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sexta-feira, 9 de junho de 2017

Por amor aos animais: Ética cristã, ação consistente


Animal de rua

Charles Camosy, professor assistente de ética cristã na Universidade de Fordham (EUA). Camosy gentilmente respondeu a algumas perguntas sobre seu último livro“For Love of Animals: Christian Ethics, Consistent Action” [Por amor aos animais: Ética cristã, ação consistente].
Camosy publicou artigos na Revista Americana de Bioética, na Revista de Medicina e Filosofia, na Revista da Associação Católica de Saúde, dos Estados Unidos, além de colunas nos jornais San Francisco Chronicle e Washington Post, e na Revista Commonweal.

Seus outros dois livros são “Too Expensive to Treat? Finitude, Tragedy, and the Neonatal ICU [Muito caro para tratar? Finitude, tragédia e UTI neonatal] (Eerdmans), premiado em 2011 pela Catholic Media Association (EUA) e “Peter Singer and Christian Ethics: Beyond Polarization” [Peter Singer e a ética cristã: Além da polarização] (Cambridge), aclamado como o “melhor livro” de 2012 pela ABC Religion and Ethics.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Alimentação e Evolução Espiritual


Este é o excelente livro do Professor Edson Siqueira, us estudo profundo acerca da relação existente entre a alimentação e a nossa evolução espiritual, que é o grande objetivo da vida.

Sua análise nos levará a entender que a prática dos ensinamentos Espíritas, nos conduzirá, inevitavelmente, a transformar nossa forma de alimentação, ditando nossa responsabilidade diante da vida.






Para Adquirir:


Editora Solidum




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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Educação: vias e desvios que contribuem para a ignorância do sofrimento animal

Imagem: Experimento de Pavlov


A Indústria Cultural impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente
T. Adorno






Obrigatoriamente, todos os alunos que se formam em Licenciatura, ao menos dentro da disciplina de Filosofia, cedo ou tarde terão aula de Psicologia da Educação, aulas estas que visam demonstrar como o docente poderá conseguir aproximar-se dos alunos e ensinar-lhes o que deseja do modo mais simples, aprimorando sua educação de forma a levar os alunos a conquista de sua liberdade e de sua autonomia. Seu propósito fundamental é apresentar opções que possam levar a uma prática educativa mais dinâmica. O propósito, tecnicamente é este, a questão é: isso ocorre sempre na prática diária da docência?

Não vou generalizar aqui os educadores , nem condenar a psicologia, apenas tentar demonstrar o que uma determinada ideologia pode causar a uma turma inteira de Filosofia.

Nossa primeira aula sobre Psicologia da Educação tratou dos condicionamentos , dos reforços positivos e negativos. Embora seja triste, é preciso admitir que poucos são os docentes preparados para ter em sala de aula, alunos com uma visão diferente da tradicional; alunos que estejam envolvidos com a causa animal, alunos questionadores que irão contra argumentar sobre o que foi dito ou feito em relação à experimentação animal.

O caso que mais chamou a atenção e que me levou a escrever este artigo, foi a explicação velada, omissa e apreciativa de como Anton Pavlov descobriu que o condicionamento, com reforços positivos ou negativos , pode auxiliar os seres humanos.

Num discurso leve e apaixonado o professor nos mostrou a beleza da experimentação animal, apenas “afastando” a comida dos cães para deixá-los com fome, vindo após isso com a refeição para que eles fossem, aos poucos, condicionados aquilo a que o experimentador desejava. Segundo nos foi explicado, Pavlov “amarrava tubinhos de vidro” aos focinhos dos animais para recolher a saliva, dito de tal modo parecia não haver qualquer traço de maus-tratos em sua importante experimentação, ao contrário, a narrativa soou até mesmo prazerosa para aqueles colegas que desconheciam a verdade sobre a experimentação de Pavlov.

Até que um aluno fez uma objeção, lançando uma pergunta no ar, afinal questionar para des-velar é o trabalho da Filosofia: “A psicologia a serviço da barbárie, da dominação?” . 


Teve início então um ligeiro debate sobre a condução do discurso, foi quando se descobriu que nem todos os alunos se comportam como o professor deseja.

Pavlo e o cão cobaia
Porque os experimentos que ainda hoje são feitos com animais em algumas faculdades de psicologia para demonstrar certos comportamentos, não conseguem perceber que , psicologicamente, a privação da liberdade por si mesma já interfere no comportamento do animal (vide animal senciente que sente medo e dor) tal como os seres humanos que os utilizam: psicologicamente, a uma pessoa normal, seria impossível torturar um animal a não ser pelo método da dessenssibilização, muito utilizada pelos professores que são a favor da experimentação animal. 
Como concordar com disciplinas que se apoiam numa contradição apontada por Charles Magel?

