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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Animais : alma ou objeto inanimado?


 
Foto: Sebastião Salgado


Segundo o Cogito cartesiano “Penso, Logo Existo”, somente aquele que existe é capaz de pensar e assim ao pensar, é capaz de expressar-se através da linguagem. A questão é que, será que somente a linguagem humana e humana considerada civilizada, é demonstração de pensamento ou racionalidade, levando os corpos da capacidade de pensar a possibilidade do existir?
Se “Eu penso” e sendo assim existo, que é de meu outro, aquele que diante de mim não me traz a certeza de que ele pensa ou não? Falamos aqui de um conceito solipcista onde o meu “Eu subjetivo” é quem fala pelo outro, quem dá ao outro o direito de existir ou não existir tanto para mim quanto para o mundo de minhas relações. Não importa o meu desconhecimento sobre ele e suas faculdades, pois se eu não o compreendo se não o vejo utilizar-se da mesma razão pela qual me guio, imediatamente ele deixa de existir para mim: “...nós que imaginamos agora que nada existe fora do pensamento que verdadeiramente seja ou que exista[...] e que somos somente porque pensamos.”(Descartes)
Se somos somente porque pensamos, relacionamos uma imensa quantidade de outros seres no âmbito da não-existência, ou seja, da total invisibilidade.Ele não pensa, ele não existe, eu não o vejo. Pode-se com isso dar margem a um pensamento que mostre que durante muitos anos colocamos na invisibilidade inúmeros seres vivos somente porque acreditávamos que eles não racionalizavam como nós, os “humanos civilizados”, primeiro porque não compreendíamos seu linguajar estranho aos nossos ouvidos, então os chamamos de bárbaros, depois não  aceitando seus costumes os escravizamos - assim fizemos com os índios e com os negros - depois nos achando mais racionais submetemos também as mulheres, e ainda hoje mantemos aprisionados na Moderna invisibilidade outros seres vivos aos quais não compreendemos.

