um campo de algodão, por exemplo, ao ser atacado por um parasita por um dos lados, envia um sinal para o outro para avisar a tempo que está sendo atacado e para que as plantas do lado de lá liberem algum tipo de substância química contra os predadores. É um sistema de comunicação impressionante. ”

De onde provém essa estratégia de defesa das plantas, seja por barreiras físicas ou químicas(5)? A excreção de substâncias, a produção de enzimas, proteínas e de fitoalexinas(6)? É inegável que as plantas demonstram vida ao crescerem, se desenvolverem e reagirem diante de estímulos exteriores, retorcendo-se para escapar da escuridão em busca de um raio de Sol, da qual dependem para sobreviver. Sua interação com o mundo se dá através das cores de suas flores, algo que desenvolveram ao longo de sua evolução conforme suas próprias necessidades, dos espinhos que afugentam, das toxinas, da doçura de sua seiva que lhes permite a polinização através do pólen e de sementes, da sinalização através de odores repulsivos ou adocicados, uma complexidade que não pode ser totalmente ignorada; diante dessa luta pela autopreservação até mesmo a senciência acaba se tornando irrelevante(7), descobrir como lutam para sobreviver, como conseguem se comunicar com outras a distância, mesmo que através de agentes químicos ou elétricos para que não sejam devoradas, é uma coisa a ser totalmente desvendada pela biologia; até pouco tempo havia quem achasse que os animais também não eram sencientes, ou seja, não sabemos tudo, não podemos julgar o que desconhecemos, não sendo possível afirmar que a planta não tenha qualquer interesse, posto que para sobreviver ela se aperfeiçoa, se protege e se torna mais atrativa, tudo com um propósito, o que a leva a isso ainda nos é desconhecido. Se usarmos da senciência para separarmos o que deve viver ou não, cairemos na mesma questão que levou Peter Singer a ser proibido de realizar palestras na Alemanha por defender a senciência como base/cisão, criando uma brecha para que fossem aceitos tanto a eutanásia quanto o aborto, por tratar-se nesse caso, do feto ainda não ter interesse nem ser senciente, e não podemos esquecer que até pouco tempo, muita gente também afirmava que os animais igualmente, não tinham qualquer interesse, apenas existiam.


“Embora o feto, depois de certa altura seja capaz de sentir dor, não há fundamento para julgá-lo racional ou auto consciente. [...] bebês humanos não nascem conscientes nem capacitados a entender que existem no tempo”


Não queremos comparar as plantas com animais, sejam eles humanos ou não-humanos, o interesse aqui é apenas demonstrar que a senciência não é mais uma fonte tão segura para nos espelharmos na defesa da vida em si. Será que já compreendemos tão bem assim o significado da frase: “Valor da vida”? Antes nossa compreensão nos permitia dizer que apenas a vida humana possuía valor, com o tempo descobrimos que a vida dos animais igualmente possuía valor, aos poucos o Biocentrismo nos mostra que qualquer vida possui bem inerente8, sendo assim, nos surge outra questão: assim como a razão foi um dia a fronteira entre homens e animais, por que hoje, apenas a vida dos sencientes deveria ter valor? Será que alcançamos um patamar de conhecimento tal, que a senciência deva mesmo ser a última fronteira a definir o limite para a expansão de nossa comunidade Moral?


“A Terra é um estágio muito pequeno numa vasta arena cósmica. As nossas presunções, a nossa imaginada auto-importância, a ilusão de que nós temos alguma posição privilegiada no universo são desafiadas por este ponto de luz pálida”. (Carl Sagan)

Esse mesmo astrônomo também afirmou um dia, que as plantas eram nossos parentes distantes, e que nós e os animais nada mais éramos do que simples parasitas delas.

“As plantas são o resultado. [...] os animais, tal como os seres humanos, são parasitas das plantas. ”

E um pouco mais adiante ele prossegue, numa frase que seria própria a moral e a ética biocêntrica, embora ele mesmo ainda não o fosse.


“Houve o surgimento de uma organização celular semelhante às células atuais, que se tornou o ancestral comum de plantas e animais; o que implica em um distante grau de parentesco entre o ser humano e as plantas que o rodeiam. Logo, quando o homem corta uma árvore, está destruindo um parente distante; ou próximo [...] Nós, seres humanos, parecemos bem diferentes de uma árvore. Sem dúvida, percebemos o mundo de uma maneira bem diferente de um vegetal. Mas no fundo, no íntimo molecular da vida, árvores e nós somos essencialmente idênticos. Consideremos a enorme diversidade de formas  de vida na Terra, todas compartilhando do mesmo planeta e de idêntica biologia molecular.”