“Pergunte aos vivisseccionistas por que eles experimentam em animais e eles responderão: ‘Porque os animais são como nós’. Pergunte aos vivisseccionistas por que é moralmente possível experimentar em animais e eles responderão: ‘Porque animais não são como nós’. A Experimentação animal apoia-se em contradição de lógica”.

Como  tratá-las? Antiéticas e nocivas? Meus alunos não podem ser cobaias, mas posso mostrar a eles que podem matar outros seres vivos para testarem suas teorias em seus pacientes?  Como aceitar, como graduandos em Filosofia, um ramo disciplinar que vá contra os conceitos éticos nos quais a Filosofia tenta se fundamentar? Se tal disciplina, muitas vezes, alegando fazer o bem, inicia fazendo o mal...

Como ver algo de bom na tortura de animais quando a própria Ciência demonstrou que os não-humanos são sencientes, se a própria Ciência admite que eles são iguais a nós? E voltou-se então ao questionamento do aluno: Será a disciplina que se apoia na experimentação ou o professor que vê nisso uma coisa ética , ou serão ambos amigos barbárie e da dominação, fazendo com que muitos, como já dissemos, de degradem pelo caminho? Temos que admitir que a visão da morte sem sentido e sem sensibilidade é uma das causas do desrespeito para com as pessoas e não somente para com os animais. 

Da barbárie contra animais à barbárie para com os seres humanos há um véu muito fino.Isso em todos os ramos e disciplinas que apresentam a vivissecção invasiva ou não(a medicina e seu descaso com as pessoas tem sido observada todos os dias) é uma parte da "psicologia vivisseccionista" em ação, a retirada da sensibilidade dos alunos por meio de recompensas e castigos. E chegamos à outra questão também interessante que começou a borbulhar na mente de alguns alunos não envolvidos com a causa animal : “Se não havia implicações dolorosas, por que Pavlov não utilizou pessoas ao invés de cães, afinal, a psicologia era feita para seres humanos.

Confesso que o mais estranho foi realmente o tratamento, o floreio utilizado pelos professores ao tratarem desse assunto, tão simples e romântico como se fosse a coisa mais limpa e ética do mundo.

É preciso nos lembrar que somos humanos e não apenas uma massa de manipulação, essa domesticação imposta nos torna insensíveis, não apenas em relação ao sofrimento dos animais, mas nos torna indiferentes a tudo que deveria nos indignar.Somos treinados a acreditar que tudo é *“assim mesmo”, que tudo é “normal” e que anormal é aquele que pensar o contrário.

Mas os alunos nem sempre se comportam como o esperado e alguns conseguem enxergar a alienação em que podem ser envolvidos se, se mantiverem calados dentro das salas acadêmicas.

A contra argumentação nos dizia que havia inúmeros outros projetos de Ciência no mundo e que a psicologia necessitava ancorar-se em um modelo ou paradigma onde pudesse “controlar” seu objeto de estudo, afim de conseguir prever “situações nas quais o "fenômeno" tem maior probabilidade de ocorrer”, entendeu-se que as psicologias que não usassem esse modelo teriam, por força do cientificismo, uma dificuldade muito maior de se firmarem no cenário acadêmico, já que não poderia ser validado, já que tendemos a acreditar naqueles que nos demonstram dados quantitativos.

Mas ecoava em alguns cérebros mais “rebeldes” o que nos havia sido narrado sobre as experimentações nos cães, de forma a se firmar cientificamente a ideia do experimentador e claramente ficou des-velada a omissão de muitos detalhes que poderiam ser igualmente  preciosos a uma turma de Filosofia: Como realmente a saliva havia sido coletada? Por quanto tempo os cães haviam ficado sem comer e o que havia sido feito com eles após a experimentação? Qualquer coisa que, coerentemente, pudesse fornecer aos discentes a escolha de julgarem se o ato era correto ou não, se era ético ou não, se era válido ou não.
“Tendemos a acreditar naqueles que nos demonstram dados quantitativos”.

E foi exatamente isso o que ocorreu quando se tornou claro, pela voz de um aluno, o que Pavlov realmente fizera .

Pavlov, cão e vivissecssionistas
Pavlov não amarrava tubinhos de vidro aos pescoços ou focinhos dos cães e não os deixava passar fome simplesmente abstendo-se de dar-lhes comida. O que foi omitido de uma turma de Filosofia questionadora foi o conhecido Estômago de Pavlov  onde  cirurgicamente, o pescoço dos cães e seu esôfago eram abertos, de tal forma que qualquer alimento que o cão ingerisse cairia para fora de seu corpo por essa abertura, deixando o cão infinitamente faminto e salivante. 