Um erro ou uma distorção da realidade repetido dez vezes, cem vezes, mil vezes, torna-se verdade (ainda mais quando sua proliferação emana dos grandes , dos poderosos, dos oficiais, das instituições), esse tipo de mentira piedoso passa por certeza definitiva. (Michel Onfray )
Imagem: Coruja
Mas qual o critério para se estabelecer uma verdade? Foi a essa questão que Descartes quis responder em boa parte de sua obra, sobretudo no “Discurso do Método” e nas “Meditações Metafísicas”, o que o tornou de alguma forma um dos filósofos mais questionados da Modernidade, não apenas por dizer que a razão é o caminho seguro para qualquer verdade, pois é ela que ilumina e esclarece os seres humanos tirando-os da escuridão e da ignorância, mas ao dizer “Je pense, donc je suis[i]” ou “Penso , logo existo”, o Cogito, que iria separar a razão da des-razão, os europeus dos selvagens, o homem branco dos bárbaros, os homens dos animais . Ao dizer “Cogito ergo sum”, Descartes colocou a importância do eu diante dos demais. Eu penso, não sei se o outro pensa. Eu penso, eu existo, não sabendo se o outro pensa, ele pode simplesmente deixar de existir para mim. Esse pensamento reduzido numa frase  teve um peso fortíssimo sobre a dominação violenta que ocorria e que passou a ocorrer nas demais épocas que precederam Descartes, não apenas em relação aos seres humanos, mas ainda hoje podemos notar a presença forte do Cogito em relação aos animais. Quando eu penso, passo a existir e deste modo reconheço a minha identidade, o que não acontece em relação ao outro, o que me permite não ter qualquer alteridade em relação a ele. A  minha verdade é válida, a minha razão é válida e não a razão do outro. Em minha racionalidade, aquele outro que não se utiliza da razão como eu, não merece qualquer consideração, ele pode existir fisicamente, mas não pensando ou racionalizando, ele não é um ser humano como eu , mas um objeto que posso dominar e violentar.
Outra questão que talvez tenha permitido a dominação violenta de muitos povos e dos demais seres vivos foi a dicotomia entre a alma e o corpo também idealizada por Descartes. Ao separar corpo e alma o filósofo chegaria à conclusão de que o pensamento existia apenas na alma, o que deu margem a um pensamento de negação daquele a quem os dominadores acreditassem “não possuíam pensamento nem razão”. Essa dicotomia permitiu uma dicotomia mais violenta, a de que aqueles que se acreditam racionais porque pensam e assim acreditam que existam,  possam violar, dominar e submeter qualquer outro ser vivo a quem ele  “racionalmente” imponha seu pensamento de que tais seres não possuam nem alma e por isso, razão, ou seja : é a minha subjetividade que julga o outro. Deste modo parece que a estes seres racionais tudo é permitido em termos de violência, pois qualquer um que para ele não possua alma não é seu outro, não o obrigando a ter por  este qualquer alteridade.
Talvez tenha sido a razão do Cogito Ergo Sum que tenha considerado sem alma, portanto sem razão, os  negros, os índios e as mulheres e talvez ainda seja a força do cogito que faça com que a grande maioria das pessoas façam o mesmo em relação aos seres mais marginalizados de todos, neste âmbito cartesiano: os animais. O uso de correntes, de açoites, o encarceramento, o uso para diversão, os mais diversos veículos de transportes como trens, navios e caminhões,os assassinatos sem remorso de todos os seres humanos e não –humanos, são bem semelhantes ao longo da história humana. Sem alma, sem razão, sem pensamento ou linguagem inteligível ao meu eu e, portanto, sem dor. Os mesmos navios que transportavam vidas humanas de um Continente ao outro, hoje transportam vidas desconsideradas pelo Cogito : “...sobre o transporte de longa distância de animais vivos, com objetivo de serem abatidos no local de destino: são viagens por terra e pelo mar e que às vezes duram mais de 30 dias”. (Jaime Chatikin).Os índios sofreram, os negros e as mulheres sofreram, os animais não-humanos ainda sofrem sob o peso do Cogito tornando seus corpos invisíveis, seus gritos silenciosos e suas dores despercebidas:
Com efeito, no século subseqüente ao da morte de Descartes, seus seguidores celebrizaram-se pelo tratamento cruel que davam aos animais no curso da pesquisa experimental em fisiologia; sabemos que o próprio Descartes praticava a vivissecção com aparente serenidade.(Cottingham)
Imagem: Cão de Pavlov(experimentação)
Não podemos, contudo, colocar toda a culpa sobre os ombros de Descartes no que se refira a força do Cogito deixada na experimentação animal. Tal como Descartes seu Cogito e o Mecanicismo , outros já desconsideravam a senciência animal como é o caso de Willian Harvey e Gomes Pereira que em sua obra “Antoniana Margarita” tratava eloquentemente sobre o automatismo dos animais deixando uma frase muito semelhante a de Descartes “ Nosco me aliquid noscere, et quidquid noscit est ergo sun” -Conheço que conheço algo, e tudo o que conhece é: portanto sou-  porém parece ter sido o peso do Cogito que fortaleceu a ideia de que os animais por não racionalizarem como os seres humanos e não possuírem alma, eram passíveis de subjugações violentas em nome do ser que era tido como pura razão: o homem.
O que podemos dizer é que, contudo que outros igualmente disseram, a força do Cogito prevaleceu favorecendo a invisibilidade do sofrimento animal, provavelmente porque incitava o orgulho da espécie dominadora, seu dualismo entre a alma e o corpo tirou dos animais qualquer direito ético e moral que um dia poderiam vir a ter, e encontrou solo fértil na mentalidade humana extremamente antropocêntrica de sua época , refletindo sua força ainda nos dias de hoje. Essa razão reducionista de Descartes talvez tenha contribuído imensamente para o solipcismo que encontramos nos dias atuais, tanto entre os humanos quanto deles para s demais espécies e entendendo-se para todo o Planeta: “O forte efeito da produção pecuária, especialmente criação de gado, sobre o efeito estufa é muito bem estabelecido, e novamente confirmado em nosso estudo. Um dos mais bem conhecidos estudos é “A grande sombra da pecuária” (Elke Stehfest).
Imagem: Kardec

O que diz o Espiritismo?