Imagem: Pássaros
Ou seja, apesar da diversidade de seres que existem nos mais variados reinos, todos apresentam o mesmo material genético que proporciona o bom funcionamento da vida. Não seria o caso então de revermos antigos conceitos, de fazermos uma limpeza moral, ética e estrutural em nós mesmos? Uma revisão na busca pela verdade que nos faça, de certa maneira, abandonarmos qualquer conhecimento que possa nos trazer o mais leve erro interpretativo, afinal, o biocentrismo já colocou a senciência em dúvida; Seria mesmo ela a última barreira? Será que ainda devemos, como Aristóteles e Descartes, continuar acreditando que a razão é o que nos separa dos demais ou que somente porque pensamos é que existimos? Sabemos que esses mesmos pensamentos culminaram em maior desrespeito pelos animais e que ainda hoje, são os principais responsáveis pelo especismo, afinal, como os animais não possuíam uma linguagem falada significava para Descartes, que também não pensavam, não conseguindo pensar, nada mais seriam do que máquinas insensíveis(9). O que nos leva a notar claramente que muitos hoje possuem essa mesma visão em relação às plantas por elas não “sentirem”, não se locomoverem e não pensarem; mais uma vez repetimos pensamentos antigos em relação a seres que ainda desconhecemos. Fica ainda mais fácil notarmos a comparação ao colocarmos o pensamento de Descartes sobre os animais e posteriormente o compararmos com o que hoje, muitos autores se referem quando tratam do assunto “plantas”.


Para o filósofo, os animais não eram seres auto conscientes, não possuíam faculdades cognitivas ou linguagem inteligível, não possuíam interesse e nem sabiam que existiam no mundo; Descartes por sua vez, evitava usar o termo “animais” para cães, gatos ou macacos, que eram rotulados por ele como “bestas”, que nada mais eram do que seres autômatos mecânicos – embora, como nas plantas, fosse perceptível um “comportamento intencional” como o de buscar comida ou reagir ao perigo – o que causou uma perturbadora implicação no uso dos animais: “Com efeito, no século subsequente ao da morte de Descartes, seus seguidores celebrizaram-se pelo tratamento cruel que davam aos animais no curso da pesquisa experimental em fisiologia; sabemos que o próprio Descartes praticava a vivissecção com aparente serenidade”. (Dicionário Descartes de John Cottingham)

“Parece seguir-se daí que, uma vez que os animais não são coisas pensantes, são eles meras massas de matéria extensa – complexos, é verdade, na organização de suas partes, mas completamente destituídos de qualquer coisa a que se pudesse chamar consciência. A importância da linguagem, como “o único sinal seguro de pensamento interior”, foi salientada por Descartes como crucial evidência da ausência completa de pensamento nos animais. ” (Dicionário Descartes de John Cottingham)

Muitos autores hoje colocam o mesmo sobre as plantas e ensinam veganos e vegetarianos a pensarem assim, o fato de não sabermos como reagem nesse caso parece não ser levado em consideração, elas são consideradas seres desprovidos de qualquer interesse e consciência, o que as torna seres insensíveis e para alguns, inanimados, quase objetos, se antes havia a teoria do animal-máquina, hoje as plantas tomaram esse lugar e se tornaram plantas-máquinas; mesmos pensamentos para outros seres singulares(10). Se antes a razão dividia os seres, hoje a senciência é que ocupa esse lugar, mas então nos surgem novas e novas indagações: se a planta busca o Sol para poder sobreviver, o faz “mecanicamente” ou porque reconhece, de alguma forma, que o Sol lhe é benfazejo? Se “reconhece” é porque seria senciente? Se lhe é possível reconhecer as ameaças a sua sobrevivência, o faz de que modo? Como se comunica, como “sente” essa necessidade de expelir odores ou criar espinhos para se defender? São questões que ainda estão sendo estudadas e que não nos permitem afirmar categoricamente, que sejam realmente seres desprovidos de qualquer sensibilidade.