Por mais que abocanhasse a comida, ele nunca deixaria de ter fome porque a comida não seguiria para seu estômago, sua fome jamais seria aliviada, ao contrário, aumentaria  cada vez mais assim como sua salivação, pois o que o fazia  salivar era o cheiro do alimento e a fome, cada dia maior.Tudo para observar os estímulos e o condicionamento psicológico.Lembrando que o cão fazia festa quando lhe traziam o alimento. 

Cão de Pavlov com tubo para coleta
Toda saliva coletada dos cães era feita através de perfurações e não de tubinhos de vidro ,por onde passavam-se sondas coletoras, jamais pela boca do animal.

Numa coisa  nosso docente tinha acertado, era realmente preciso conhecer as pesquisas em psicologia que apresentam o ser humano naquilo que ele tem de típico e, em muitos dos tratamentos ministrados aos animais de laboratório é possível notar muitas coisas.

Será mesmo que temos que perseverar nesse modelo, nessa aceitação da “verdade” por quem traz dados qualitativos ou devemos procurar conhecer o que pode nos ter sido acobertado?

Uma coisa é mesmo certa, a “ Atitude Crítica é Fundamental” para que não sejamos dominados ou dessenssibilizados em nossa caminhada rumo ao conhecimento, já que pudemos descobrir em uma única aula, o carinhoso e gentil Pavlov que dominava seus cães com violência, regido pelo paradigma de que eles são inferiores.

 
Furo na traqueia e no estômago do cão de Pavlov
É preciso acordamos desse sono  e tirar a “beleza” que muitos colocam na imagem da experimentação animal, mostrando a verdadeira face que abusa de corpos de seres sencientes e desprovidos de qualquer estatuto moral.















Simone Nardi





Frase
* Antonio Simões, Graduado e Pós Graduado em Filosofia e Ciências Sociais




Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.







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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vivissecção:mal necessário?

Baseada em uma visão positivista e pragmática, a ciência utiliza animais como cobaia de experimentos. Mas será que não é mesmo possível utilizar métodos alternativos que não sacrifiquem e maltratem seres vivos?



Por João Epifânio Regis Lima*



 
Shutterstock

Por vivissecção entendemos o uso de animais vivos como cobaias em laboratórios de pesquisa biológica ou biomédica. Animais vêm sendo utilizados como cobaias em investigações e explorações sobre a natureza há muito tempo. Sabemos, por exemplo, que Aristóteles observou e dissecou cadáveres de animais e lemos algumas das conclusões por ele obtidas em sua História dos Animais ou em Partes dos Animais ou em seus textos sobre o Movimento dos Animais, a Progressão dos Animais e a Geração dos Animais. Sabemos também dessa prática, já no Renascimento, associada aos estudos de anatomia de Andrea Vesalius
ou mesmo de Leonardo da Vinci, em um momento em que a valorização do experimento preparava a revolução científica do século 17. O passo decisivo, entretanto, para que a vivissecção assumisse a importância que hoje em dia lhe é atribuída no meio científico foi dado pelo fisiologista francês aClaude Bernard (1813-1878) em sua Introdução ao Estudo da Medicina Experimental, publicada em 1865. Claude Bernard é considerado o pai da moderna fisiologia experimental e o que fez para receber tal homenagem foi justamente tratar a vivissecção como parte indispensável do método experimental nas ciências biomédicas.