O espiritismo veio e provou que os animais possuíam uma alma, que tal como a dos seres humanos, encontrava-se em processo evolutivo, como se pode ler no Livro dos Espíritos.

597. Se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria? 
R. Sim, e que sobrevive ao corpo.

Porém o que mudou desde a aceitação da alma dos animais? Bem pouco, pode-se dizer, e é simples explicar os motivos. Vistos como objetos os animais podem serenamente e descomprometidamente, serem utilizados a bel prazer dos seres humanos. No dia a dia , embora muitos não percebam ainda, a própria alimentação transforma seres vivos e sencientes em seres-objetos, disponíveis e descartáveis. No momento do abate o animal não é visto como ser vivo, mas como objeto a ser “desmontado”, fatiado e embalado. No momento em que vai ao supermercado e se compra partes deste animal-objeto, mais uma vez não se enxerga ali o irmão animal que possui alma, que reencarna e quem sabe um dia foi ou virá a ser um animal de estimação. Esse quadro animal-alma, ser reencarnante e Centelha Divina passa totalmente despercebido diante de nossa inssenssibilização a determinados animais.

Quando se abandona um animal, a percepção daquele “dono/proprietário” que o abandona é a de alguém que não vê ali um ser vivo , mas um mero objeto do qual deseja se desfazer. Para ele não há naquele ser qualquer sentido ou significado, a consciência não vai acusá-lo de remorso, tal como não acusa aquele que come carne ou aquele que pesca ou tantos outros tipos de coisas que fazemos aos animais. Em cada um de nossos atos intencionais seja de abandono, de rejeição, de tortura ou de exploração , não há a percepção do animal-alma, do ser vivo dotado de senciência física e psicológica e o mais agravante de tudo é que muitas vezes as pessoas não se dão conta dessa falta de percepção em relação ao que possui vida. A exemplificação do animal-objeto é facilmente perceptível por aqueles que estão ao lado dos animais-alma e é dificilmente compreendida por aqueles que vêem apenas o lado animal-objeto.

A pesca esportiva, onde os animais são retirados de seu ambiente natural a força após uma “briga” desleal com o ser humano é um exemplo claro de animal-objeto. O anzol que lhe perfura a boca extremamente sensível não é visto como causador de dor, pois o prazer de retirar o peixe da água é maior do que a percepção de que o animal está em sofrimento pois está lutando pela vida. Além disso, o ferimento na boca pode fazer com que o peixe pare de se alimentar, o ferimento ainda pode infeccionar e a lesão pode fazer com que ele seja atacado por peixes mais vorazes, ocasionando-lhe a morte, morte essa que continua a ser imperceptível ao ser humano que, mais uma vez preocupa-se com o prazer próprio,  que geralmente eva o animal ao estresse, ao medo e a dor. É falacioso asseverar que exista pesca esportiva sem crueldade, não existe nenhum “pesque e solte” sem dor tal como não existe o “abate humanitário”, essas expressões são apenas uma forma de manter nos seres humanos essa visão de animal-objeto, de inferioridade que permite determinadas violências contra determinados animais. É indiscutível a capacidade dos peixes de sentirem dor ou medo, sua frequencia cardíaca se acelera tal como sua respiração, como em todos os mamíferos, nos peixes também ocorre à descarga de adrenalina nestes momentos adversos, de outra maneira por que lutariam tanto contra os anzóis? Mesmo assim eles continuam sendo vistos apenas como animais-objetos, desprovidos de alma e de qualquer sensibilidade.