“Se a capacidade racional, a linguagem conceitual e o pensamento lógico forem critérios morais distintivos, isto é, indicadores de quem é digno de consideração moral, ou não, esses critérios excluem do âmbito da comunidade moral não apenas todas as espécies vivas não-humanas, mas também muitos humanos que não possuem as habilidades típicas, ou que já as perderam, por doença, idade ou acidente. Considerando-se que a ética e a justiça são a expressão máxima da razão humana, norteada pelo princípio da igualdade, a discriminação moral de seres semelhantes, por parte dos humanos, deve ser questionada. ” (Sonia T. Felipe)

“Nem a racionalidade nem a capacidade para sentir prazer e dor me parecem condições necessárias (embora possam ser suficientes) para a consideração moral. (…) Nada menos que a condição de estar vivo me parece um critério plausível e não arbitrário. ” (Kenneth Goodpaster)

O fato de aceitarmos que um ser tão renegado quanto às plantas possa um dia vir a ser respeitado como um ser que busca a vida, nos trará ainda mais força na lua pelos Direitos Animais, já que os animais são seres sencientes, que se movimentam, que fogem da dor, que buscam carinho. Ao aceitarmos que sim, como nos dizem os onívoros, que as plantas sofrem, temos ainda mais força para questioná-los porque então não pararam ainda de explorar os animais, já que possuem plena consciência de que o sofrimento das plantas também é importante e deve ser diminuído até que não mais exista. Esse pensamento de compaixão que eles dizem possuir pelas plantas seria ainda mais benéfico em relação aos animais, o que os deixaria numa posição muito incômoda afinal, a preocupação com as plantas requer um grau de sensibilidade ainda maior do que aquele que temos em relação aos animais.


Assim como coloquei no ensaio anterior sobre as plantas, sabemos que no momento devemos praticar a velha frase que nos diz: “Dos males o menor”. Somente essa frase bastaria para vencer esse argumento. O animal sofre, eu vejo, a planta eu ainda “imagino”, mas é com certeza um salto gigantesco passarmos direto do onivorismo para o biocentrismo e como estamos aprendendo a cada dia, nos moralizando a cada dia, do onivorismo passamos para o vegetarianismo e/ou para veganismo e um dia, quem pode dizer quando, para o Biocentrismo, o certo é que, no momento no qual nos encontramos devemos sempre nos questionar: diante de nossos olhos de aprendizes da harmonia com o Planeta e com os seres que nele vivem, qual sensibilidade nos toca mais? As Plantas sofrem? Claro, porque criam mecanismos de defesas contra doenças que, de algum modo elas “sabem”, poderiam matá-las. E os animais, não sofrem? Fazemos o primário antes da faculdade ou fazemos a faculdade antes do primário? Se já somos biocêntricos é porque já passamos pela fase do veganismo, não há qualquer outra saída para essa questão.


Na verdade o argumento das plantas é a fuga mais fraca que pode ser usada contra os veganos, não há porque temer tal questão, ela só rebaixa mais a pessoa que pergunta do que o vegano que luta por uma ética melhor, não há porque alegar sobre SNV (Sistema Nervoso Central), sinapses, sobre a dor que podem ou não sentir, sobre lóbulos ou córtex cerebrais, nem sua individualidade ou racionalidade de escolher o que desejam, o Biocentrismo derruba tudo isso quando coloca a Vida, como “Bem primordial”, e se somos capazes de pensar nos animais, pensaremos um dia nas plantas e se eles se preocupam mesmo com as plantas ao questionarem sobre elas a um vegano, nada mais provam do que sua total ignorância sobre o assunto. Não é possível ter compaixão pelas das plantas e continuar devorando animais, isso sim é irracional.


Talvez agora ainda não possamos defender o biocentrismo com o mesmo grau de força com que lutamos pelos Direitos Animais, embora haja quem já o defenda, mas com certeza ele não deve ser um assunto que deva permanecer escondido, aguardando o momento certo para aparecer, ele pode ser discutido, ampliado, estudado de forma a que, quando chegue sua hora, não tenhamos que nos debater novamente sobre antigas questões como razão, sensibilidade, senciência, porque as barreiras que erguermos hoje contra as plantas, seguramente um dia terão que ser derrubadas por aqueles que virão depois de nós.