Shutterstock

Questionamento
Entretanto, o quadro apresentado acima, muito lido simplesmente como mais um capítulo enfadonho da história da ciência (deveríamos dizer "histórias das ciências"), suscita questionamentos importantes quando examinado mais atentamente. Considere-se, por exemplo, que a filha e a esposa de Claude Bernard, após o abandonarem, fundaram a primeira sociedade antivivisseccionista francesa, em reação aos horrores que presenciavam em sua própria casa. Bernard mantinha um laboratório e um biotério nos porões de sua residência, de onde se podia ouvir, dia e noite, os gritos desesperados dos animais que eram ali diariamente torturados. É importante saber que se estima que em apenas 15% dos experimentos envolvendo animais vivos é utilizado algum tipo de anestesia nos dias de hoje (WERMUS, 1984). No tempo de Bernard, esse número era certamente menor. Era comum entre os vivisseccionistas da época - e ainda é hoje em dia - uma concepção mecanicista acerca da natureza que, no caso específico das ciências biomédicas, confundia mecanismo com organismo
Segundo essa concepção, os seres vivos são considerados máquinas que obedecem apenas a leis mecânicas e que são incapazes de sentir dor. Essa ideia deriva da distinção entre corpo e alma proposta por Descartes, mas não sem lhe fazer injustiça. A injustiça vem da confusão que aqui se opera entre distinção e separação. Corpo e alma são substâncias distintas, diz Descartes nas Meditações e em As paixões da alma, mas inseparáveis.
A analogia, adotada por Claude Bernard, entre o grito do animal que sofre e o ranger das engrenagens de uma máquina explica-se - mas não se justifica - pela consideração unilateral e parcial do composto corpo-alma cartesiano. Deriva da atenção que se detém nas características do corpo segundo o que nos apresenta Descartes, mas esquece a unidade indissociável entre o corpo e a alma. Se tivermos, portanto, que pensar uma medicina cartesiana, será necessário pensar uma medicina psicossomática e não puramente mecanicista como aquela implicada no modelo assumido por Bernard.


"A concepção materialista acerca dos animais que os vê como meras máquinas bioquímicas, animais sem anima, incapazes de sofrer, inserese no contexto do desencantamento do mundo moderno"

Reducionismo Bioquímico
O mecanicismo que impregna a concepção científica de natureza predominante na modernidade encontra no reducionismo bioquímico um aliado indissociável na formação do conceito de organismo que se disseminou nas ciências da vida e na medicina ocidental a partir do século 18. No contexto de tal quadro conceitual, é natural que se concebam procedimentos investigativos que operem o desmembramento do organismo em suas partes constituintes. Do estudo de tais partes segue-se o exame do todo por meio da consideração das relações que podem ser entre elas estabelecidas. Tais procedimentos analítico-sintéticos operam de acordo com as segunda e terceira regras cartesianas para a condução do espírito, a saber, a regra da decomposição (segundo a qual se deve dividir o objeto de estudo em quantas partes forem necessárias) e a regra da ordem (que preconiza a partir dos problemas mais simples para os mais complexos).
A concepção materialista acerca dos animais que os vê como meras máquinas bioquímicas, animais sem anima, incapazes de sofrer, insere-se no contexto do desencantamento do mundo moderno. Pensá-los assim torna menos problemático e incômodo, do ponto de vista ético, utilizá-los friamente como meros objetos de estudo. Ainda assim, o incômodo não é de todo eliminado, não sendo raro ouvir declarações de que a vivissecção é um mal necessário. Pensar em que medida a vivissecção é de fato necessária implica refletir sobre os elementos determinantes de um paradigma das ciências biológicas que inclui a vivissecção como técnica indispensável.
O mecanicismo reducionista mencionado certamente faz parte dessa história. Vejamos que outros elementos ainda poderíamos considerar. Uma coisa é crer na ciência como algo que dá a conhecer as coisas como são, resolve todos os reais problemas da humanidade e é suficiente para satisfazer todas as necessidades legítimas da inteligência humana; outra é crer que os métodos científicos devem ser estendidos, sem exceção, a todos os domínios da vida humana; e uma terceira é, dentro do contexto científico, crer em apenas uma forma particular de resolver problemas específicos. A primeira crença diz respeito à imersão na ideologia cientificista, a segunda na ideologia tecnicista e a terceira em um paradigma científico qualquer de caráter específico (no caso, aqui, considerado um paradigma que envolve a vivissecção).

viés positivista
Por "viés positivista",
entende-se toda a visão da
ciência ou da filosofia fundada
na concepção do positivismo,
isto é, a doutrina
na qual a "ciência posivita"
seria utilizada para o progresso
da sociedade. O
principal formulador teórico
do positivismo foi Auguste
Comte (1798-1857). Essa
escola filosófica foi muito
forte no final do século 19
e marcou presença nas
ciências naturais e sociais,
na fi losofia, na criminologia
e no direito, entre outros
campos do conhecimnto.