Outro exemplo cotidiano e que passa despercebido são os “cães de aluguel”. Cães utilizados para guarda de terrenos/residências vazias que são deixados por seu “donos/proprietários” (que detém propriedade sobre algo) e que são muitas vezes deixados sozinhos nesses locais para efetuarem esse trabalho em troca de água, comida e abrigo. Lembrando que muitos nem sequer possuem direito a esses três itens. Animais como estes às vezes morrem de doenças que poderiam ser facilmente evitadas com uma atenção especial a sua necessidade de ser reconhecido como animal-alma e não como mero objeto. Problemas como bicheiras, desidratações por diarreias, infecções por ferimentos corto-contusos , leptospirose e mesmo fome/sede entre muitas outras ocorrências, levam muitos animais a óbito. No caso de bicheiras, a exposição de uma ferida no animal, se bem cuidada e tratada logo em seu surgimento evitaria o ciclo da miíase que  ocorre entre o 21º e 23° dias  e que pode, se não vista a tempo e dependendo do local onde ocorra, levar o animal a morte. A leptospirose ocorre geralmente porque a ração e a água são largadas num canto qualquer para que o animal se alimente enquanto o “dono/proprietário” não retorne para visitá-lo e ver suas condições, isso pode levar de 3 a 5 dias ou até mais. Esse período em que fica sozinho o animal pode machucar-se ou até ser envenenado não recebendo socorro a tempo o que pode lhe ser fatal. Porém, o “dono/proprietário” não o significando como animal-alma, não percebe que o trata como objeto de lucro, um escravo moderno que trabalha na guarda por falta de opção. Inúmeras outras visões de animal-objeto poderiam ser descritas aqui, mas essas já são suficientes para fazer com que repensemos nossas ações diárias.
Este pensamento reducionista é o que está causando as atuais e perturbadoras ações contra animais que temos assistido, tornando corpos invisíveis como o mecanicismo cartesiano fez. Essa visão interfere na conduta humana em relação aos animais e demais seres orgânicos e que tornam habitável o nosso Planeta. A questão que fica é: será que os seres humanos desejam se desvencilhar do solipcismo que os separa de todos e que os faz enxergar não o animal –alma, mas o animal objeto?
Esperamos que sim.



Simone Nardi


REFERÊNCIAS

CHATIKIN,Jaime . Os Novos Navios Negreiros.   -http://www.anda.jor.br/2009/03/02/os-novos-navios-negreiros/

COTTINGHAM, Cottingham- Dicionário Descartes
 
DESCARTES, René . Os Pensadores . São Paulo. Nova Cultural.

Kardec, Allan- O Livro dos Espíritos

ONFRAY, Michel -  Preâmbulo, a historiografia, uma arte da guerra.

PEREIRA, Gomes. Antoniana Margarita .-http://www.filosofia.org/cla/per/per01.htm  e http://www.filosofia.org/bol/not/bn008.htm 

VEGA, Miguel Sanches. Estúdio comparativo de la concepcion mecânica Del animal y sus fundamentos en Gomes Pereira y Renato Descartes.- http://www.filosofia.org/cla/per/1954veg4.htm

Os peixes são 'maquiavélicos', dizem cientistas-http://www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/story/2003/09/030901_peixinhog.shtml

Cientistas dizem que os peixes sentem dor www.bbc.co.uk/portuguese/ciencia/030430_peixesmv.shtml

Cientistas afirmam que peixes sentem dor-www.noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,6752,OI104033-EI238,00.html


Pesque e solte é discutido por pesquisadores
www.comciencia.br/especial/aquic/aquic04.htm


Cientistas dizem que os peixes sentem dor
http://www.homenews.com.br/article.php?sid=1029







Simone Nardi









Simone Nardi – criadora deste blog e do antigo Consciência Humana, colunista do site Espírita da Feal (Fundação Espírita André Luiz) ; é fundadora do Grupo de Discussão  Espírita Clara Luz que discute a alma dos animais e o respeito a eles.Graduada em Filosofia e Pós-graduada em Filosofia Contemporânea e História pela UMESP.






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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Próximos artigos e estudos

Todos os dias estamos trabalhando para deixar o Blog com mais informações e esclarecimentos dentro daquilo que nos propusemos a estudar ; Tratar do assunto "animais" dentro dos temas da Ciência, Filosofia e Religião, temas estes com os quais transitamos há muitos anos; fizemos um planejamento para o blog, variando entre temas/artigos de interesse geral e temas que também nos foram solicitados por muitos amigos através do Fale Conosco.