Flor
Um degrau de cada vez todos subiremos ao topo da harmonia planetária e, assim como ocorre hoje com a abolição animal, sabemos que o Biocentrismo vai acontecer, e tal como está sendo difícil propagar pelo Planeta o fim da crueldade contra os animais, será difícil fazer o mesmo em relação às plantas, o que não podemos é fechar os olhos e estacionarmos na abolição animal como se ela fosse a última barreira a ser quebrada, porque estamos igualmente em evolução e caminhar por essa trilha pedregosa chamada ética, será sempre nosso objetivo. A intenção agora é fazer surgir na mente de cada um, uma nova reflexão que nos leve a questionar quais seriam as reais condições para que qualquer espécie possa ou não ser incluída em nossa comunidade moral, o objetivo não é se vamos ou não levantar a bandeira de uma ética Biocêntrica, mas impedir que as portas se fechem para ela bem como para qualquer um dos seres sésseis. Talvez ainda não tenhamos alcançado o biocentrismo, mas alcançaremos, assim como todos um dia alcançarão o veganismo, é assim que caminhamos sem nunca parar. O Biocentrismo virá para nós assim como o veganismo para os onívoros, talvez não seja o caso de lutarmos agora, talvez seja, quem pode dizer, pois sabemos que é preciso vencer uma guerra de cada vez, talvez também não seja o caso de nos incomodarmos tanto com quem questiona sobre as plantas, porque sabemos que é o medo da mudança que os faz agir assim e questionarem sobre coisas as quais eles desconhecem, sabemos que eles não querem ouvir a verdade sobre o que fazem e que não possuem outra munição a não ser os velhos chavões de sempre, para eles a vida dos animais é insignificante, tanto quanto a vida das plantas, afinal, basta questioná-los: eles são biocêntricos? São sim, seres antropocêntricos, que não conseguiram ainda reverenciar a Natureza, acham-se acima dela, sem contudo saberem que quando a destruírem, farão isso a eles e aos seus.


“Se a vida, a liberdade e a vulnerabilidade são critérios morais relevantes, e, se o sujeito moral deve considerar os sujeitos dessas características merecedores de apreço moral, suas decisões, projetos, ações e interações não podem violar nem prejudicar sujeitos vivos, livres e vulneráveis, pois essas características incluem no âmbito da comunidade moral todos os que as possuem, ainda que apenas na condição de pacientes e não de agentes morais” (Paul Taylor).

Imagem: Fungos
Se as plantas são agentes morais ou pacientes morais, se temos deveres morais ou não com elas, talvez ainda seja cedo para sabermos, já que a grande maioria do rebanho social precisa ainda aceitar que os animais devem sim, ser incluídos em nossa comunidade moral, porém o que deve ficar claro é que elas não podem, mais adiante, ficar fora dessa discussão, nem podem ser comparadas com objetos que nada sentem e nada buscam, elas estão vivas e possuem algo que as impele a lutar pela sobrevivência, se é algum tipo de consciência ou senciência, só o tempo nos dirá; o que devemos como abolicionistas, é jamais erguer barreiras mecanicistas porque sabemos hoje, o que tal atitude no passado, nos acarretou: o total desrespeito pelos animais. Devemos nos guiar, ao menos nesse primeiro momento, pelo princípio de nos alimentarmos de forma a causar o mínimo sofrimento possível, o que significa evitar a matança de animais e seres de consciência mais desenvolvida. Não repetir os mesmo erros é tornar o futuro um campo aberto para a moralidade e a ética da humanidade. Esse com certeza é o maior de todos os desafios da ética. 




Referências Bibliográficas


DESCARTES, René- Discurso do Método / Meditações

FELIPE, Sonia T. – Da Considerabilidade Moral dos Seres Vivos: A Bioética Ambiental de Kenneth E. Goodpaster 


ARANTES, Tadeu – A mente oculta das plantas. A ciência descobre o surpreendente domínio da consciência vegetal- Disponível em http: //galileu. globo. com/edic/98/conhecimento5. htm

SINGER, Peter – Ética Prática / Vida Ética 

RAVEN, P. H. ; EVERT, R. F. ; EICHHORN, S. E. – Biologia Vegetal. – 7º. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2007

COTTINGHAM, John – DICIONÁRIO DESCARTES – Jorge Zahar Editor – RJ

PINHEIRO, Márcia. – A defesa das plantas contra doenças- Laboratório de genética Molecular Vegetal – Depto de Genética.

SCHULTE, Neide Köhler – Da estética a ética ambiental Biocêntrica 

SAGAN, Carl – Ligações Cósmicas 

Entrevista de M. Night Shyamalan à George Musser, da Scientific American; Disponível em: http: //www2. uol. com. br/sciam/artigos/eu_vejo_pessoas_condenadas_imprimir. html


Agradecimento especial ao amigo Giridhari Das.