Unindo o útil ao desagradável
A "necessidade" da vivissecção apresenta um viés positivista
, na medida em que é concebida em termos pragmáticos. Revela, assim, um tom particular da cultura científica, por meio da exaltação das ideologias cientificista e tecnicista. Defender a vivissecção como técnica única (ou
unicamente confiável) de investigação nas ciências biomédicas é partir do princípio positivista de que apenas os fatos concreta e diretamente observáveis são fonte segura de conhecimento. Tal concepção tira sua grande aceitação de seu maior objetivismo pragmático, o que possibilita maior controle e operacionalização do mundo e, se quisermos incluir o contexto capitalista, de obtenção de lucros.
Poderíamos perguntar: se a vivissecção é necessária, ela o é para quê? O aspecto relativo à sobrevivência da nossa espécie em sua luta contra as difi culdades impostas pelo ambiente nos vem imediatamente à mente. Tal preocupação direta com a sobrevivência não é, entretanto, nem o único nem o principal motivador da manifestação da necessidade da referida prática. Preocupar-se com a sobrevivência da espécie pura e simplesmente não implica, necessariamente, defender uma única forma de atingir esse objetivo. Certamente há, e a história e outras culturas insistem em nos mostrar, formas diversas de garantir a preservação de nossa espécie. A questão aqui é defender em massa uma técnica ou prática específica (vivissecção) como sendo a única seriamente capaz de dar conta do problema, o que parece não deixar dúvidas quanto a seu caráter ideológico e à afirmação de um paradigma. Tal paradigma é tido como fato consumado, e todo pensamento fica restrito a seus limites. Assim, por exemplo, quando alguém diz: "(...) se não fizermos em animais em quem iremos fazer?" "Não podemos fazer em seres humanos..." "Então vamos fazer isto em criancinhas?"
Raciocínio
Não é vislumbrado o caráter eletivo da técnica, sendo o raciocínio construído apenas com os elementos fornecidos pelo paradigma. Ou seja, já se parte do princípio de que é necessário abrir e dissecar alguma coisa para que se chegue a um conhecimento confiável sobre a biologia do organismo desses animais. Isso não se discute; resta apenas decidir em quem realizar a exploração. Neste pensar-dentro-doslimites há uma ênfase e grande preocupação em dar continuidade e fazer progredir algo que já existe (o paradigma), que é fato consumado e acima de suspeitas (e, portanto não é alvo de críticas) e que se acredita só poder manter-se de uma única forma.
Examinemos alguns depoimentos colhidos de estudantes e pesquisadores praticantes da vivissecção (os depoimentos foram extraídos de livro de minha autoria, intitulado Vozes do Silêncio, publicação de minha dissertação de mestrado):
"(...) se não fizermos isso, como vamos descobrir novos remédios e vacinas? Não vejo outra forma de testar métodos ou substâncias que poderão ser utilizadas em favor da humanidade."
"O uso destes animais é para o bem da ciência."
"Apesar do sacrifício destes animais, acho que há justificativa para o avanço da ciência."
"[a vivissecção] é necessária e já trouxe muitos avanços para a biologia, medicina etc."
"(...) desde que traga vantagens à ciência."
"Não sou a favor da (sic) matança por hobby! Sou apenas a favor do desenvolvimento da ciência."
"Em laboratórios científicos, os animais são sacrificados (mesmo com sofrimento, muitas vezes), mas em prol do avanço em pesquisas."
" (...) [a vivissecção] é fundamental para o progresso da medicina."


Nota-se que não foi dito que o uso dos animais serve à sobrevivência do homem, mas ao bem da ciência e da medicina, que devem ser, elas e não o homem, perpetuadas. Sendo assim, a vivissecção serviria, para além da óbvia obtenção de informação acerca dos organismos, para o progresso e manutenção de uma forma específica de conhecer tida, ideologicamente, como a mais eficiente ou exclusiva. Nesse tipo de depoimento, dificilmente é feita referência a métodos alternativos ou substitutivos de pesquisa. Não se concebe outro modo de estudar a fisiologia dos animais. O caráter monolítico, unidimensional, acrítico e alienado dos discursos aponta a vivissecção como prática inercial e tradicional, além de parte integrante, tida como indispensável, do paradigma moderno das ciências biológicas. Vista como mal necessário, a prática da vivissecção cega cientistas e educadores para a busca de métodos alternativos ou substitutivos. Com ela, ficam ciência e homem empobrecidos.


*João Epifânio Regis Lima é doutor em filosofia e mestre em psicologia pela universidade de são paulo. é professor de filosofia da ciência e estética na universidade metodista de São Paulo


Referências

Descartes, R. Meditações metafísicas. Tradução de Maria E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_____________. O discurso do método. Tradução de Maria E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

_____________. Regras para a direção do espírito. Lisboa: Edições 70, 1989.

Kuhn, T.S. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago, 1982.

Lima, J.E.R. Vozes do silêncio: cultura científica e alienação no discurso sobre vivissecção. São Paulo: Instituto Nina Rosa, 2008.
Wermus, D. Pour une Science Sans Violence; l'expérimentation animale en Suisse. Genève, Payot Lausanne, 1984



FONTE: Filosofia UOL




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