Esperamos mais sugestões, mais críticas e mais amigos.

Próximos temas:


Osteosarcoma X Homeopatia X Eutanásia

A eutanásia nos animais(visão espiritual)

Animais, nossos irmãos - Estudo

Animais, plano espiritual e erraticidade

Descartes: A razão sem razão; crítica ao automatismo animal

As Plantas

Quem são os oprimidos, uma questão de alteridade

Ensaio sobre a cegueira


Até breve


Simone




quinta-feira, 2 de maio de 2013

Vivissecção:mal necessário?

Baseada em uma visão positivista e pragmática, a ciência utiliza animais como cobaia de experimentos. Mas será que não é mesmo possível utilizar métodos alternativos que não sacrifiquem e maltratem seres vivos?



Por João Epifânio Regis Lima*



 
Shutterstock

Por vivissecção entendemos o uso de animais vivos como cobaias em laboratórios de pesquisa biológica ou biomédica. Animais vêm sendo utilizados como cobaias em investigações e explorações sobre a natureza há muito tempo. Sabemos, por exemplo, que Aristóteles observou e dissecou cadáveres de animais e lemos algumas das conclusões por ele obtidas em sua História dos Animais ou em Partes dos Animais ou em seus textos sobre o Movimento dos Animais, a Progressão dos Animais e a Geração dos Animais. Sabemos também dessa prática, já no Renascimento, associada aos estudos de anatomia de Andrea Vesalius
ou mesmo de Leonardo da Vinci, em um momento em que a valorização do experimento preparava a revolução científica do século 17. O passo decisivo, entretanto, para que a vivissecção assumisse a importância que hoje em dia lhe é atribuída no meio científico foi dado pelo fisiologista francês aClaude Bernard (1813-1878) em sua Introdução ao Estudo da Medicina Experimental, publicada em 1865. Claude Bernard é considerado o pai da moderna fisiologia experimental e o que fez para receber tal homenagem foi justamente tratar a vivissecção como parte indispensável do método experimental nas ciências biomédicas.


Shutterstock

Questionamento
Entretanto, o quadro apresentado acima, muito lido simplesmente como mais um capítulo enfadonho da história da ciência (deveríamos dizer "histórias das ciências"), suscita questionamentos importantes quando examinado mais atentamente. Considere-se, por exemplo, que a filha e a esposa de Claude Bernard, após o abandonarem, fundaram a primeira sociedade antivivisseccionista francesa, em reação aos horrores que presenciavam em sua própria casa. Bernard mantinha um laboratório e um biotério nos porões de sua residência, de onde se podia ouvir, dia e noite, os gritos desesperados dos animais que eram ali diariamente torturados. É importante saber que se estima que em apenas 15% dos experimentos envolvendo animais vivos é utilizado algum tipo de anestesia nos dias de hoje (WERMUS, 1984). No tempo de Bernard, esse número era certamente menor. Era comum entre os vivisseccionistas da época - e ainda é hoje em dia - uma concepção mecanicista acerca da natureza que, no caso específico das ciências biomédicas, confundia mecanismo com organismo
Segundo essa concepção, os seres vivos são considerados máquinas que obedecem apenas a leis mecânicas e que são incapazes de sentir dor. Essa ideia deriva da distinção entre corpo e alma proposta por Descartes, mas não sem lhe fazer injustiça. A injustiça vem da confusão que aqui se opera entre distinção e separação. Corpo e alma são substâncias distintas, diz Descartes nas Meditações e em As paixões da alma, mas inseparáveis.
A analogia, adotada por Claude Bernard, entre o grito do animal que sofre e o ranger das engrenagens de uma máquina explica-se - mas não se justifica - pela consideração unilateral e parcial do composto corpo-alma cartesiano. Deriva da atenção que se detém nas características do corpo segundo o que nos apresenta Descartes, mas esquece a unidade indissociável entre o corpo e a alma. Se tivermos, portanto, que pensar uma medicina cartesiana, será necessário pensar uma medicina psicossomática e não puramente mecanicista como aquela implicada no modelo assumido por Bernard.