Notas

1 Texto original em http: //www. uniblog. com. br/conscienciahumana/149874/reflexoes-sobre-a-atribuicao-da-sensibilidade-as-plantas. html

2 Biocentrismo, é uma ética que tira dos animais humanos toda sua falsa superioridade, colocando-os como iguais diante de qualquer ser que busque sobreviver, que busque a vida; um ponto de equilíbrio entre todos os seres vivos.

3 Entretanto, têm uma característica que as distingue desses seres – são autotróficas. Autotróficos são aqueles que produzem o próprio alimento pelo processo da fotossíntese.

4 Organismos que não possuem capacidade de se locomoverem, vivendo presos a qualquer substrato, foram durante muito tempo, interpretados erroneamente, como se tais organismos não pudessem, de forma alguma, reagir a agentes externos, sendo que é possível as plantas reagirem a insetos e a outras plantas.

5 Barreiras químicas são as toxinas que uma grande variedade de plantas possuem, um exemplo seria a citronela que espanta os insetos, já as barreiras físicas, como veremos, são os espinhos, as ceras, a espessura das folhas, que as impeçam de serem devoradas.

6 Fitolalexinas são conhecidas como substâncias repelentes produzidas pelas plantas, possuem inibidores contra fungos e são tóxicos para animais.

7 Nota-se aqui a planta não necessita ser senciente para reagir diante daquilo a qual se sente ameaçada, nem necessita dela para sobreviver como tem sido colocado por algumas pessoas. Embora as plantas não possam fugir, “criam” mecanismos para afastar os agentes agressores, o fato de não poderem se mover não as torna menos insensíveis a agentes externos, e não podemos desta feita, sair alegando que algo que não conhecemos não possui interesse quando vemos, que cria sozinha, mecanismos de defesa; não se pode julgar aquilo que não se compreende. Como ocorre tal mecanismo, é a questão não esclarecida pela ciência ainda, e que nos leva também a imaginar o porque de, mesmo desconhecendo a verdade, afirmarmos que elas não merecem nenhuma consideração que não seja a mesma com a qual julgávamos os animais há anos atrás, ou seja: Matar um animal ou arrancar uma árvore, qualquer dos dois atos fará mal a mim ou não? Não importando nesse caso, se fará mal à eles.

8 Segundo Paul Taylor, deve ser atribuído apenas a entidades possuidoras de bem próprio, seu reconhecimento é declarado de dois modos: independentemente de uma entidade ser valorizada de forma intrínseca ou instrumental, por algum avaliador humano; independentemente de uma entidade ser de fato útil para a busca da realização do bem de algum outro ser, humano ou não-humano, consciente ou não-consciente. Portanto, na teoria de Taylor, se um ser vivo possui bem inerente, este possui tal valor independentemente de qualquer valor instrumental ou inerente, e sem referência ao bem de qualquer outro ser. Se considerarmos as pessoas como possuidoras de bem inerente, então todas elas possuem o mesmo valor, sendo que é a personalidade a base de seu valor. É possível estabelecer a verdade da afirmação, de que uma pessoa possui bem inerente, ao mostrar que apenas esta forma de considerar as pessoas é coerente com a concepção de toda pessoa, como um ser racional, valorizado um centro autônomo de vida consciente. O mesmo tipo de argumento, segundo Taylor, também sustenta a afirmação de que todos os animais e plantas, no mundo natural, possuem bem inerente. ( Neide Köhler Schulte- Da estética a ética ambiental biocêntrica)

9 O Cogito (Penso, logo existo) não demonstrava, contudo, que os animais não eram seres vivos, tal como ninguém hoje descarta que as plantas o sejam, porém que os animais nada mais eram do que “vidas” ligadas a processos de natureza puramente mecânicos, assim como muitos acreditam que hoje, as plantas o sejam.

10 Talvez uma das maiores singularidades entre nós e as plantas seja o fato de que, tanto elas quanto os, animais, serem seres pluricelulares: “Os vários sistemas ou aparelhos – como o circulatório, o respiratório, o esquelético, etc. – constituem o organismo. São organismos: um pé de alface, uma laranjeira, um lobo ou uma ameba. No caso da ameba, que é unicelular, não encontraremos todos os níveis de organização, visto que, não existem tecidos, órgãos ou sistemas.