"A concepção materialista acerca dos animais que os vê como meras máquinas bioquímicas, animais sem anima, incapazes de sofrer, inserese no contexto do desencantamento do mundo moderno"

Reducionismo Bioquímico
O mecanicismo que impregna a concepção científica de natureza predominante na modernidade encontra no reducionismo bioquímico um aliado indissociável na formação do conceito de organismo que se disseminou nas ciências da vida e na medicina ocidental a partir do século 18. No contexto de tal quadro conceitual, é natural que se concebam procedimentos investigativos que operem o desmembramento do organismo em suas partes constituintes. Do estudo de tais partes segue-se o exame do todo por meio da consideração das relações que podem ser entre elas estabelecidas. Tais procedimentos analítico-sintéticos operam de acordo com as segunda e terceira regras cartesianas para a condução do espírito, a saber, a regra da decomposição (segundo a qual se deve dividir o objeto de estudo em quantas partes forem necessárias) e a regra da ordem (que preconiza a partir dos problemas mais simples para os mais complexos).
A concepção materialista acerca dos animais que os vê como meras máquinas bioquímicas, animais sem anima, incapazes de sofrer, insere-se no contexto do desencantamento do mundo moderno. Pensá-los assim torna menos problemático e incômodo, do ponto de vista ético, utilizá-los friamente como meros objetos de estudo. Ainda assim, o incômodo não é de todo eliminado, não sendo raro ouvir declarações de que a vivissecção é um mal necessário. Pensar em que medida a vivissecção é de fato necessária implica refletir sobre os elementos determinantes de um paradigma das ciências biológicas que inclui a vivissecção como técnica indispensável.
O mecanicismo reducionista mencionado certamente faz parte dessa história. Vejamos que outros elementos ainda poderíamos considerar. Uma coisa é crer na ciência como algo que dá a conhecer as coisas como são, resolve todos os reais problemas da humanidade e é suficiente para satisfazer todas as necessidades legítimas da inteligência humana; outra é crer que os métodos científicos devem ser estendidos, sem exceção, a todos os domínios da vida humana; e uma terceira é, dentro do contexto científico, crer em apenas uma forma particular de resolver problemas específicos. A primeira crença diz respeito à imersão na ideologia cientificista, a segunda na ideologia tecnicista e a terceira em um paradigma científico qualquer de caráter específico (no caso, aqui, considerado um paradigma que envolve a vivissecção).

viés positivista
Por "viés positivista",
entende-se toda a visão da
ciência ou da filosofia fundada
na concepção do positivismo,
isto é, a doutrina
na qual a "ciência posivita"
seria utilizada para o progresso
da sociedade. O
principal formulador teórico
do positivismo foi Auguste
Comte (1798-1857). Essa
escola filosófica foi muito
forte no final do século 19
e marcou presença nas
ciências naturais e sociais,
na fi losofia, na criminologia
e no direito, entre outros
campos do conhecimnto.