Simone Nardi




Leia também: 

REFLEXÕES SOBRE A ATRIBUIÇÃO DA SENSIBILIDADE AS PLANTAS

 

 

 



Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Descartes – “A razão sem razão[1]” – Crítica ao automatismo animal

“O Homem não é o único animal que pensa!
É o único animal que pensa, que não é animal.”
(Pascal)



Penso, então existo – Je pense, donc je suis –  para pensar é preciso primeiro existir; este era o princípio de toda a filosofia racional de René Descartes. Para ele, o conhecimento era algo incontestável, e ele desenvolveu seu método baseado numa dúvida metodológica de onde se partia do duvidoso, para se atingir o “conhecimento” e a “verdade”. Em sua busca rumo à “sua verdade”, tanto em seu “Discurso do Método” como em “Meditações Metafísicas” ele, de certa forma, exige que abandonemos todo o conhecimento que obtivemos até então e sobre os quais poderíamos levantar qualquer questão ou qualquer dúvida, principalmente as que fossem ligadas a parte da sensibilidade – os sentidos nos enganam, pois podemos pensar as mesmas coisas, estejamos acordados ou dormindo -.

Desta forma, segundo Descartes, não podemos aceitar nada que não seja evidente, nada que nos traga qualquer sinal de dúvida, será preciso reanalisar os problemas, estudá-los como se fossem vistos pela primeira vez, partindo da parte mais simples para a mais complexa; essa toda a base que o filosofo defendia, uma base racionalista. Seu objetivo principal era encontrar fundamentos para todo o conhecimento, sendo que seu método buscava as causas primeiras, por isso a “reforma” do conhecimento a partir de bases, para ele, mais sólidas. Através dessa metodologia, Descartes chegaria ao cogito Penso, Logo existo, que lhe permitiu discernir as ideias verdadeiras das falsas:

(…) percebi que, enquanto eu queria pensar assim que tudo era falso, convinha necessariamente que eu,que pensava, fosse alguma coisa. Ao notar que essa verdade, penso, logo existo, era tão sólida e tão correta que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de abalá-la, julguei que podia acatá-la sem escrúpulo como o primeiro princípio da filosofia que eu procurava. (Discurso do Método)

Após aceitar o cogito como ideia clara e irrefutável, Descartes necessitava de outra garantia, um “outro” alicerce onde pudesse construir e estruturar sua teoria, e encontrou esse alicerce na prova da existência de Deus. Todo o conhecimento de Descartes que o levou ao Cogito “Penso, logo existo”, ou seja, para poder existir como SER era necessário pensar, e desse racionalismo cartesiano, nasceu um problema que durante anos, e ainda hoje, tem causado inúmeros tormentos aos animais. Encontramos uma descrição desses problemas causados pela razão cartesiana no dicionário Descartes de John Cottingham:

“Com efeito, no século subsequente ao da morte de Descartes, seus seguidores celebrizaram-se pelo tratamento cruel que davam aos animais no curso da pesquisa experimental em fisiologia; sabemos que o próprio Descartes praticava a vivissecção com aparente serenidade”.

Ao separar a alma do corpo, Descartes chegou a conclusão, segundo ele racional, de que o pensamento sim era a essência da alma, sua razão então o levou a dizer que tudo o que não possuísse alma e uma linguagem inteligível, seria autômato. Sendo estes corpos desprovidos de pensamentos racionais nada poderiam sentir, e essa linha de pensamento foi o que o fez dizer que os animais – para ele irracionais, desprovidos de uma alma e de linguagem intelegível – não passariam de máquinas, já que para o filósofo a linguagem era a prova de que um ser é capaz de pensar, ter uma alma e sentir ; podemos notar aqui seu inegável antropocentrismo, ao colocar que a linguagem utilizada pelos animais para se comunicarem é apenas um sistema “fechado”, o qual o homem não compreende e por não compreender o desconsidera, ou seja, mais uma vez é escolhido apenas o Ser social, aquele que se relaciona com outros iguais a ele através de palavras e gestos, mas que não consegue se relacionar bem com o Planeta onde vive nem com as criaturas com as quais divide esse pequeno espaço. Os animais, não fazendo parte desse pequeno círculo social da fala, na visão racionalista de Descartes, igualmente não pensavam e não pensando, não passavam de corpos mecânicos. Havia algo inconstante no pensamento cartesiano, pois ele alegava que apesar serem, seres não pensantes e desprovidos de linguagem, não deixavam, contudo, de ter “vida” e uma determinada “sensibilidade”, que ele equiparava com alguns fenômenos inteiramente físicos. Para ele os “movimentos” e “gestos” dos animais eram processos mecânicos, totalmente materiais e desprovidos, devido a isso, de qualquer sensibilidade e autoconsciência, para ele não importava o que fosse animal ou vegetal, todos eram seres autômatos.

Vejamos a razão de Descartes para onde o levou, e aos seus seguidores:

• 1-Os animais não possuem uma linguagem inteligível que seja universal
• 2-Os animais não possuem consciência de si mesmos nem do mundo que os cerca – nem tampouco faculdades cognitivas
• 3-Não pensam, sendo assim não possuem alma, seus corpos se movem de forma mecânica e eles buscam alimentos tal como a carroça necessita de graxa ou um relógio necessita de corda, sendo assim não são mais ou menos sensíveis que estes
• 4-Não há qualquer necessidade de ética para com eles

Muitos mergulharam nessa teoria deixando a verdadeira Razão e o Conhecimento de lado, pois não notaram que ela deixava muitas questões em aberto em relação à sensibilidade animal:

• 1-Qual a certeza que poderia levar alguém a atestar que um animal não possuía alma?
• 2-Como ele poderia explicar a diferença existente entre um ser vivo , ou seja o animal, de algo sem vida , que seria o relógio, para com o qual Descartes comparava os animais?
• 3-Como explicar que a sensibilidade – nesse caso corporal- provenha unicamente do ato de pensar?
• 4-Por que a linguagem deveria ser a linha divisória entre um ser senciente e outro, para ele, desprovido de senciência?

A serenidade com a qual tanto Descartes quanto seus seguidores abriram animais vivos sem qualquer preocupação com o que poderiam ou não sentir, demonstrou claramente que nosso ego sobre o nosso “conhecimento” torna-se algo muito perigoso quando usado sem a Razão; tal conhecimento ou pseudo-conhecimento, pode nos fazer enveredar por caminhos que acabem por causar mais mal do que bem, e temos que ter dentro de nós que a Filosofia aliada a Ciência, em meio a tudo que faz, precisa ser a condutora do Bem, jamais o contrário. Não importa apenas saber se o conhecimento é possível ou não, o importante é direcioná-lo bem, não importa apenas se o homem atingirá a plena Razão, mas sim o que fará com ela se porventura vier a atingi-la, por isso a necessidade do uso correto da Razão com o auxilio da sensibilidade e da ética, diante de qualquer conhecimento.

Ainda hoje assistimos a uma imensa legião de seguidores cartesianos que acreditam que os animais, por não possuírem uma linguagem social compreensível a nossa, são inferiores e devam, segundo a razão deles, serem usados em experimentos sem qualquer escrúpulo, e vamos esclarecer aqui, que nem a analgesia é desculpa para que se permita o uso de animais em experimentos.. Hoje a própria ciência quebra seus paradigmas ao dizer que o número de neurônios do cérebro humano são compatíveis com os de um primata de nosso porte . O que isso prova? Prova que somos todos primatas, desde o animal que é ignorado e usado como cobaia, até o vivissector que se orgulha do que faz, não há como escapar, somos todos primatas, só que com uma diferença : nós, os primatas-humanos não somos capazes de nos respeitar como seres vivos.

Não importa aí se nosso cérebro tem um tamanho significativamente maior ou não, “o cérebro humano continua sendo o cérebro de um primata em escala maior”, diante disso demonstramos que não somos especiais, que não somos seres a parte na criação.

Imagem: Filhote de cão
É preciso realmente que partamos da dúvida para alcançar a verdade, não podemos mais viver presos a antigos paradigmas que não se sustentam a não ser através de mentiras, pois a própria ciência hoje nos aproxima dos animais, exigindo que tomemos uma postura Ética diante de tanto sofrimento, se não o fazemos é somente por vaidade e orgulho:

Perguntem aos vivissectores por que fazem experiências em animais, e a resposta é: “Porque os animais são como nós”. Perguntem aos vivissectores por que é moralmente correto fazer experiências em animais, e a resposta é: “Porque os animais não são como nós”. A experimentação animal se assenta numa contradição lógica.
Charles R. Magel