Unindo o útil ao desagradável
A "necessidade" da vivissecção apresenta um viés positivista
, na medida em que é concebida em termos pragmáticos. Revela, assim, um tom particular da cultura científica, por meio da exaltação das ideologias cientificista e tecnicista. Defender a vivissecção como técnica única (ou
unicamente confiável) de investigação nas ciências biomédicas é partir do princípio positivista de que apenas os fatos concreta e diretamente observáveis são fonte segura de conhecimento. Tal concepção tira sua grande aceitação de seu maior objetivismo pragmático, o que possibilita maior controle e operacionalização do mundo e, se quisermos incluir o contexto capitalista, de obtenção de lucros.
Poderíamos perguntar: se a vivissecção é necessária, ela o é para quê? O aspecto relativo à sobrevivência da nossa espécie em sua luta contra as difi culdades impostas pelo ambiente nos vem imediatamente à mente. Tal preocupação direta com a sobrevivência não é, entretanto, nem o único nem o principal motivador da manifestação da necessidade da referida prática. Preocupar-se com a sobrevivência da espécie pura e simplesmente não implica, necessariamente, defender uma única forma de atingir esse objetivo. Certamente há, e a história e outras culturas insistem em nos mostrar, formas diversas de garantir a preservação de nossa espécie. A questão aqui é defender em massa uma técnica ou prática específica (vivissecção) como sendo a única seriamente capaz de dar conta do problema, o que parece não deixar dúvidas quanto a seu caráter ideológico e à afirmação de um paradigma. Tal paradigma é tido como fato consumado, e todo pensamento fica restrito a seus limites. Assim, por exemplo, quando alguém diz: "(...) se não fizermos em animais em quem iremos fazer?" "Não podemos fazer em seres humanos..." "Então vamos fazer isto em criancinhas?"
Raciocínio
Não é vislumbrado o caráter eletivo da técnica, sendo o raciocínio construído apenas com os elementos fornecidos pelo paradigma. Ou seja, já se parte do princípio de que é necessário abrir e dissecar alguma coisa para que se chegue a um conhecimento confiável sobre a biologia do organismo desses animais. Isso não se discute; resta apenas decidir em quem realizar a exploração. Neste pensar-dentro-doslimites há uma ênfase e grande preocupação em dar continuidade e fazer progredir algo que já existe (o paradigma), que é fato consumado e acima de suspeitas (e, portanto não é alvo de críticas) e que se acredita só poder manter-se de uma única forma.
Examinemos alguns depoimentos colhidos de estudantes e pesquisadores praticantes da vivissecção (os depoimentos foram extraídos de livro de minha autoria, intitulado Vozes do Silêncio, publicação de minha dissertação de mestrado):
"(...) se não fizermos isso, como vamos descobrir novos remédios e vacinas? Não vejo outra forma de testar métodos ou substâncias que poderão ser utilizadas em favor da humanidade."
"O uso destes animais é para o bem da ciência."
"Apesar do sacrifício destes animais, acho que há justificativa para o avanço da ciência."
"[a vivissecção] é necessária e já trouxe muitos avanços para a biologia, medicina etc."
"(...) desde que traga vantagens à ciência."
"Não sou a favor da (sic) matança por hobby! Sou apenas a favor do desenvolvimento da ciência."
"Em laboratórios científicos, os animais são sacrificados (mesmo com sofrimento, muitas vezes), mas em prol do avanço em pesquisas."
" (...) [a vivissecção] é fundamental para o progresso da medicina."


Nota-se que não foi dito que o uso dos animais serve à sobrevivência do homem, mas ao bem da ciência e da medicina, que devem ser, elas e não o homem, perpetuadas. Sendo assim, a vivissecção serviria, para além da óbvia obtenção de informação acerca dos organismos, para o progresso e manutenção de uma forma específica de conhecer tida, ideologicamente, como a mais eficiente ou exclusiva. Nesse tipo de depoimento, dificilmente é feita referência a métodos alternativos ou substitutivos de pesquisa. Não se concebe outro modo de estudar a fisiologia dos animais. O caráter monolítico, unidimensional, acrítico e alienado dos discursos aponta a vivissecção como prática inercial e tradicional, além de parte integrante, tida como indispensável, do paradigma moderno das ciências biológicas. Vista como mal necessário, a prática da vivissecção cega cientistas e educadores para a busca de métodos alternativos ou substitutivos. Com ela, ficam ciência e homem empobrecidos.


*João Epifânio Regis Lima é doutor em filosofia e mestre em psicologia pela universidade de são paulo. é professor de filosofia da ciência e estética na universidade metodista de São Paulo


Referências

Descartes, R. Meditações metafísicas. Tradução de Maria E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

_____________. O discurso do método. Tradução de Maria E. Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

_____________. Regras para a direção do espírito. Lisboa: Edições 70, 1989.

Kuhn, T.S. The Structure of Scientific Revolutions. Chicago, 1982.

Lima, J.E.R. Vozes do silêncio: cultura científica e alienação no discurso sobre vivissecção. São Paulo: Instituto Nina Rosa, 2008.
Wermus, D. Pour une Science Sans Violence; l'expérimentation animale en Suisse. Genève, Payot Lausanne, 1984



FONTE: Filosofia UOL




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