Diante dessa anomalia lógica, criada pela própria incoerência humana, qualquer conhecimento a respeito da senciência animal que não leve em consideração seu sofrimento, é colocado em dúvida, e faz surgir daí, novas anomalias. Os animais sofrem?Somos ou não iguais aos animais?Poderíamos levantar uma centena de questões, mas vamos relembrar algumas palavras de Voltaire, um discurso longo, mas que se encaixa perfeitamente ainda hoje, dentro do campo científico e filosófico, e que nos mostra quantas anomalias a ciência de hoje ainda precisa investigar, repensar e mudar seus paradigmas:

” Os filósofos dizem-me: Não vos enganeis, o homem é inteiramente diferente dos outros animais, tem uma alma espiritual e imortal (…). Escuto esses mestres e lhes respondo, sempre desconfiando de mim mesmo, mas nem por isso confiando neles. Se o homem tem uma alma, tal como assegurais, devo crer que este cão e esta toupeira têm uma semelhante. Todos me juram que não. Pergunto-lhes qual a diferença que existe entre este cão e eles. Uns respondem este cão é uma forma substancial; outros me dizem: Não acrediteis nisso, as formas substanciais são quimeras; este cão é uma maquina como uma manivela. Pergunto ainda aos inventores das formas substanciais o que entendem por essa expressão, e como só me respondem com galimatias, volto-me para os inventores das manivelas e lhes digo: se estes animais são puras maquinas, certamente sereis em comparação com eles, apenas como um relógio de repetição em comparação com a manivela que falais; ou, se tendes a honra de possuir uma alma espiritual, os animais terão uma também, pois são tudo o que vós sois. Possuem os mesmos órgãos com os quais tendes sensações, e se não lhes servirem para a mesma finalidade, dando-lhes tais órgãos Deus terá feito uma obra inútil.”

E nos lembramos que Descartes apoiou seu cogito na ideia da existência de um ser perfeito que seria Deus, sendo assim como poderia Ele, errar tanto em relação aos animais?Mas Voltaire continua, trazendo um pouco mais de luz as mentes sem “razão”:

“Mas de acordo com vossa própria opinião, Deus nada faz em vão. Escolhei, portanto: ou atribuís uma alma espiritual a uma pulga, a um verme, a um bicho do queijo, ou sois autômato como eles. (…) Portanto, esses órgãos dos sentidos são dados apenas para o sentimento, donde se conclui que os animais sentem como nós e, assim, só um excesso de vaidade ridícula pode levar os homens a se atribuírem uma alma de uma espécie diferente daquela que anima os brutos.”

Só um excesso de vaidade ridícula pode permitir que a ciência permaneça acomodada onde está, nesse modelo atual de matar para conhecer, nessa ciência de morte e não de vida.

Partamos então do duvidoso e do que nos é já é mais do que evidente; Antes acreditávamos que os animais eram diferentes de nós, e que era “ético” usá-los em experimentações, porém, os inúmeros estudos, levantaram inúmeras anomalias que nos obrigaram a mudar esses antigos paradigmas e hoje, reconhecendo que os animais são iguais a nós, reconhecendo que sofrem, torna-se totalmente antiético qualquer método que lhes inflija sofrimento, qualquer método que a nós, primatas humanos cause desconforto, também não poderá ser exercido sobre eles. Temos o conhecimento de sua senciência, temos o reconhecimento de seus neurônios, de seu DNA e a cada conquista que a ciência faz em seu campo, mais e mais ela mesma nos aproxima desses animais, tantas anomalias assim obrigam a ciência a se revolucionar, a buscar e a encontrar outros caminhos, a realmente se humanizar. É impossível a continuidade dessa contradição lógica sobre o qual a ciência caminha, ela não pode mais se calar e fechar seus olhos para essas anomalias que surgem a cada dia, anomalias que ela mesmo levanta e tenta esconder .

A Filosofia não quer tomar o lugar da Ciência, seu trabalho é apenas o de contestar, o de apontar as anomalias, de mostrar que elas existem e que urge essa mudança de paradigma, o trabalho filosófico é o de criar um senso crítico de modo a levar os seres humanos a eticidade e a moralidade. Somente exercendo verdadeiramente seu papel, é que tanto a Filosofia quanto a Ciência encontrarão seus verdadeiros Ethos, um Ethos de vida e não mais de morte. As anomalias existem, cabe aos primatas humanos agora, no uso de sua Razão, encontrar caminhos que Revolucionem não apenas o campo científico, mas a Razão humana, no trato com os animais não-humanos.


 
Simone Nardi






Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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